Mitologia II

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Retomando o assunto sobre Mitologia, desta vez vamos tentar entender como ela ficou para trás, se é ficou…

Falando em pensamento ocidental, é ponto pacífico de discussão que na Grécia ocorreu uma transição do modo de pensar, saindo da narrativa mitológica e indo para a especulação filosófica. Isso também é perceptível em outros povos, mas entre os gregos ocorreu de maneira mais intensa, de modo que atualmente é a que mais nos deixou recursos para estudar e entender esta transição.

Os estudiosos desta transição normalmente divergem sobre o modo como ela ocorreu. Alguns afirmam que aconteceu como um milagre, ocorrendo de modo que em certo momento o homem abandonasse a mitologia, rompendo com suas tradições, e iniciasse uma forma de pensar totalmente nova e racional. Outros defendem que a narrativa mitológica, que é estreitamente ligada a religiosidade, se desenvolveu de tal maneira que possibilitou o nascimento da especulação filosófica, compreendendo que a transição foi gradual e sem rupturas. Estes dois são os principais posicionamentos acerca do assunto, há outros, mas não cabem num só post…

Particularmente, concordo e estudo a transição gradual da mitologia para a filosofia. Alguns autores, os quais me fundamento, citam elementos fundamentais do pensamento antigo presentes na narrativa mitológica que continuaram presentes na especulação filosófica de modo que a pergunta fundamental fosse a mesma, mas com respostas diferentes.

Além das perguntas sobre o próprio homem, o mundo e Deus (ou deuses), outros princípios continuavam presentes, como a pergunta sobre a origem e finitude do universo, sobre a ordem da natureza, sobre a Lei, sobre os antepassados e mortos entre tantos outros princípios…

Também é muito importante perceber que os primeiros filósofos, traziam nos seus escritos muitos elementos da mitologia. Parmênides falava da Deusa Razão que mostrava a verdade ao homem; Platão e Aristóteles citam os deuses em diversos trechos de seus escritos, de maneira que sejam entendidos como parte da realidade a qual descreviam; e ainda os filósofos cristãos, que conciliaram toda a sua doutrina da fé e religiosidade com a filosofia, de modo que por séculos a filosofia e a teologia eram um só saber.

Eu discordo das posições radicais de ruptura entre a narrativa mitológica e especulação filosófica, e ressalto que ainda hoje vivemos diversos mitos diariamente. Campbell e Jung são autores que permitem entender como ainda existem elementos mitológicos no nosso modo de viver e de pensar, de modo que nos aproximam de uma vida com sentido, que vai além vida operativa que tanto destrói o homem. Mas aprofundar isso fica para outro post.

PS: A imagem do post retrata o “Mito da Caverna” de Platão.

Autores sobre o assunto:

Georges Gusdorf
Francis M. Cornford
Joseph Campbell
Carl G. Jung
Jean Pierre Vernant
John Burnet

 

 

 

Eduardo Martins

Seminarista Católico; Acadêmico; Nerd; Jogador e Mestre de RPG. Quando tenho tempo livre, faço mais coisas também!

  • Fabrício Filisbino

    Parabéns pela apresentação da temática Eduardo. Vendo a imagem que você utilizou para esta postagem, a respeito da transição da mitologia para a filosofia, me pergunto se a analogia da caverna de Platão não é justamente uma expressão desta passagem à luz da racionalidade. Não sei se tu tens estudado a respeito, mas confesso que fiquei refletindo a respeito. Abraço.

    • Fico grato pela apreciação!
      Afirmar que a Alegoria da Caverna é uma expressão da passagem da mitologia para a filosofia pode ser um pouco arriscado, afinal o objetivo de Platão não me parece ser esse ao criar a alegoria. Mas entendo que a alegoria expressa bem a transição.
      Particularmente, eu discordo que a mitologia seja a vida nas sombras da caverna, pois ela é capaz de iluminar aspectos da realidade os quais a lógica e a ciência não são, ou são de modo parcial e deficiente, como por exemplo as questões de sentido da vida, sentido da moral e transcendência.
      Ainda estou em fase de estudos do assunto, mas teu comentário já me deu o que pensar!
      Obrigado! Abraço!