It: A Coisa (resenha)

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Quando a gente é criança, o mundo é um lugar muito assustador, afinal, como não sabemos quase nada, temos que lidar com um desconhecido novo a todo instante. Não estamos no ápice da nossa força ou da nossa inteligência, e por isso estamos sempre meio vulneráveis às vontades dos adultos. Pra piorar,  nossos corpos se transformam o tempo todo, e acordar uma pessoa diferente de manhã nem sempre é só uma figura de linguagem. Não é de se espantar que as histórias infantis insistam tanto na imagem do monstro, a representação viva dos perigos reais e imaginários das dificuldades de crescer.

Há quase um ano eu resenhei o livro A Coisa (It, 1986), uma das mais conhecidas obras de Stephen King, um tijolão de mais de mil páginas sobre um grupo de crianças, e anos depois, como adultos, que enfrentam um monstro que muda de forma e aterroriza uma cidadezinha do interior dos EUA. O livro é assustador, engraçado, confuso, polêmico e emocionante, igual à idade de descobertas que retrata, e por isso mesmo, super difícil de ser adaptado. Como It: A Coisa (It, 2017), dirigido por Andy Muschietti, se sai perto da obra original? No caso eu estou falando do livro, vamos fingir que a série de TV nunca existiu por motivos óbvios.

O filme não retrata o livro todo, o diretor optou por separar em duas partes e focando apenas na infância neste capítulo. Salvo por algumas pequenas mudanças que atualizam a história (o livro se passa nos anos 50 e 80, a vida adulta dos personagens sendo contemporânea ao lançamento, já os filmes vão se passar nos anos 80 e 2010, com o mesmo resultado), a tornam mais dinâmica (não temos aqui narrativas paralelas às dos protagonistas como no livro), e até mesmo reduzem o orçamento, já que ninguém aqui é feito de dinheiro.

Conta a história de sete amigos, o Clube dos Perdedores, crianças que lidam com bullying na escola e vidas familiares complicadas enquanto enfrentam o monstro que dá título à obra, lideradas por Bill Denbrough (Jaeden Lieberher), um garoto gago que perde seu irmão mais novo Georgie (Jackson Robert) na já clássica cena do bueiro. A narrativa começa apresentando as crianças, suas experiências com a cidade e com A Coisa, para depois trabalhar a amizade que formam ao se unir contra os males do mundo. Estão todas fantásticas, transbordando carisma e química, com destaque para Sophia Lillis no papel de Beverly Marsh, encabeçando as cenas mais complicadas. Bill Skarsgård é o outro grande trunfo, mostrando já nos primeiros minutos de que as preocupações com sua escalação foram infundadas ao entregar um Pennywise aterrorizante, perturbador e completamente diferente do também excelente palhaço de Tim Curry.  E por fim, para os entusiastas de Stranger Things, temos também  Finn Wolfhard, o Mike, em um projeto de proposta muito parecida (e olha que foram filmados ao mesmo tempo), muito bem como Eddie, sendo responsável pela maioria das cenas engraçadas. Sim, esse filme de terror faz você rir.  Salvo por alguns poucos usos óbvios de CGI, o filme também é visualmente lindo e tem uma trilha sonora que se mostra eficiente em construir a ambientação.

Talvez o melhor ponto da adaptação tenha sido a fidelidade ao que também torna o livro tão memorável: Ok, Pennywise quer te comer, mas alguém realmente precisa de um palhaço mutante assassino pra piorar a vida quando se tem pais como o de algumas dessas crianças? Ou é perseguido e torturado por psicopatas violentos na escola? As pessoas são indiferentes, estranhas ou simplesmente más na cidade de Derry, e as formas dA Coisa refletem de um jeito muito interessante os medos que isso gera no grupo de amigos, sempre às voltas com um predador, sobrenatural ou não. O ponto onde mais se separa do original é no foco dado ao desenvolvimento daquelas crianças em adultos, que naturalmente passa pela descoberta da sexualidade. Enquanto no livro isso é explorado abertamente, gerando pelo menos dois trechos bastante polêmicos, o filme suprime essas situações e trabalha essas questões de forma mais sutil e delicada.

It: A Coisa é um filme que com frequência incomoda mais do que assusta, feito na medida pra agradar os fãs do livro original, assim como aqueles que se apaixonaram por Stranger Things e querem conhecer uma das fontes das quais a série bebeu.  Mas é recomendado pra qualquer um que goste de boas histórias. E de flutuar, claro.

 

 

 

Vinicius Mendes

Escritor, redator publicitário e conspirador pela dominação mundial. Quando não está trabalhando ou estudando, assiste animações e filmes chatos, conhece uns graphic novels e mangás, lê de Paulo Coelho a Saramago, joga videogame e RPG de mesa e tenta fazer receitas de doce que aprende no Youtube.