Conflagração

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Há certas coisas na vida que não nos fazem sentido algum. O que você lerá agora, tenha certeza que não fará.

Meu ônibus estacionou às sete em ponto no terminal rodoviário Menezes Cortes, no centro do Rio de Janeiro, a cerca de cinco minutos a pé da empresa onde eu trabalhava. Já era dia e aos poucos as pessoas saíam de suas conduções, juntando-se a outras tantas que atravessavam as ruas em piloto automático. Mas era óbvio, quem em sã consciência estaria bem em plena madrugada de segunda-feira?

Minha mochila pesava horrores e, como bom friorento que sou, carregava dois casacos. Apenas por precaução, sabe? Ninguém gosta de passar frio e correr o risco de ter uma crise de garganta; e minhas crises de garganta são as piores. Ajeitei a única alça sobre meu ombro direito e contornei a praça Mário Lago pelo camelódromo quase montado.

A poucos metros da Rua São José, tangente à praça, encarei a Rodrigo Silva e me preparei para mais um dia daqueles. A sorte era que as muitas nuvens no céu denunciavam o tempo agradável para o resto do dia. Odeio calor, odeio transpiração, odeio o centro do Rio de Janeiro ensolarado.

Meu prédio não era dos mais luxuosos, parecia ter saído de um filme qualquer dos anos 90 com seu chão em azulejo marrom riscado e porteiros com bigodes clássicos. Cumprimentei a recepcionista e esperei o próximo elevador numa fila de cinco pessoas. Um homem com aspecto estranho esperava à minha frente. Sabe aquela pessoa que cheira a tabaco velho, quase um centro espírita ambulante? Pelas vestes, talvez fosse umbandista ou alguém apaixonado pela cultura africana. Mas o que mais chamou a minha atenção foi a forma como ele segurava sua maleta de couro contra o corpo. Se não fosse pela ausência de barba, eu deduziria que era um terrorista carregando uma bomba capaz de destruir metade do centro comercial do Rio de Janeiro.

O elevador parou no quarto andar. A empresa estava vazia, com exceção de alguns gatos pingados que certamente madrugaram trabalhando. O bom de seu ônibus chegar cedo é poder aproveitar momentos como esse: trabalhar sem o falatório comum do salão principal e da cozinha. A paz é uma dádiva a ser aproveitada. Eu já sentia o cheiro de café fresco quando abri a porta da sala e coloquei a mochila em cima da cadeira. A claridade da rua entrava pelas janelas e criava uma meia luz por causa das lâmpadas apagadas. Estar naquela sala vazia me trazia conforto.

O banheiro ficava no canto oposto da sala, depois do conjunto de baias da outra equipe que dividia o espaço com a minha. Deixei meu corpo seguir o percurso natural e lavei meu rosto na pia. Não bastava apenas café para me acordar, precisava de uma boa água gelada na cara para tirar a preguiça de uma viagem mal dormida, mesmo que eu dormisse todo o percurso. Minha namorada diz que eu desmaio dentro do ônibus, durmo e acordo na mesma posição. Quem nunca, não é?

A matéria da faculdade esperava por mim, mas só depois de um bom café. O pouco tempo livre que eu tinha em casa nunca era suficiente para pôr as tarefas em dia. Chegar cedo no trabalho era sempre útil quando se está atolado de seminários, relatórios e listas de exercícios.

O restante das duas equipes foi chegando aos poucos, lá pelas nove ou dez da manhã. O silêncio foi substituído por brincadeiras e assuntos corriqueiros de uma empresa de tecnologia da informação. Não estou reclamando, sabe? Amo o que faço, mas às vezes preferia estar em casa escrevendo e contando minhas histórias para você.

Bem, como sempre, cumpri minha rotina até o horário do almoço. Quando se trabalha em uma prestadora de serviços de tecnologia, é preciso engolir alguns sapos, como aturar usuários. Eu sou um programador, antes que você se pergunte, mas o pior é que você não tem ideia do quanto é estressante lidar com pessoas teimosas e burras. Talvez saiba, tudo bem.

