Fanfic – A mulher do meu destino – 26 — I’m forgiving what I’ve done

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Naquele dia — comecei a narrar —, depois que Aredhel foi sugada pela luz, ela foi levada para outra dimensão. Para uma realidade paralela. Outra Midgard, digo, Terra como esta de vocês. Eu estava no laboratório da S.H.I.E.L.D. quando ela chegou — revelei.

— Deixa ver se entendi… Você está falando que existe uma outra realidade na qual o que vi nos filmes é real? — pasmou-se William. — O laboratório do qual você está falando é aquele do filme do Avengers? — perguntou William.

— Sim. Exatamente isso. Nesta outra realidade, os filmes que vocês assistiram são reais. Thor e aqueles amigos dele da Terra são reais, assim como eu.

— Nossa. Que legal! A Ared conheceu todos eles? — empolgou-se William.

— Continuo não entendendo nada — murmurou Mary parecendo aflita.

Dei um suspiro impaciente. A conversa seria longa.

Com calma, eu praticamente contei tudo o que aconteceu com Aredhel desde que ela foi para o outro mundo. Como ela tentou mudar o desfecho dos filmes, sobre sua prisão, a volta para este mundo, seu retorno à Asgard e, por fim, os detalhes de nosso casamento. Expliquei inclusive como chegamos até ali e sobre a diferença na passagem de tempo entre as realidades. William ajudou esclarecendo para os pais detalhes sobre os filmes e falando sobre as teorias de mundos alternativos, mas achei que Aredhel teria explicado melhor. Percebi que a família dela não era muito inteligente e levando em consideração a pouca semelhança física dela com os pais, perguntei-me se ela realmente não era adotada. Só alguns traços dela reconheci em Mary.

Pensando em Aredhel… Até aquele momento eu não fazia ideia de onde estava.

— Você pode se multiplicar, como no filme “Thor”, por favor? — pediu William repentinamente.

Revirei os olhos, mas me multipliquei. William ficou empolgado, mas os pais de Aredhel ainda estavam chocados com tudo. Depois de tudo explicado e das demonstrações de meus poderes, finalmente eles tinham entendido tudo e aceitado a história.

— Agora tem outra coisa que preciso falar com vocês — falei com seriedade. — Vocês não tem ideia da filha maravilhosa que tem. Aredhel é uma mulher inteligente, corajosa e doce. Deveriam dar mais valor a ela, só sabem ver defeitos! Vocês não conseguem imaginar o quanto me controlei enquanto ouvia falarem dela daquele jeito — trinquei os dentes.

William engoliu seco todo amedrontado, visivelmente ele tinha entendido bem o que eu quis dizer sobre me “controlar”. Lembrei-me que ele havia assistido aos filmes e pelo jeito ele conhecia bem a minha fama.

— Mas… — começou Wilson.

— Nada de “mas” — cortei. — Sua filha sempre se sentiu menos amada pelo senhor em relação a William. Tudo o que ela sempre quis foi ser amada de maneira igual. Passou a vida toda querendo provar que era merecedora de seu carinho! — rosnei impaciente.

— O senhor mal nos conhece, não sabe nada sobre nós e… — começou o velho indignado.

— Eu posso não saber sobre vocês — interrompi-o —, mas sei como ela se sente. Ela pode ter errado, mas foi tentando acertar. Tentando conquistar o seu amor. Agora pense no que lhe falei! — levantei-me. — Esperem aqui, vou ir atrás dela — deixei a sala.

Fui até o segundo andar e encontrei Aredhel com Váli no colo. Estava cabisbaixa e com o rosto inchado, visivelmente andara chorando.

— Aredhel… — murmurei.

Ela se virou repentinamente e voltou a baixar a cabeça.

