LINHAS DO TEMPO

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Na vida, a única certeza é a morte.

Mas… E após ela?

 

Kwanza nasceu em algo entorno de 11.000 a.C. A sua sociedade, Whenua

era dividida entre os caçadores e agricultores, sendo Kwanza atuante dos primeiros,

como a maioria dos homens. Como todo homem pré-histórico, o nosso herói teve

uma vida sofrida, sendo a expectativa da espécie cerca de cinquenta anos – isso por

conta das ameaças que o mundo tinha. As lutas tribais eram comuns, ou seja, a

guerra estava à espera de Kwanza.

 

Inverno, a era do gelo castigava os seres vivos. A alimentação estava

escassa, fazendo com que os ânimos entre outros homo sapiens e até mesmo

animais selvagens piorassem. Foi então que avistaram uma manada de alces-

gigantes que passaria a alguns poucos quilômetros da aldeia. Sem demora, os

caçadores reuniram-se e pegaram suas armas.

 

– Tiraremos nossa barriga da miséria. Finalmente. – Diz um homem com

cerca de um metro e oitenta, trajando um macacão feito com pele de mamute, assim

como suas botas. Um fio feito com cipós finos fixava a sua roupa pela cintura e

então seguia até o seu ombro direito na diagonal. Findando a sua caracterização,

um alforje com cerca de quinze setas pendia nas suas costas, presa por uma fita de

couro que ia do seu ombro esquerdo até a sua cintura direita. E em sua mão

esquerda carregava um arco rudimentar, assim como a faca feita de pedra com o

cabo envolto por couro que estava preso à sua cintura.

 

Kwanza sempre foi de poucas palavras, então se conteve em apenas esboçar

um pequeno sorriso apenas torcendo os lábios e mudou a mão com que segurava a

sua lança com sua ponta feita com osso trabalhado.

 

Os homens, cerca de dez, ficam animados com a oferta que a natureza os

trouxe. Em poucos minutos estão preparados para irem à caça. Kwanza troca

algumas palavras com o homem que o contatara no início da reunião, mas logo

chegam à uma bela planície, recheada de árvores e pedregulhos, todos cobertos por

muita neve. Como dito previamente, uma manada de alces aproximava-se, cerca de

quinze animais. Era um ótimo número de presas.

 

Os caçadores dividiram-se em três grupos: dois grupos com três pessoas e

um grupo com quatro caçadores. Dessa forma eles flaquearam lentamente os

animais enquanto o grupo com quatro pessoas manteve-se andando à frente da

manada. Quando os animais estavam cercados pelos três grupos, foi dada a ordem

de ataque. A lança de Kwanza voa por cerca de dez metros, os animais estão

agitados por conta do grito súbito — nem mesmo haviam sentido o cheiro dos seus

caçadores — e não conseguem ter uma boa reação. Como eram quinze alces que

variavam de um metro — os filhotes — e dois metros — os machos adultos —, eles

não tinham uma boa mobilidade, deixando os que estavam mais próximos dos

caçadores suscetíveis a ataques. Flechas e lanças voavam para todos os lados, dois

animais foram abatidos nesta dança de caça e caçador sobre a neve.

 

Então, recuperando a sua lança de um dos animais abatidos, Kwanza corre

para arremessar a mesma em outro alce. As criaturas eram rápidas, mas Kwanza

sabia que seu povo precisava de comida. Então, com toda a força, pisando e

afundando os pés na neve até pouco acima do tornozelo, o caçador continua a sua

corrida em busca do seu objetivo. Estava quase alcançando um alce, algo estranho,

mas respondido quando vê a pata frontal esquerda manca do animal por conta de

duas flechas que o atingiram sobre o joelho e sobre o início do osso que liga a pata

ao tronco. Kwanza retesa o seu braço direito para arremessar a lança e derrubar de

vez o animal. Estava na mira perfeita, a caça estava a cerca de quatro metros dele,

impossível errar. Já era certo que a refeição de várias noites estaria garantida

quando o caçador arremessasse sua arma.

 

O destino é algo que fica sempre mascarado para nós, abrindo-se pouco a

pouco e dando-nos surpresas impensáveis. Porém, as surpresas nem sempre são

boas, mas não deixam de serem surpresas.

 

Kwanza sente uma forte dor nas costas, na altura da direita, o mesmo lado da

mão que segura a lança pronta para ser arremessada em mais uma vítima. Mas

aquela dor o impediu de fazer isso. Logo a dor alastra-se para dentro do corpo e

então para o seu peito. Kwanza perde suas forças e cai para frente. O animal que o

homo sapiens caçava some no meio da manada. Os seus companheiros começam a

chamar por ajuda e dois vêm ao seu encontro. A visão de Kwanza começa a ficar

turva, ele abaixa o olhar e vê uma flecha atravessada no seu peito. Ele desespera-

se, mas não tem força o suficiente para mostrar o seu desespero real.

Resmungando por ajuda, ele ouve os seus companheiros gritando com um em

particular. O homem diz que não tem culpa, que não foi a intenção dele atingir o

companheiro. Kwanza tenta ver quem foi o culpado, mas sua visão começa a

escurecer. Os sons começam a se tornar ruídos. A visão começa a apagar-se por

completo. As vozes morrem. Kwanza morre.

 

Depois disso não se sabe o que aconteceu. Kwanza não sabe onde está,

apenas está. É escuro, desconhecido, frio e assustador.

 

“Onde estou? Quem sou eu?”, são as duas perguntas que ele se faz. De

repente uma luz forte atinge os seus olhos sensibilizados pela escuridão anterior.

Seu terror é tanto que não consegue fazer nada além de chorar. Ele não entende o

que está havendo, apenas que uma mulher segura-o nos braços. O homem sente-se

indefeso, fraco, com medo. Está todo sujo, está imundo. Tudo isso o aterroriza e ele

começa a chorar feito um bebê.

 

“Parabéns, é um menino”, diz a voz feminina. Ele consegue ouvir uma

segunda voz, também feminina ao fundo agradecendo aos deuses, nomes que ele

não reconhece, mas sabe que são deuses por conta do alívio e respeito que a

mulher fala. Então uma voz masculina fala ao fundo. É uma voz grave e orgulhosa,

potente: “Mais um guerreiro para honrar o reino espartano”.

Marvin D. Jr

Sou Marvin David Jr (sim meus criadores não tiveram muita criatividade na hora de me nomear), sou um robô com diretrizes para espalhar o máximo de informações possíveis para os Nerds e Geeks, deste planeta, divulgando o Portal Cultura Nerd e Geek e todas as atrações presentes nele. Prazer!

  • Fernanda Netherlands

    Gostei especialmente desse conto. Justamente por tratar de algo que eu venho pensando há um tempo, sobre reencarnação. Imaginava que, quando alguém morria, sua consciência era repassada para outro corpo, em uma época e localidade distintos/escolhidos aleatoriamente. E conforme esse novo corpo amadurecia, suas memórias da vida passada eram sendo esquecidas para dar lugar ás novas memórias acumuladas. E isso em um fluxo infinito. Não consigo aceitar que uma alma se torne inutilizável após a morte. Não é como se fosse um bem descartável, acho.
    Mas, sobre o conto: você escreve com uma delicadeza inestimável. Não pare.