Contos

A Presença

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Google+ 0 Filament.io 0 Flares ×

Vou te contar o que eu sinto.

No início, eu via como pesadelos. Todos têm pesadelos. Todos abrem os olhos no meio da noite e, em meio à penumbra, a mente lhe prega uma peça e transforma qualquer silhueta em uma forma humana que o observa enquanto dorme. É a forma mais simples da escuridão tocar o fundo de sua espinha com um dedo gelado.

E isso me dava medo, muito medo. É terrível como o corpo humano reage a esse sentimento. Você tenta gritar, mas o tremor que cresce pelas costas e arrepia os pelos da nuca, esconde sua voz em um saco hermético impossível de abrir e torce sua garganta com as mãos fortes de um psicopata.

Quando os pesadelos aconteciam, meus pais me consolavam e diziam que tudo ficaria bem. Não, para mim, naquela época, nada ficaria bem. Nem quando as luzes se acendiam e aquela coisa que me encarava com olhos invisíveis voltava a ser apenas um cabideiro imóvel.

Esses eventos foram ficando mais reais, dia após dia, a ponto de não me deixar dormir e eu não querer estar acordado. Dormindo, não teria pesadelos. Acordado, eu veria sua forma em qualquer móvel imerso na escuridão do meu quarto, como uma sentinela a esperar pelo meu sono profundo.

Devo dizer que, em diversos momentos, eu acordei sentindo mãos invisíveis acariciar meu rosto e arrepiar cada poro de meus braços. Meu estômago revirava na barriga quando eu abria os olhos e via-o me observando próximo à minha cama. Se eu gritasse pelos meus pais ou saísse correndo para acender a luz, ele desaparecia como se fosse um sonho lúcido.

Essas situações estranhas aconteciam com frequência até o momento em que meus pais perceberam que eu precisava de ajuda.

Certo dia, enquanto eu assistia a uma gravação feita alguns meses atrás na igreja que meus pais frequentavam, que a dimensão dos acontecimentos se tornou mais física. Meus pais são católicos, mas não os mesmos católicos capazes de atirar pedras em você caso não siga os dogmas que lhe são impostos. Eles são diferentes.

Eu estava ali, largado no sofá da mesma forma que qualquer criança senta para assistir televisão. Eu estava sozinho. Era uma tarde de domingo e meus pais descansavam depois do almoço, aquele cochilo da tarde.

A gravação era de uma peça feita na noite de natal do ano anterior. Várias crianças, inclusive eu, vestidas de anjinhos aos pés do altar na paróquia da minha cidade cantando alegres e sorridentes. Mas não aquela garota. Ela estava ao meu lado com olhos negros inexpressivos, virada para quem segurava a câmera. O problema era que ela não olhava para câmera, como qualquer pessoa que está sendo filmada.

Ela olhava para mim.

Minha televisão não era mais um limiar de segurança, como é quando assistimos filmes de terror. Minha televisão era um canal de comunicação entre nós dois, um veículo que a menina usava para me mostrar sua existência peculiar.

Não sei quanto tempo se passou desde então, até o verdadeiro pavor me tocar. Minha respiração estacou e meus olhos arregalaram quando a boca daquela menininha se abriu em um sorriso infernal, escancarando-se como a boca de uma serpente pronta para me engolir.

Eu tapei os ouvidos com as mãos e fechei os olhos com força quando sua voz invadiu minha cabeça e senti sua respiração pesada na minha frente. Era uma voz doce, que dizia: “Venha brincar comigo. Sinto saudades de você. Venha brincar comigo…”. Ela repetia aquelas palavras, com intervalos irregulares, e eu vi, pela primeira vez, o abraço da loucura me tratar com intimidade.

Foi então que eu gritei. Minha voz infantil ressoou pela casa como a sirene de uma ambulância e acordou meus pais com a emergência de um acidente fatal. Não ousei abrir os olhos, mas ouvi o som dos passos pesados do meu pai crescerem pela escada e sua voz grave gritar com minha mãe algo sobre tirar a fita do videocassete.

O seu abraço foi a coisa mais reconfortante que eu já me lembro de ter sentido, apesar de eu não ter tido forças para retribuir.

Quando tive coragem de abrir os olhos, vi minha mãe murmurando orações com um terço e a fita no chão, pisada. O que veio a seguir, eu jamais esquecerei: a fita entrou em combustão espontânea, como se alguém tivesse despejado um galão de gasolina e riscado um fósforo. Não sei dizer o cheiro que senti, talvez fosse só o de plástico, mas lembro de ter sentido algo semelhante durante uma aula prática de química na universidade.

A partir daquele dia, meus pais deram mais atenção ao que eu dizia ouvir e ver. Fui levado a reuniões com os grupos de oração que eles conheciam, fui levado a conversas na presença com padres, pastores, benzedeiras, e participei de diversos acampamentos e encontros com outros jovens na igreja.

Hoje, 20 anos depois e afastado de todo reforço espiritual, ainda sinto resquícios da minha infância. Com o passar do tempo, fui me acostumando às vozes e às silhuetas que aparecem quando as luzes se apagavam. A presença se tornou reconfortante nos momentos de solidão, me deixando seguro como o abraço do meu pai que acabei de te contar.

Eu sinto que a presença não me abandou e nunca abandonará. Alguém sussurrou em meu ouvido antes de eu nascer: “veja o que eu vejo”. E eu continuarei vendo. Muitos idosos dizem isso é Deus concedendo a pessoas, seus anjos como proteção. Outros dizem que são visitantes mal-intencionados.

Uma coisa que minha avó me contou, uma vez, é que muitos são como eu. São agraciados desde o nascimento a nunca estarem sozinhos, pois há algo sempre à espreita, esperando o momento certo para fazer o chamado. Por isso, se você se sentir sozinho, saiba que eu sei que você também pode sentir a presença, assim como estou sentindo você agora.

Categorias
ContosLiteratura

Um escritor que trabalha como programador para pagar as contas.