A cozinha estava entupida de gente. Eu gosto de almoçar cedo, lá pelas onze e meia, para não ter uma fila enorme para usar o micro-ondas. Bem, por descuido eu esqueci que era final de mês e muitos aproveitavam para economizar um pouco trazendo comida de casa. Deixei minha marmita na fila, sob o olhar atento das copeiras, e desci as escadas do prédio a trotes rítmicos para comprar um suco qualquer, me divertindo com o som oco que meus tênis faziam ao bater nos degraus. Sempre faço isso, é divertido. Uma vez aprendi que qualquer coisa vale para libertar a mente dos fantasmas do estresse.

Quando terminei de almoçar, voltei para minha sala para matar mais alguns leões que outros fizeram questão de me deixar ciente enquanto mastigava. Por mais que você faça certo, sempre haverá um detalhe que você não viu; resultado da merda feita por terceiros.

O dia marcava o ritmo de outro qualquer. Já havia passado umas duas horas do fim do almoço e eu conversava tranquilamente com alguns colegas de trabalho, aqueles dez minutos de brincadeiras em prol da sanidade mental, quando um baque surdo veio dos andares mais acima. Era uma época marcada por manifestações contra e a favor do governo, então talvez fosse apenas um doente mental em confronto com a tropa de choque da polícia.

Mas não era.

Eu e minha equipe nos entreolhamos, confusos, quando alguém gritou de um ponto distante. Ouvimos outro ruído violento, mais alto e mais concentrado. O prédio balançou e sentimos cheiro de fumaça.

A outra equipe levantou em peso e afastou as persianas das vidraças. Pude ver que seus olhos acompanhavam a rua e tentavam alcançar os andares superiores do nosso edifício.

Eu não suportei a curiosidade. Levantei e fui até a janela. Naquele momento, todos estavam buscando um espaço para poder olhar a rua apinhada de gente olhando para cima, como se algum suicida fosse pular do terraço.

A terceira explosão foi a maior de todas. Sentimos a estrutura balançar mais forte e eu quase perdi o equilíbrio. Alguém caiu dos andares superiores e bateu feito fruta podre nos paralelepípedos.

Eu não queria te dizer, mas ouvi o crec dos ossos quebrando com o impacto. Lembro como se fosse hoje.

Houve pânico. Alguém abriu a porta da sala com violência gritando coisas como “INCÊNDIO, TODO MUNDO PRA FORA!”, mas eu não consegui tirar os olhos da multidão que se aglomerava em volta do homem caído. Homem, mulher, não sei. Era impossível distinguir quando a carne está preta, parecia que alguém tinha assado aquela pessoa como um churrasco.

Uma das moças que trabalhavam na copa socou a porta da nossa sala e gritou feito uma louca desvairada:

— INCÊNDIO! INCÊNDIO! INCÊNDIO!

Puta merda! A voz daquela mulher parecia uma sirene desregulada repetindo aquela maldita palavra, sem parar. Esse é o problema de não ter treinamento para situações como essas. Sem organização, as pessoas pisoteiam umas às outras. Senti a mão desesperada do meu coordenador puxar meu braço. Eu estava catatônico, desliguei meu computador na falsa esperança de salvar todo trabalho da metade do dia. Até hoje não sei porque fiz isso. Se as chamas atingissem nosso andar, o disco rígido ia para o ralo de qualquer forma.

A turba seguiu os protocolos de emergência do prédio, mas sem um pingo de preparação. Eu? Eu joguei minha mochila nos ombros e fiz o possível para não cair no meio da boiada furiosa. O que poderia trazer mais calma era o som ensurdecedor das sirenes de ambulâncias, bombeiros e polícia na rua. Esse é aquele momento em que você se agarra a qualquer coisa para manter a sanidade.

Enquanto esperávamos no salão principal pelo resto das pessoas, eu ouvi alguém dizer que tinha acontecido um curto circuito na fiação do sétimo andar, mas outro desmentiu e disse que foi no décimo. Houve um princípio de discussão. Por todos os santos, eu não entendo como alguém consegue bater boca numa hora dessas. Que se foda o que houve, eu só queria sair de daqui!

