ALGUNS MINUTOS

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Me dê alguns minutos, preciso encarar meus erros até agora. Sem demora, comece a me esfaquear, digo que sou culpado de errar, de tentar, e depois de tanto ódio, digo que sim, sou culpado de amar um amor tão tolo, tão perigoso, que podia me fazer penar numa realidade onde apenas o amor importava. E se isso é motivo de culpa, amarre as cordas, aperte-as com firmeza, pode me enforcar! Antes morto do que numa eterna destreza. Afogado no mar das águas salgadas de tristeza.

— Luis! — Eu dizia meu nome a ela. Ela não era a garota mais linda da sala, mas certamente não havia nenhuma outra ali com um sorriso tão verdadeiro.

— Bianca. — Ela sorriu.

Quando se é jovem, sentimos que podemos mudar o mundo! Assim como podemos colocar fogo nele e assisti-lo queimar. Sentimos que toda noite é infinita, e que toda paixão é o amor da nossa vida. Tudo está tão longe de acabar. Mas por dentro parece que tudo já acabou.

Não somos mais jovens, não mudamos mais o mundo, apenas falhamos ao tentar crescer. Os anjos se foram e viram o amor desaparecer, levaram embora a esperança no amanhã.

Ainda não somos velhos, não podemos descansar naquele banco de praça, achando graça de como tudo acabou, afinal, o futuro não era tão horrível como todos os dias ele parecia ser.

Restava o desejo de voltar, ser aquela criança brincando sem se preocupar com o tempo, sem se preocupar com onde e quando aquilo ia acabar.

Num piscar: acabou.

— Está contratado! — Ele disse, e aquele era meu primeiro emprego.

— Obrigado. — Lição importante: não agradeça quando roubam a sua alma.

E afinal eu não sabia de nada. Precisava urgentemente de um manual para a minha vida. Era uma grande injustiça não haver um.

Ainda me lembro de quando larguei tudo e disse a ela o quanto a amava. Eu ouvi o que não queria, sabia que era tão tarde quanto era verdade. O amor acaba, esfria, fica sem gosto, sem cheiro, sem cor. Principalmente quando não é verdadeiro e trás consigo apenas dor. Sofrer não faz parte da coisa de amar. Mas, se por acaso for sofrer: grite por aí que está sofrendo de amor.

Vivi então por assim ser. Arriscando-me e me mantendo quente. Agora eu sentia o quanto podia fazer tudo isso pegar fogo. Eu sentia que a cada noite vazia, eu enchia minha taça com o improvável. Tolo, tão tolo poeta, procurando sentir o que já não se sentia. Resistir amando, quando nada mais resistia.

Então o que posso fazer? O que posso falar? Sim estou prestes a morrer por abstinência, e creio que seja de amar. Não vejo mais sorrisos nas pessoas, nas ruas apenas preocupações; não vejo mais motivo para compor canções, agora tantas delas são banais, infectando e tirando a paz de quem ainda zela por ela. Mas ainda há de se acreditar nas belas canções, seja lá qual for a sua definição de belo, há de se crer que o belo se recusa a ser corrompido. Recusa-se a ser esquecido. E mesmo quando efêmera, a beleza abraça a memória de quem a reconhece e permanece ali. Resistindo.

O que mais será corrompido num mundo de tanta corrupção?

Vejo tantos erros em minha vida; mas se pudesse voltar, voltaria para as mesmas chuvas que me alegravam, ou para as noites de frio, as quais minha mãe esquentava com abraços iguais ao sol. Não voltaria para os erros, não me preocupo em concertá-los, apenas curtiria os acertos, poucos, raros, mas sempre motivo de alegria. Existia certa poesia nos acontecimentos. Sejam eles bons ou ruins. A poesia está sempre ali.

 

© Alguns Minutos,  por Jadson Ribeiro.

Jadson

Escritor, poeta e artista visual. Um amante incurável da literatura e das artes plásticas. O romance, a ficção científica e principalmente a fantasia me fascinam. Nerd assumido. Séries, filmes, animações e café são as coisas que melhoram meu dia. O mundo real é um lugar que às vezes me arrisco em visitar.