Harry Potter e a Criança Amaldiçoada (resenha)

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Uma coisa complicada de se lidar enquanto se cresce é a sombra das figuras dos pais. Você tem ali aquela ou aquelas pessoas que tiveram um passado muito maior que a sua vida, o que inevitavelmente vai influenciar a forma como esperam que sua própria vida seja, seguindo um rumo parecido, o que nem sempre reflete a sua personalidade ou as suas ambições. E quando seu pai é o maior herói da história recente, vencendo várias vezes o maior bruxo das trevas das últimas décadas? E quando você vem de uma família envolvida com coisas terríveis, que ajudou esse mesmo bruxo das trevas a chegar ao poder?

Harry Potter e a Criança Amaldiçoada (Harry Potter and the Cursed Child, 2016) é uma peça de teatro em duas partes, escrita por John Tiffany e Jack Thorne com a benção de J. K. Rowling, que parte do epílogo de Harry Potter e as Relíquias da Morte para explorar exatamente esse conflito, o peso dos nomes Potter e Malfoy sobre os improváveis melhores amigos Alvo Severo e Scorpio, párias de Hogwarts. O primeiro por claramente não ter herdado nenhuma característica de seu pai famoso, e o segundo pela ligação de sua família com Voldemort, apesar de ser o completo oposto do jovem Draco.

Não é por acaso que até agora eu falei mais sobre os filhos do que os pais: os dois amigos são o foco da história, o que, parando para pensar, faz todo o sentido, considerando que Harry Potter se propõe a ser uma série jovem. Mas os personagens centrais antigos também aparecem e são bem desenvolvidos, principalmente Harry, Hermione, Gina e Draco, todos adultos, mas com suas essências preservadas. Rony é um alívio cômico na figura daquele tio bonachão, uma versão mais doce de Fred e Jorge. Alguns personagens fazem falta, como Neville e Luna, e aparição de alguns outros beira o fanservice, mas a história é bem construída dentro de sua proposta, os conflitos familiares são bastante críveis, os trechos engraçados fazem rir, os dramáticos emocionam e as soluções dos conflitos emocionais não são fáceis ou preguiçosas.

Algumas reações na internet foram muito ruins, mas é importante lembrar que estamos diante de um roteiro de peça de teatro, não de um romance, e creio que o choque vem disso. As cenas de ação são pensadas para refletir o que é reproduzível ao vivo com as limitações de um palco e algumas ações ou emoções podem parecer vagas por estarem a cargo de diretores e atores. Há uma quantidade massiva de diálogos e como a peça inteira dura cinco horas, dá para ler tudo nesse tempo ou menos.

Outras reclamações foram em relação ao desenvolvimento dos personagens, mas eu, pessoalmente, gostei de todos. A peça não tem medo de explorar o lado sombrio deles, mas os romances também nunca tiveram: Harry, em seu desespero de cuidar de seu filho, às vezes parece um completo babaca, o que também aconteceu em cada um dos sete livros. Parte do que o torna um herói tão interessante são suas falhas e elas estão aqui também.

Harry Potter e a Criança Amaldiçoada pode causar estranheza à primeira vista, pelo seu foco pesado em conflitos familiares e pelo holofote pertencer mais à nova que à antiga geração, mas além dessa nova geração ter um carisma imenso, é uma leitura deliciosa, divertida e, muitas vezes, tocante. E, valendo um sapinho de chocolate, desafio quem ler (ou, pelas críticas, assistir) a não se apaixonar pelo Scorpio Malfoy.

Vinicius Mendes

Escritor, redator publicitário e conspirador pela dominação mundial. Quando não está trabalhando ou estudando, assiste animações e filmes chatos, conhece uns graphic novels e mangás, lê de Paulo Coelho a Saramago, joga videogame e RPG de mesa e tenta fazer receitas de doce que aprende no Youtube.