Eu estava parado próximo à porta da saída de emergência, aquela mesma que foi criada para resistir a incêndios. Podíamos ouvir os passos nervosos nas escadas e aguardávamos as ordens do líder da equipe de bem-estar, aquela “treinada” pelos bombeiros em casos de emergência, para prosseguir. Pela fumaça que saía pela soleira, as chamas estavam perto.

Eu virei para comentar algo com meu coordenador que estava atrás de mim mexendo no celular com ar angustiado, quando senti uma pancada no braço esquerdo. Não consigo lembrar muito bem o que aconteceu, eu me lembro apenas de estar caído do outro lado da antessala, por cima de um vaso grande com algumas plantas. Pisquei algumas vezes e vi a correria. Tentei mexer as pernas, mas umas três pessoas estavam em cima de mim. Meu ombro esquerdo possui uma lesão que vou carregar para o resto da vida.

A porta de emergência estava perto do segundo elevador, retorcida. As chamas lambiam o vão da escada de emergência, crescendo como um organismo vivo, e eu estava preso. Xinguei, praguejei e usei toda força que tinha para tirar aquela massa inconsciente de cima das minhas pernas. Tossi algumas vezes e esfreguei os olhos. Maldita fumaça.

Eu chutei uma, duas, três vezes, até que um homem com rosto cheio de fuligem saiu das escadas como aquelas cenas de filmes de ação, me deu a mão e me ergueu. Não houve tempo de agradecer, só correr para dentro da empresa usando meu corpo troncudo para abrir caminho. Ainda ouvia os gritos dos andares de cima. Gritos de dor. Estavam sendo queimados vivos.

Dentro do salão onde ficavam a maioria das baias, avaliei meu estado e minhas opções. Meu suéter de lã estava um pouco chamuscado. O elevador não funcionava em incêndios e as escadas foram engolidas pelas chamas. Eu estava no quarto andar, talvez conseguisse pular e cair em uma daqueles colchões de ar. Não, isso era loucura. Pensa, pensa! Se eu pulasse dali, seria para a morte certa. Balancei a cabeça para afastar aquele pensamento.

As pessoas ainda se juntavam na entrada, como uma colônia de ratos amedrontados. Levei a mão à boca, segurando a ânsia, quando senti o cheiro de carne humana queimada. E se eu te dissesse que carne humana queimada lembra carne de porco?

Havia estalos e o calor aumentava. Eu precisava agir rápido.

Mas, antes de tudo, lembra que eu disse no início que nada faria sentido? Essa é a hora.

Eu poderia te contar exatamente o que vi, mas você nunca acreditaria. Eu sou uma pessoa bastante criativa, e isso me assusta às vezes. Mas eu posso te afirmar: era real. A minha boca pendeu e senti a respiração desaparecer quando uma labareda de formato humanoide atravessou a antessala e virou-se para o salão principal, deslizando como um predador. Não possuía olhos ou boca, só farejava nosso medo.

A criatura virou a cabeça flamejante para nós e posso afirmar que vi um sorriso em faíscas aparecer. O clima entrou em completa catatonia e dezenas de olhos se arregalaram incrédulos quando pessoas mais próximas entraram em combustão instantânea.

A multidão se espalhou da forma mais caótica possível. Eu subi nas mesas e corri para o corredor da minha sala, a alguns metros dali. Aterrissei sem equilíbrio e bati as costas na parede. Podia jurar que tinha quebrado alguma costela. Arquejei e arfei como um afogado.

Olhei para trás e aquela monstruosidade vinha na minha direção, deixando um rastro de chamas por onde passava. Minhas pernas bambolearam. Em certos momentos a adrenalina nos dá uma energia extra para suportar desafios. Nesse caso, no meu caso, foi o oposto. Fiquei ali, parado, sem reação, vulnerável, com medo, apático.

Meu peito esquentou. Olhei para baixo e as chamas começavam a crescer, alimentadas pela lã do meu suéter. Entrei em desespero e bati com força no peito, tentando apagá-las enquanto a criatura se aproximava. Eu estava lutando, sei que estava, mas era inútil. O fogo é uma praga sem controle.

Eu estava entregue quando me puxaram. Fui tragado para a sala onde trabalhava e a porta se fechou à minha frente. Meu peito ardia. Achei que fosse a fumaça, sei lá, mas estava pegando fogo. Tirei o suéter com pressa joguei para um canto para vê-lo virar cinzas.