— Lembro que quando criança eu sempre imaginava como minha vida seria, o que eu seria — começou a falar. — Eu me imaginava podendo ter todas as habilidades e qualidades que quisesse. Como se eu pudesse simplesmente pegá-las em uma estante, como faço com os livros. Mas conforme o tempo foi passando, essas qualidades e habilidades foram diminuindo. Hoje, pouquíssimas dessas qualidades restaram em mim. E todas as possibilidades que eu encarei, as pessoas que eu poderia ser, foram se reduzindo a apenas algumas. Até que finalmente restasse somente uma, para quem eu sou — olhou-me triste. — E o que você ouviu na sala é quem eu sou na visão de minha família — deu um sorriso torto.

Senti pena de Aredhel. Agora entendia a causa de sua falta de autoestima e de seu pessimismo. Sua busca incansável por conhecimento e autoafirmação era uma forma de provar a ela mesma que ela tinha seu valor. Uma tentativa de provar a si mesma que não era como eles a viam.

— Como você mesmo disse à Romanoff, a gente pode até tentar se esforçar para compensar tudo o que se fez de errado a vida toda. Mas nossos erros nunca vão nos abandonar. Vão sempre ser parte de nós — murmurou rindo com clara amargura.

Lembrei-me das palavras que Aredhel uma vez me dissera. “Ser destinada a sempre contar mentiras mesmo quando está falando a verdade”. Ela se referia à família dela, mas agora eu também me encaixava perfeitamente na mesma situação. Ela não estava tendo um bom dia, estava tudo dando errado e eu só piorei as coisas ao ter dito aquelas coisas a ela.

— É sempre a mesma discussão — ela continuou. — As mesmas acusações… São como figuras se movendo na minha cabeça feito um filme, que por anos e anos elas passam repetidas vezes — menou a cabeça. — Se eu pudesse mudar o passado, eu mudaria. Refazer cada passo errado, eu refaria — deu um suspiro. – O dia em que eu aceitar que isso nunca será diferente, eu terei paz — o sarcasmo foi claro em sua voz. — Nada do que eu fizer será o suficiente… Nunca serei boa o suficiente…

Lamentava pelo que ela estava passando e, ao mesmo tempo, eu estava me afogando em um mar de culpa e remorso. Eu queria poder abraçá-la, pedir desculpas e dizer que tudo ficaria bem. Queria dizer a ela que, pelo menos eu, a amava do jeito que era.

— Aredhel, eu… — comecei a falar.

— Vamos acabar logo com isso — falou de repente. — Voltarei lá e contarei a verdade de uma vez. Você pode ir com essa sua aparência. Vou levar Váli — pegou o menino no colo e saiu pela porta de forma apressada.

Descemos e fomos para a sala. Eu ainda não tinha falado a eles sobre Váli, mas ao verem o bebê, li nos rostos deles que entenderam do que se tratava.

— Este é Váli, o neto de vocês e seu sobrinho William — anunciou Aredhel e deu um suspiro, baixando a cabeça.

— Oh, meu Deus… — arfou Mary. — Ele é lindo. Posso segurá-lo? — perguntou com olhos marejados.

Aredhel pareceu surpresa, mas entregou Váli à mãe. Wilson aproximou-se de Aredhel e a abraçou de repente, mas nada falou.

— Pai? — perguntou Aredhel retribuindo o abraço.

— Loki explicou tudo, Ared — comentou William.

Aredhel sorriu e todos voltamos a nos sentar. Ninguém comentou nada sobre o que eu havia falado de Aredhel. Conversamos rapidamente sobre Asgard e o nosso casamento. A mãe de Aredhel pareceu ficar chateada de ter perdido esse momento importante da filha, mas logo se conformou. Enquanto falávamos William e Wilson brincavam com Váli, o qual achava graça de tudo. Por fim falamos sobre uma futura visita deles para conversarmos com mais calma. Concordamos que seria menos complicado eles irem à Asgard em virtude da diferença de tempo entre as realidades.

Logo depois nos despedimos deles. Eles passariam a noite na casa de Aredhel e retornariam às suas cidades no dia seguinte. Saímos apressados, pois ainda passaríamos na casa de uma amiga de Aredhel para explicar tudo de novo. Eu avisei a Aredhel, que dessa vez, eu é quem falaria.

