A SINFONIA

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Já consigo ouvir o violino anunciar, numa melodia triste, deprimente, fazendo as nuvens chorar por se lembrar de todas as almas tristes. O silêncio na plateia vai aumentando, a sinfonia de cordas vai propagando um aconchego pelo ar. As folhas lá fora não suportam os ventos e entram na melodia, dançando até cair, tocando no chão tal como os dedos tocavam as cordas; A alegria transforma-se em alento, destruindo a atração do mais torpe sofrimento e acolhendo a melancolia como sua mais pura verdade.

Agora o piano nos mostrava o tom das lembranças, e as flautas nos acolhiam, dando importância ao mais esquecido dos pensamentos. O som era tão belo que abafou o andar dos relógios; para que enfim surgisse o violoncelo recebendo os elogios do silêncio e de tudo o que vinha depois. No andar da sinfonia, todos se perdem no dia, nas horas, ou em qualquer realidade que agredia com a repetição. Admirando a melodia nós destruímos as demoras.

Eu pude ouvir tudo se acalmar, mas estava terminando. Se conseguir sentir tudo se apressar, é porque estávamos voltando a esquecer. Voltamos para o mundo real, tão banal que não nos importamos em mudar mais. Já posso ouvir os carros poluir, ouvir os sons estragarem a paz, e se conseguir ver o ódio, não há nada mais que possa fazer; aquela era a sinfonia da cidade, esfregando a verdade nas nossas caras. Trazendo de volta as horas, o dia. E por mais estranho que pareça, havia certa poesia no apressar dos passos, no tic tac das demoras.

© Jadson L. Ribeiro

Jadson

Escritor, poeta e artista visual. Um amante incurável da literatura e das artes plásticas. O romance, a ficção científica e principalmente a fantasia me fascinam. Nerd assumido. Séries, filmes, animações e café são as coisas que melhoram meu dia. O mundo real é um lugar que às vezes me arrisco em visitar.