CRÔNICA: AS GRADES

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Abri a janela do meu quarto e havia uma grade. Não era nenhuma grade especial, de fato, era feita de metal como todas as outras, mas estava lá por um motivo um tanto estranho, aquela era uma grade de proteção, protegia a porta e as janelas da minha casa contra possíveis assaltos ou vândalos. Minha família acha que precisamos de segurança, moramos num condomínio aberto na periferia da cidade e não tínhamos muita coisa, mas tínhamos nossas vidas e as grades deveriam protegê-las, e é aí que entra a parte estranha da coisa.

Fiquei olhando a paisagem que se misturava com as grades do lado de fora da janela do meu quarto. As outras casas todas estavam com grades nas portas e nas janelas, e muitos construíam seus muros altos. Pela tarde as crianças podiam brincar um pouco, porque, apesar de tudo, aquele não era um lugar tão perigoso como outros tantos lugares perigosos. Mas logo anoiteceria e não era seguro ficar na rua. Não era seguro conversar na rua. Ou qualquer outra coisa que se pudesse fazer na rua. Todos deveriam voltar para a proteção das suas grades.

Não. As grades não protegiam e era provável que todos já soubessem disso. As grades privavam e os muros também, as cercas, as câmeras e a polícia. O que acontecia era uma privatização assim como também um sacrifício. Sim, um sacrifício dos grandes! As pessoas se privam do mundo e sacrificam a liberdade junto com sua própria natureza, para que assim possam fazer uma tentativa frustrada de manter os problemas lá fora, manter o mundo em ordem e suas vidas seguras.

Aqui vai uma informação antiga, óbvia, mas parece que é constantemente ignorada. O mundo não é o problema, as pessoas é que são. Quando elas sacrificam sua própria natureza, mantendo silenciada essa coisa selvagem que grita dentro delas por liberdade, e começam a sucumbir ao medo do mundo, bem, quando aceitamos esse medo e tomamos como uma resposta nos prender dentro de grades, muros, rodeado por câmeras e cercas, então acontece o que normalmente acaba acontecendo com todo animal que é preso e privado de sua liberdade. Ou o animal enlouquece, ou ele se enfurece e se enche de ódio, ou então ele entra em depressão e todas as suas vontades são vencidas, passando a aceitar sua condição, ou a desistir de sua vida.

Essas são as opções: lutar, resistir ou desistir. Com isso, esses são os riscos: sucumbir ao ódio, a loucura ou a depressão. Olhando para longe, por entre aquelas grades da janela do meu quarto, eu podia ver todos esses sinais nas pessoas.

 

As Grades © por Jadson Ribeiro

Jadson

Escritor, poeta e artista visual. Um amante incurável da literatura e das artes plásticas. O romance, a ficção científica e principalmente a fantasia me fascinam. Nerd assumido. Séries, filmes, animações e café são as coisas que melhoram meu dia. O mundo real é um lugar que às vezes me arrisco em visitar.