Cemitério de Estrelas

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Naquela noite eu estava deitado ao lado dela, no quintal, olhando para o céu cheio de estrelas.

— É verdade que as estrelas podem realizar desejos, Lis?

— Claro que não. — ela riu. — Não seja ridículo, Téo.

— Mas por que não?

— O que você vê não são exatamente estrelas. Você está vendo a morte delas. Muitas delas morreram há milhões de anos. Daquelas que podemos ver, não são todas que estão ali de fato. Imagine que você só está vendo o último suspiro das estrelas.

— Sério? Então o céu é um grande cemitério?

— Sim, se pensar assim, o céu é um cemitério de estrelas…

— Isso me parece injusto.

— Por quê? Injusto?

— Sim. — eu afirmei. — Muitos de nós somos condenados a viver aqui, embaixo de estrelas mortas e ainda temos a inútil ilusão de que elas podem realizar sonhos.

Ela sorriu calmamente e segurou minha mão. Ao olhar nos meus olhos ela disse:

— Apenas os vivos podem realizar sonhos.

Depois disso ela soltou minha mão e fechou os olhos por um momento. Eu fiquei pensando. Até que notei algo:

— Lis, — Eu a chamei, ela olhou para mim. — se estamos em baixo de um cemitério, então estamos no inferno?

Ela riu.

— Talvez. Mas isso não importa.

— E o que importa?

— Importa apenas que você ainda é capaz de realizar seus sonhos. Mesmo neste inferno de mundo.

Eu me dei por satisfeito com a resposta dela, só então voltei a admirar o cemitério.

Ficamos ali por algumas horas, conversamos sobre tantas coisas, sobre como a Lis estava se mudando, sobre como eu iria sentir saudades dela. Ela sempre me falou do quanto gostava do céu durante a noite. E fantasiava que um dia iria conhecer as estrelas.

— É possível conhecer uma estrela, Lis?

— Claro. — Ela disse, e seus olhos pareciam brilhar ainda mais.

— Mas você mesma disse que muitas delas estão mortas.

— Sim, mas um dia morreremos também. Um dia eu morrerei. Bem, a gente nunca morre de verdade. Veja esse Universo, nós viemos de eventos criados nele, eventos completamente aleatórios, isso se você acreditar em coincidência. E eu acredito que como um rio se torna oceano, nós nos tornaremos infinito assim como o Universo.

— E então você vai conhecer as estrelas?

— Claro. E quem sabe aprendemos a brilhar como elas um dia.

Eu nunca disse a Lis, mas pra mim ela já brilhava tanto quanto as estrelas, e de alguma forma ela me fazia brilhar também. Talvez esse tipo de coisa contagie. Sempre imagino que se as pessoas começassem a ser assim, contagiando felicidade e luz, viveríamos como num Universo, como no único cemitério onde aprendemos que sonhos podem se tornar realidade até mesmo neste mundo. E mesmo quando estivermos mortos, nossos sonhos irão brilhar pelo resto do infinito.

— Téo. — Ouvi a voz dela me chamando. — Você está acordado?

Eu abri os olhos e olhei para ela. Ela sorriu.

— O que foi? — Eu perguntei.

— Nada não, volte a sonhar.

 

Quando eu conheci a Lis, pensei que jamais fosse conhecer alguém igual. Ela tornava o dia muito mais vivo. Eu tinha treze anos quando a conheci no colégio, ela tinha quinze e já tinha pintado o cabelo de roxo.

No primeiro dia do colégio eu sentei atrás dela e, assim que sentei, ela se virou pra mim e falou:

— Oi, nerd!

Eu estranhei.

— Oi. — Antes eu tentei olhar ao meu redor, pra ter certeza que o nerd com quem ela estava falando era eu.

Ela riu. A partir daquele dia, os meus dias nunca mais foram os mesmos. Até que ela se mudou naquele mesmo ano, assim que as aulas acabaram.

Ela se foi alguns dias depois da nossa conversa deitados no quintal da casa dela. Foi uma tarde de quarta-feira que a levou de mim, para um lugar tão distante que eu pensava que nunca mais a veria de novo. E muito provavelmente era o que aconteceria. A nossa história nem havia começado direito e já estava acabando.

É estranho pensar assim, saber que todas as nossas conversas e aqueles dias, tudo pode morrer enterrado no abismo que chamamos de tempo. Afinal, as únicas histórias que não morrem são aquelas escritas em um livro. De alguma forma, tudo o que vivemos desaparecerá como ela desapareceu naquela tarde. E depois daquele dia, os meus dias nunca mais seriam os mesmos.

© Cemitério de Estrelas,  por Jadson Ribeiro.

(Esse conto, na verdade, é um trecho de um romance que comecei a escrever. Você pode conhecer meus livros gratuitamente no meu perfil do Wattpad)

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Jadson

Escritor, poeta e artista visual. Um amante incurável da literatura e das artes plásticas. O romance, a ficção científica e principalmente a fantasia me fascinam. Nerd assumido. Séries, filmes, animações e café são as coisas que melhoram meu dia. O mundo real é um lugar que às vezes me arrisco em visitar.