1984 (Resenha)

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Google+ 0 Filament.io 0 Flares ×

Em um futuro distópico pós-revolução, um governo totalitário controla todos os aspectos da vida de seus cidadãos. As pessoas não vigiadas 24 horas por dia, relacionamentos afetivos de qualquer tipo são desencorajados, comportamentos “não ortodoxos” podem render uma visita da polícia e de tempos em tempos sujeitos considerados perigosos somem não apenas das vistas, mas da história. Para todos os lados, cartazes com a figura do mesmo homem, seu líder, onde se lê “O Grande Irmão está te observando”.

Antes de começar minha resenha do 1984 de George Orwell, publicado pela primeira vez em 1946 , eu vou ser sincero com vocês: Esse é meu livro preferido de toda a vida, então vou fazer um esforço para que o texto saia imparcial, já adiantando que isso provavelmente não vai acontecer.

Como a outra grande obra de Orwell, Revolução dos Bichos, resenhada por Mjonir mais cedo esse ano, 1984 lida com o totalitarismo do governo a partir de uma revolução aparentemente bem intencionada, e com as ferramentas utilizadas por esse governo para manter seus cidadãos na linha, convencê-los de que a vida está melhor sob o poder do grande líder, o Grande Irmão, e se livrar dos irrecuperáveis ou perigosos.

Nesse universo, a sociedade é dividida em três classes: O Partido Interno (aqueles mais próximos do poder), o Partido Externo (funcionários públicos, mas não membros do governo) e os Proles, a maior parte da população, que o governo controla de forma mais solta por não terem conhecimento ou organização o suficientes para apresentar algum risco.

Nosso protagonista é Winston Smith, um membro do partido interno, que tenta ao longo da obra dar vazão aos seus questionamentos quanto àquela sociedade sem pagar com a vida por isso. Com a sorte de morar em uma casa onde é possível sair da vista da teletela, um monitor que transmite as propagandas governamentais enquanto filma e grava cada um dos membros do partido em suas casas e lugares públicos todos os momentos do dia, começa a escrever um diário mesmo sabendo que o simples porte de papel e caneta são crimes.

Winston trabalha no Ministério da Verdade reescrevendo livros e jornais de forma que nenhuma informação do partido se contradiga, como por exemplo, contra quem sua nação está em guerra no momento, e apagando registros de existências de indesejáveis, que não devem ser apenas executados, mas ter qualquer prova de sua existência completamente eliminada.

O ponto que mais gosto no livro, e que acredito ser interessante para qualquer amante da comunicação, são a aplicação do “duplipensar”, uma forma de impedir que a população enxergue conflitos na ideologia ou no funcionamento do governo, e a “novilíngua”, língua oficial do Estado, que é pouco a pouco simplificada e enxugada, tornando cada vez mais difícil para que as pessoas exprimam conceitos complexos, e por consequência, que os absorvam.

O conceito de “duplipensar” em uma de suas descrições:

“O poder de manter duas crenças contraditórias na mente ao mesmo tempo, de contar mentiras deliberadas e ao mesmo tempo acreditar genuinamente nelas, e esquecer qualquer fato que tenha se tornado inconveniente.”

1984 não é sempre uma leitura fácil, não por usar uma linguagem particularmente elaborada, mas por sua narrativa áspera e a quantidade de informação que dispõe diversas vezes, mas (junto com Admirável Mundo Novo) é uma leitura que ajuda muito a entender o atual momento político do mundo. É um clássico, e por isso mesmo não posso evitar de recomendar para qualquer um que ame literatura.

Vinicius Mendes

Escritor, redator publicitário e conspirador pela dominação mundial. Quando não está trabalhando ou estudando, assiste animações e filmes chatos, conhece uns graphic novels e mangás, lê de Paulo Coelho a Saramago, joga videogame e RPG de mesa e tenta fazer receitas de doce que aprende no Youtube.

  • Darley Santos

    Essas estórias de controle absoluto sobre populações inteiras, com todo o arsenal de ardis ilusórios e instrumentos de coerção, simplesmente me dão calafrios! O indivíduo chega a um nível total de impotência diante de um sistema que o cerca de forma opressiva e onipresente; acho que é possível mesmo o indivíduo internalizar de tal forma a coerção sobre seu psicológico e comportamento que, de fato, chegará um momento em que nem pensar, nem verbalizar mentalmente, algo que fuja ou contradiga o que o sistema impõe o coitado será capaz – lobotomia via engenharia social. Meeeedo!