Em pouco tempo chegamos à casa da amiga de Aredhel, Lucy. Eu rapidamente mostrei minha real aparência e ela, chocada, se sentou lentamente em uma cadeira, onde ouviu toda a história.

— Nossa é muita coisa para absorver de uma só vez — murmurou Lucy após a explanação. — Vocês e os outros personagens são reais… — olhou-me demoradamente. — Mas é incrível sua semelhança com o ator que o interpreta aqui na Terra.

— Lucy, como foi o acidente de Phillip e Peter? — perguntou Aredhel, de repente, mudando de assunto. — Naquele dia eu mal ouvia o que as pessoas diziam.

— Bem, pelo que as autoridades informaram, Phillip tentou desviar de algo na pista e acabou caindo em um barranco e capotando. Disseram que, segundo as marcas encontradas, ele tentou frear, mas acabou desviando — explicou Lucy com o semblante triste.

— Então provavelmente deve ter sido algum animal — murmurou Aredhel. — Aquela floresta é tão grande…

— É… Pode ser, mas, de qualquer forma, não encontraram vestígios desse suposto animal — falou Lucy. — Só havia as marcas de pneu, de outros veículos e pedestres. Mas se uma pessoa, um ciclista ou outro carro, imagino que teria chamado a emergência ou batido no carro deles. Ainda acho que foi um coelho… Eles são muito rápidos e têm aos montes naquela mata.

Aredhel deu um suspiro triste. Ela trocou mais algumas palavras com Lucy, mas logo nos despedimos e partimos para Asgard.


Ao retornamos a Asgard, descobrimos que ficamos quase seis meses fora. Aredhel foi diretamente levar Váli para o quarto dele, pois ele já havia adormecido. Até o presente momento eu havia trocado poucas palavras com Aredhel, ela mal olhava para mim. Passou o tempo todo me evitando. Eu estava preocupado, me sentia culpado pelo que havia dito a ela.

Sentei-me na cama e fiquei esperando ela retornar. Ela entrou no quarto, mas me ignorou, passou direto para o banheiro. Aguardei ela sair do banho pacientemente. Quando saiu, se sentou na cama em silêncio e pegou um livro para ler. Notei que seus braços tinham as marcas roxas de meus dedos, próximas aos seus ombros. Senti meu coração apertar, eu fora tão bruto com ela. Eu a havia machucado não só sentimentalmente, como também fisicamente.

Aproximei-me de Aredhel e tirei o livro de suas mãos. Ela me olhou, mas rapidamente desviou o olhar. Senti um nó na garganta.

— Aredhel, precisamos conversar — murmurei.

Ela continuou olhando para baixo com o olhar distante.

— Aredhel, eu… — fiz uma pausa, procurando as palavras certas. — Eu peço que me perdoe — pedi sentindo meus olhos se encherem de lágrimas.

— Por quê? — ela me encarou com um olhar frio. — Por dizer o que pensa ao meu respeito?

— Meu amor, eu não… — tentei falar.

— Sabe o que é mais irônico? O rei das mentiras ficar furioso comigo porque menti — falou com sarcasmo e riu. — Tudo o que sempre quis na vida era ter alguém com quem conversar, confiar. Alguém que depois não usasse o que eu disse contra mim — deu um meio sorriso. — Mas eu fui justo amar alguém como eu. Alguém que guarda tudo. Grava cada palavra e quando fica com raiva joga tudo de uma vez. Eu sempre achei minha boa memória uma benção, mas agora que provei do meu próprio veneno, vejo que ela pode ser uma maldição — ela ergueu os olhos, finalmente me encarando. — Sabe por quê? Porque não importa quanto tempo passe, você sempre lembrará que eu menti sobre a vidência, o treino, as magias e Frigga. E você jamais me perdoará por não ter sido meu primeiro homem! Você nunca confiará em mim! Nem acredita que eu o amo! — rosnou enquanto lágrimas escorriam por seu rosto.

