A Voz do Fogo, por Alan Moore – resenha.

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Salve, salve, seres humanos de todas as épocas da terra.

Há algum tempo estive m São Paulo para apresentação de um artigo científico e passei por alguns dos vários sebos daquela psicodélica cidade. Em um deles encontrei um livro que me surpreendeu.

A Voz do Fogo, por Alan Moore

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O livro é um romance, mas é construído como uma coletânea de 12 histórias curtas que se passam em uma mesma região da Inglaterra em anos diferentes. A primeira história se passa em 4000AC e a cada conto o tempo avança até o último que se passa em 1995, ano de publicação do livro. Essa é a estrutura.

Agora vem a parte difícil. Cada história tem uma estrutura própria e a forma com que as coisas mais simples vão sendo reveladas dentro delas é importante para a grande história que está sendo contada em todo o livro, de forma que, quase qualquer coisa que eu revele de qualquer um dos contos pode ser considerado um spoiler. Então vou falar do livro de uma forma mais geral.

“Ali está cavalo-olho-de-fogo, parada em grama, não mais com um homem e um outro de longe de eu. Ela olha pra eu, com olhos de ela com mais brilho que fogo e grande como toco de árvore. Faço eu xixi na perna de eu, que é chega quente, agora frio.”

Todas as histórias possuem elementos em comum, elementos esses que serão devidamente costurados pelo autor que é o personagem da última história. Se for para resumir, se é que isso seja possível, eu diria que esse livro é, além da história secreta de Northamptonshire, um compilado de histórias sobre linguagem, magia, sonhos, fé, perda, sexo, morte e, principalmente, o fogo.

“No alto da fogueira, em meio às faixas de fumaça e chamas, há uma figura.”

O fogo, e sua voz, são os elementos que guiam toda a história formada de histórias. Acho que esse é o resumo ideal do que esse livro é: A história secreta de uma cidade da Inglaterra contada através de fogueiras, shagfoals, sonhos e morte. Um romance entre um trabalho de pesquisa sensacional e uma técnica de narrativa ficcional fantástica.

O que eu achei?

Sem dúvida é um livro tecnicamente muito bom e um texto muito interessante por atacar várias formas de narrativa muito diferenciadas. Tem história contada por uma pessoa sem conhecimento de linguagem, tem história contada por uma pessoa morta, outra contada por uma pessoa louca e ainda uma contada por uma pessoa enquanto morre queimada em uma fogueira. É, no mínimo, muito ousado.

“Agora meus braços e ombros estão em chamas. Ao meu lado, embaixo das saias de Mary, ouço o chiado e o silvo de seus pelos do amor chamuscando, símbolo animal sagrado e secreto de nossa espécie”

Sobre o conteúdo, o que eu tenho a dizer é que eu sequer sei se eu entendi a história. Mas isso não é um incômodo. Nem todas as histórias são feitas para serem entendidas em um primeiro contato. É para isso que as camadas servem. O que eu posso dizer, sem nenhuma dúvida, é que não se trata de um livro fácil.

Conhecendo o autor e seu envolvimento com magia, é fácil dizer que trata-se de uma obra feita de forma mágica. É um livro estranho. Um livro mágico. Um livro poderoso.

“- Então sobre o que é o livro?
É sobre a mensagem vital que os lábios rijos de homens decapitados ainda exprimem. O testemunho de caẽs pretos espectrais escritos com xixi em nossos pesadelos. É sobre ressuscitar os mortos para que nos contem o que sabem. É uma ponte, uma passagem, um ponto gasto na cortina entre o nosso mundo e o submundo, entre a argamassa e o mito, entre o fato e a ficção. Uma gaze puída mais fina que uma página. É sobre a capacidade sobrenatural das bruxas de falarem línguas desconhecidas e a sua revisão mágica dos textos nos quais vivemos. Nada disso é exprimível em palavras.”

Parece que eu não vou conseguir resumir do que o livro trata, e isso é bom. Então vou tentar responder algumas perguntas objetivas e fazer algumas recomendações.

É um livro excelente? Sim.
É um livro fácil? Não.
É um livro agradável? Gostosinho de ler? Não. É um livro cansativo, mas um cansativo bom. Exaustivo como o sexo.Eu devo ler esse livro? Aí Depende.

“Suas palavras são de um vocabulário de luz, os lábios movem-se em silêncio, como se estivessem do outro lado do espelho, e, em meus ouvidos, a música atinge uma clareza perfeita, suas repetições e frases agora cheias de convicção. Acima dos ruídos das altitudes, cada sílaba estrangeira é límpida e ressonante, dolorosamente familiar em sua profundidade estranha, um murmúrio em camadas ecoando em todas as coisas. Eu conheço essa música.
Eu conheço”

Explico.
Se você quer ler uma história agradável e divertida, não leia esse livro.
Se você não gosta de histórias bad vibe que acabam mal, não leia esse livro.
Se você não gosta de magia, não leia esse livro.
Se você é menor de idade e não pode ler sobre sexo, não leia esse livro.

Se você curte magia e quer ver um mago aplicando os conhecimentos de mitologia estranha e obscura, leia esse livro.
Se você é fã dos quadrinhos do Alan Moore e quer ver ele pirando no texto sem nenhuma amarra, leia esse livro.
Se você está pronto para ficar extremamente cansado com uma leitura difícil, porém recompensador, leia esse livro.
E se você é um escritor e quer aprender a pirar na escrita, leia esse livro.

Em resumo, não é um livro para qualquer um.

“Pensando bem, um longo tempo se passou desde a última vez em que fui alvo para as pedras do tiro-ao-alvo das crianças. Elas andam afastadas, sem dúvida atrás de uma diversão mais nova.”

É isso galera. Desculpem o texto enorme.
Esse foi a resenha mais difícil que eu já escrevi.
Se você decidiu ler, lembre-se de voltar aqui para me agradecer ou me amaldiçoar quando acabar.
Deixe aí seu comentário.
Um abraço.
E tchal.

Post publicado originalmente por mim em Lugar Nenhum

“Olha nós, um para outro, de fogo de nós. Não tem dor agora. Só fumaça”

vulto

"Depois de mim sou eu."