Um dos meus colegas de trabalho havia salvo minha vida, pelo menos por enquanto. Mal pude agradecê-lo, estava tão desesperado quanto eu. Apenas acenei com a cabeça e um meio sorriso. Todos estávamos feridos e cobertos de fuligem.

Havia mais três pessoas naquela sala, além de nós dois. Tossíamos com força suficiente para arrancar nossos pulmões. Cambaleei até o banheiro e molhei um pedaço de tecido rasgado da minha camisa. A água estava tão quente quanto o ambiente, mas era o suficiente para limpar o ar antes de inalá-lo.

Os bombeiros estavam no térreo, por que não subiam de uma vez? Iriam esperar todos queimarem até os ossos?

As pessoas gritavam do salão principal, seu sangue alimentando aquele demônio de fogo. Eu queria poder descrever melhor para você, mas lembrar daquelas vozes implorando por suas vidas é além da minha concepção. O cheiro de carne queimada se misturava à fumaça, era o principal combustível dos nossos pavores. Muitos diriam que era um churrasco do inferno, eu não tenho essa coragem.

Nós, covardes escondidos enquanto pessoas do nosso convívio diário eram queimadas vivas, ficamos ali naquela sauna do capeta. Pus-me de cócoras, apoiado por uma cadeira. Meus olhos ardiam. Se não fosse o pano úmido, eu teria asfixiado.

Algo bateu na porta com força a ponto de derrubá-la. Ficamos paralisados, esperando que a besta simplesmente desistisse de nós e voltasse para o inferno de onde teria vindo. Por que bater assim? Esperava um convite nosso para entrar? Aquela coisa era o próprio fogo, uma simples porta de madeira não iria contê-la. Ouvi som de vidro quebrado, alguém havia pulado da janela. Mais um que cedeu à insanidade, preferiu se matar ao ser queimado como um porco na brasa.

Outra batida na porta e uma lâmina afiada abriu uma fresta. O ar quente passou pela brecha de farpas. As chamas começavam a invadir pela soleira como um convidado mal-intencionado. Aquele demônio não sossegaria enquanto não engolisse tudo que fosse vivo.

Eu fechei os olhos. Não era corajoso o bastante para tirar minha vida, então que eu pagasse pela minha covardia.

Alguém soltou um gritinho abafado quando outra pancada se sucedeu, seguida de várias até que uma mão enluvada em um macacão laranja pôs a porta abaixo.

Dez bombeiros com máscaras de gás e machados irromperam trazendo a segurança que precisávamos. Nos envolveram com cobertores molhados e panos para boca, nos tirando daquele inferno de chamas.

Enquanto passava pela recepção, vi o salão tomado pelo fogo, mas nenhum corpo no chão. O mesmo aconteceu no saguão principal do quarto andar. A porta pesada da saída de emergência continuava retorcida perto do segundo elevador. Perguntei ao bombeiro onde estavam todos, ele me disse que estavam em segurança, nos esperando no térreo.

Finalmente estava a salvo dentro de uma ambulância. Olhei para cima e vi o fogo escapando pelas janelas. Talvez fôssemos as únicas vítimas daquela tragédia, além daqueles que queimaram vivos nos andares superiores ou que decidiram atirar-se de suas janelas.

Nunca contei a alguém sobre o que vi, além de você. Me chamariam de louco e me internariam, talvez. Mas eu te pergunto: eu sou louco? Aquilo era real? Realidade é aquilo que eu vejo ou o que você vê?

Mayke Rezende

Um escritor que trabalha como programador para pagar as contas.

  • Vanei Anderson Heidemann

    Muito bom

    • Mayke Rezende

      Muito obrigado pelo feedback, Vanei!

  • Fernanda Netherlands

    Gostei muito. Você escreve sensações/pensamentos muito bem. É quase como se o leitor estivesse sob a pele do personagem, sabe?
    Deveria investir nisso. Quem sabe um livro?
    É o tipo que eu compraria se visse em alguma livraria por aí.

    • Mayke Rezende

      Muito obrigado pelo feedback, Fernanda! Quem sabe um dia eu invista 😀