Havia tanta mágoa em seus olhos. O que eu havia feito? Percebi através das palavras dela que ela também nunca esqueceria o dia de hoje, que jamais esqueceria o que falei a ela. Realmente éramos iguais. Mas nada do que falei a ela era verdade. Eu não duvidava de sua lealdade. Desde o início, eu sempre confiei nela, por isso não usei o cetro para controlá-la. Acreditei no que dizia. Nunca quis admitir, mas, na verdade, eu tinha uma fé cega em Aredhel. Por este motivo eu ficara com tanta raiva quando descobri que mentira para mim. Falei aquelas coisas para machucá-la e tinha conseguido fazer isso tão bem que naquele momento temia que fosse irremediável. Eu a estava perdendo.

— Aredhel, nada do que falei é o que penso na realidade. Pode soar estranho, mas desde o início eu sempre confiei em você. Falei aquilo porque, erroneamente, descontei em você a raiva que senti de mim mesmo pelo que fiz. Sei que mentiu para me poupar da culpa. Eu sei que me ama… — tentava controlar minhas emoções. — Jamais esquecerei tudo o que fez por mim. Todas as vezes que arriscou a vida, mentiu e sofreu por mim. Também não esquecerei todo o mal que fiz a você. Nunca me perdoarei por ter pensado em matar você e por ter te machucado fisicamente e com minhas palavras. E, principalmente, jamais vou esquecer o quanto te amo… — murmurei sentindo as lágrimas descerem por meu rosto.

Ela me olhou assustada com lágrimas escorrendo por seu rosto.

— Eu nunca pensei que você se sentia assim… Eu não sabia… Você está… Está… Chorando? — gaguejou enquanto tocava meu rosto.

— Aredhel, te amo tanto que chega a doer. Eu não posso te perder — confessei em meio às lágrimas, segurando o rosto dela entre as mãos.

— Eu também te amo tanto. Você não vai me perder — falou em meio a um soluço.

Fiquei olhando em silêncio para ela por um tempo. Nunca havia me revelado daquela forma para Aredhel. Eu já havia sofrido e chorado por ela, mas nunca havia derramando uma lágrima em sua frente ou dito tudo o que sentia por ela. Eu ficava pasmo como Aredhel teve a capacidade de me transformar em outra pessoa. Eu queria correr para longe, mas ela me fazia rastejar de volta por ela. Em um fogo eterno, ela havia me transformado em palha, me resumido a nada. Eu havia fechado meus olhos para meus sentimentos, mas eles queimavam brilhantemente por ela toda vez que a via. Eu acredito que este era um tipo cego de amor.

Sem conseguir mais me conter, eu a puxei para um beijo. Beijei-a como da primeira vez em que nos beijamos, com urgência. Com aquele beijo, eu queria poder curar todas as feridas de Aredhel. Eu queria substituir toda a dor e mágoa que ela carregasse por algo bom e novo.

Deixei-a respirar, vi em seus olhos a mesma doçura de antes e percebi que ela ainda me amava. Voltei a beijá-la com voracidade e abracei-a com força, como se quisesse evitar que ela escapasse de mim. Comecei a desabotoar seu vestido, mas sem tirar meus olhos dos dela. Enquanto eu tirava gentilmente sua roupa, eu dava beijos suaves em seus lábios e lágrimas ainda desciam por seu rosto. Estava determinado a provar a ela que a amava do jeito que era. Amei-a com ardor naquela noite.

Mais tarde, Aredhel dormia aninhada em meus braços, com a cabeça sobre meu peito. Não consegui dormir. Fiquei acariciando sua pele, passeando meus dedos por seu corpo. Observando-a dormindo, vi o braço dela descansando sobre meu peito. Podia ver as marcas roxas e a cicatriz em seu pulso direito. Vi refletida nestas marcas o quanto mal eu já havia feito a ela. Esperava que um dia pudesse me perdoar por tudo que fiz a ela e que as nuvens pesadas do passado se afastassem de nós.

Gabi Luz

Escritora, nerd e "moça da informática".