Gotas falantes de um dia nublado

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Ontem foi um dia chuvoso, as nuvens escuras tamparam o meu lindo dia de sol. Era tão maravilhoso ver que o mundo me entendia, tal como se tudo estivesse reconhecendo a minha melancolia, como se o dia espelhasse minhas emoções numa chuva abusada, levando embora toda a luz de um dia comum. Aquelas gotas, de certa forma, nos mostravam algo que já tínhamos esquecido.

Os adultos mergulharam em mais pensamentos: Contas! Contas! Contas! Estavam atentos caso aparecessem mais. Se quer saber, algo de diferente os tocou durante a chuva, as gotas os fizeram jogar aos ventos aquela preocupação, os transformando em silêncio e acalmando a solidão incessante dos dias calorosos; havia alguma magia embrenhada nas nuvens cinzentas que se derramavam sobre uma cidade inquieta e atormentada por tantos demônios.

 

Estávamos todos presos em casa, e apesar da falta de energia, demos asas à imaginação, conversamos então; descobrimos que o dia era muito mais especial. Estávamos em família, e há quanto tempo não os via? Sentia que a chuva nos trouxe para a vida real. Agora podíamos olhar nos olhos uns dos outros.

Nós éramos família, e eu era um menino. Em meu tempo, os meninos gostam de ser criança, pois eu sei que a nós cabe uma antiga esperança de todos os futuros. Já minha irmã era complicada, notava defeito em tudo.

— Tudo está ao contrário! — Ela dizia. E repetia para quem quisesse ouvir: — Nasci num mundo assim, por isso sou avessa.

Minha irmã fazia questão de ser fora do padrão. E nos contava como as grandes mulheres são. Já meu pai era o contrário, sempre rindo, ele contava os casos de quantas mulheres assim ele pegava antes da mamãe.

A minha mãe morreu quando eu nasci. Ela morreu por mim, e agora eu vivo por ela. Pelo amor que ela me doou e pela dor que meu nascimento causou.

A vida nunca foi fácil de ser vivida. Muitos hão de nos mostrar as feridas que essa caminhada nos deu. E hão de dedicar a Deus todo o pequeno momento de felicidade. Toda chuva que nos refresca no calor escaldante de nossas caminhadas. A cada pingo, a cada lágrima.

Meu pai sempre brincava:

— Não tenha medo de se molhar, meu filho! — E ele sorria. — As chuvas são o milagre de Deus para os vivos. Então devolva esse abraço!

O som era belo. O cheiro também. As gotas lá fora nos faziam bem. Pois estávamos a sós, mas ainda assim nos tínhamos como o solitário tem a solidão.

Éramos família. E há quanto tempo não nos lembrávamos disso? Vivíamos em tempestade de calor escaldante. Vivíamos num constante silêncio. Agora temos uma tempestade de verdade, uma que era como um alento aos nossos pensamentos.

— Filho…

— Sim, pai?

— Sabia que as gotas da chuva falam?

Eu ri.

— Não. E o que elas dizem?

— Depende do que o seu silêncio diz. O silêncio diz tanta coisa.

Aprendi com meu pai que só se consegue apreciar uma boa companhia, quando se aprecia a própria solidão. E naquele momento, eu estava feliz por estar com meu pai e minha irmã, como há muito tempo eu não estava.

E como toda tempestade passa (…) as nuvens também foram, os raios de sol, em coro, anunciaram uma nova hora. Era hora de sair, voltar a se divertir, se movimentar. Pensando: Contas! Contas! Contas! Pois o mudo precisa de preocupações para fazer as chuvas juntar as pequenas multidões, e lembrá-los de que ainda podem sair pra brincar, ainda podem conversar com as gotas. Então eles ansiarão uma nova chuva, um novo dia nublado que os façam voltar à vida real, pelo menos era real pra gente.

© Gotas falantes de um dia nublado,  por Jadson Ribeiro

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Jadson

Escritor, poeta e artista visual. Um amante incurável da literatura e das artes plásticas. O romance, a ficção científica e principalmente a fantasia me fascinam. Nerd assumido. Séries, filmes, animações e café são as coisas que melhoram meu dia. O mundo real é um lugar que às vezes me arrisco em visitar.