NÃO PULE SE NÃO TIVER ASAS – CONTO

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Nasci surdo e mudo. Num mundo tão barulhento… Chega a ser irônico ter o alento do silêncio e conter o tempo ao passo das palavras engolidas. Não que eu engula palavras. Eu vivo numa fome delas.

Sem querer estragar seus pensamentos, mas as palavras são como as ações, às vezes são até melhores do que elas. Sim! São palavras ditas que tornam as ações o que são. Não dizê-las é que é um completo desperdício.

Eu sempre gostei do céu. Invejo as aves que vivem por lá. Há maldição maior do que não poder voar? Aprendi isso quando resolvi me jogar pelo ar a fora. Ser um garoto que não ouve e não fala não é bom. Em outro tom: É difícil fazer amigos! Então eu tinha a solidão quase tanto quanto tinha o chão como companheiro.

Trapaceiros!

Um não te larga, e o outro também.

Aprendi duas coisas na minha infância: Não pule se não tiver asas. E ninguém é feliz sozinho. Já na minha adolescência eu aprendi algo ainda mais importante:

Ninguém é feliz. Mas todo mundo finge que é.

Nunca me disseram o meu nome. Até porque eu não ia ouvir. Eles tentaram me ensinar tanto sobre mim. Como se eu não me conhecesse. Na verdade ninguém se conhece, só conhecemos outros alguéns que acham que nos conhecem.

Eu não conheci meus pais na infância. Eles me abandonaram. Me amarraram dentro de um saco de lixo e me desperdiçaram. As pessoas tem a estranha mania de desperdiçar coisas importantes. Entendi que eu não era importante para meus pais. Mas eles eram para mim. Eu só não sabia disso ainda. Tenho quase certeza que eu era importante para alguém. Além do mais: sobrevivi.

Aprendi que o importante é sobreviver.

Chorar é algo útil para um bebê. E esta vez foi a única e última que chorei, depois daquilo nenhum som mais saiu de minha boca. Em compensação as lagrimas eram costumeiras em meus olhos e rosto.

Se você não tem pais, seu país é que cuida de você. Ou deveria cuidar. Viver num orfanato não é isso. Mas é como se fosse.

Quer um conselho de um amigo?

Não passe sua infância num orfanato. Caso você resolva nascer de novo.

Logo notaram meu pequeno problema. Pelo menos pareceu que notaram. Acho que notaram. Sim… Com toda quase certeza eles perceberam que eu não posso ouvi-los, e nem falar para eles que eu não posso ouvi-los.

Foi aí que me levaram para um médico, eu não sabia o que era um médico aos dois anos e meio de idade. Pra falar a verdade, eu não sabia de nada. Nadinha mesmo. Se tinha uma coisa de que eu não sabia, essa coisa era nada.

Hoje eu entendo. Os médicos diziam que não havia problema comigo. Meu ouvido estava ótimo. Minhas cordas vocais ótimas. Então eles esperavam que eu falasse quando eu quisesse, mas não falei. Esperavam que eu os ouvisse, mas eu não ouvia.

O problema não era em minha audição ou em minha voz. Mas ainda assim o problema persistia. E eles simplesmente resolveram esperar.

Eu aprendi muitas coisas enquanto eles esperavam.

Conheci meu nome em várias formas: escrito, na linguagem dos sinais, em libras… Assim aprendi como pessoas que não ouvem e não falam se comunicam. Aprendi o movimento que a boca de uma pessoa faz quando diz meu nome, basicamente comecei a ler lábios. Além de que meu nome tinha várias formas de ser dito e escrito.

Téo era a mais comum. Tinha também Teodoro. E a mais formal: Teodoro Ferreira Lima. Esse foi o nome completo que eu ganhei aos seis anos, quando eu ganhei novos pais.

A adoção é uma forma de reconhecermos anjos em forma de adultos.

Aos sete anos meus novos pais não quiseram esperar. Me levaram num psicólogo na esperança dele encontrar o problema. Pessoas têm médicos para tudo, porque normalmente elas não conseguem se cuidar sozinhas, assim como não conseguem viver sozinhas. A solidão é um grande problema das pessoas.

Os psicólogos diziam (e dessa vez eu sabia o que eles diziam) que eu não podia ouvir porque eu não queria ouvir. E eu não podia falar, porque eu não queria falar. Era uma doença da mente. Algum tipo de trauma. Alguma coisa esquisita do cérebro que me impedia de ser normal.

Quando as pessoas não podem explicar as coisas cientificamente, elas explicam as coisas “cientificamente”. O que eu sabia sobre o meu problema de verdade era que ele era um problema e tanto. Um problema assim quase invencível, e meus novos pais me ensinaram que quando você não pode vencer algo, ou você deve juntar-se a ele ou conviver com ele.

Eu aprendi a ser surdo e mudo. Aprendi tanta coisa. Mas lá quando eu tinha dezessete anos surgiu uma garota. E eu nunca quis tanto ouvir a voz de alguém como queria ouvir a voz dela.

E algo aconteceu.

Ela tentou voar, mas não tinha asas. O chão a abraçou com tanta força que se uniu a ele. O chão era um problema que não podemos vencer, e ela se juntou a ele. A depressão é outro problema que ela não conseguiu vencer. Ela nunca ouviu minha voz, e eu nunca ouvi a dela.

É estranho o que as pessoas fazem por causa do silêncio. Elas não suportam. Acho que o silêncio mostra quem elas são de verdade. Adultos parecem não gostar nadinha da verdade. Eu aprendi a conviver com ela. Me apaixonei de novo, conheci o amor por alguns anos, casei e passei a me apaixonar todos os dias em silêncio.

Até o dia que eu descobri que seria pai, e no dia que minha filha nasceu, eu a ouvi chorar. E eu chorei. Ela me ajudou a vencer o invencível. Às vezes, tudo o que se precisa, para isso, é de um pequeno exército. E com a minha filha nos meus braços, eu era invencível.

© por Jadson L. Ribeiro

Jadson

Escritor, poeta e artista visual. Um amante incurável da literatura e das artes plásticas. O romance, a ficção científica e principalmente a fantasia me fascinam. Nerd assumido. Séries, filmes, animações e café são as coisas que melhoram meu dia. O mundo real é um lugar que às vezes me arrisco em visitar.