Nerdosofia #1 – Maquiavel, Nietzsche e O Maior Vilão Humano da DC Comics

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Saudações nerds e geeks de todo o mundo! Você que acompanha o Portal Cultura Nerd e Geek já deve ter reparado que esse mês veio cheio de novidade, correto? Colunas novas, promoção de páscoa, podcasts à mil, e muito mais! E é nesse espírito de novidades que venho trazer até vocês uma nova coluna, que sinceramente espero que gostem e curtam muito: a Nerdosofia!

O objetivo aqui é simples e divertido: analisar sob um prisma mais acadêmico o material que todos nós nos deparamos cotidianamente dentro dos nossos amados hobbies. Sejam eles games, quadrinhos, cinema, literatura ou mesmo televisão, há muita ciência e filosofia por trás das criações! Então convido você a se juntar nessa nova coluna, começando de um dos mais icônicos vilões da cultura pop de todos os tempos! Então, bora lá, e boa leitura a todos!

 

ALEXANDER “LEX” LUTHOR

Alexander “Lex” Luthor é um dos maiores vilões de todos os tempos. O personagem criado por Jerry Siegel e Joe Shuster fez sua estreia na edição Action Comics #23, publicada em abril de 1940 nos Estados Unidos, e é listado como 4º colocado na lista dos 100 Maiores Vilões de Histórias em Quadrinhos de Todos os Tempos da IGN e como o 8º maior vilão pela Wizard em sua lista dos 100 Maiores Vilões de Toda os Tempos. Sua história, desde sua criação em 1940 até os dias de hoje, sofreu inúmeras alterações, porém uma constante sempre se manteve: o personagem é bilionário, magnata, cientista, inventor, filantropo, engenheiro, tido como um dos seres humanos mais poderosos do planeta, e um dos piores inimigos do Superman e de toda a Liga da Justiça.

Seja nos quadrinhos, filmes, séries ou animações, Lex sempre se mostra capaz de fazer rivalidade frente os seres mais poderosos do planeta usando de seu intelecto e poder financeiro (o que muitos utilizam como argumento a favor de Batman na disputa Superman x Batman), se colocando como um de seus piores inimigos e mais ardilosos rivais. De tramas altamente elaboradas à disputas físicas, Lex rivaliza com os maiores heróis da Terra, mas tem uma rivalidade em especial contra o Superman, que na sua visão é seu maior antagonista, e o principal responsável pelo comodismo da humanidade perante as turbulências e problemas mundiais.

Mas o que faz de Lex um vilão tão poderoso assim? Somente inteligência e dinheiro? O que o motiva? O que faz dele um vilão? Por que essa rivalidade tão forte com o Superman? Quais são suas aspirações e ambições? Por que ele não utiliza suas capacidades para ser um herói? São essas perguntas que, quando analisadas, tornam Lex um personagem tão profundo, tão dramático, e tão mortal! Um personagem que caminha na zona cinza entre o bem e o mal, entre o certo e o errado.

Os grilhões de Lex fazem ele parecer um vilão, mas… será mesmo um vilão?

Como gênio perante a média intelectual da humanidade, Lex é um personagem que sempre se viu acima da humanidade, mas nunca fora dela. Via em si mesmo o potencial que a humanidade poderia alcançar se ela se esforçasse um pouco mais, tivesse tempo de amadurecer e evoluir. Em sua visão, o potencial de evolução da humanidade precisa ser desperto, para que a evolução aconteça. Acredita tão cegamente nisso, que quando Superman surgiu, um alien com poderes semelhantes aos deuses das mitologias, viu nele a maior ameaça que a humanidade poderia enfrentar: um ser capaz de impedir que a humanidade evoluísse por impedi-la de enfrentar seus próprios problemas. Consequentemente, essa visão do Superman muitas vezes deixa Lex no papel do vilão trama, mas em muitos pontos o deixa em uma zona neutra, afinal ele quer o melhor da humanidade. Até que ponto as atitudes de alguém podem ser mesuradas por suas atitudes? Qual a posição que alguém como Lex deve assumir no papel da história da humanidade?

A cura para uma humanidade doente é um homem acima da doença, e acima da humanidade.

Imagine que, para Lex, a humanidade é um “organismo vivo doente”, que precisa enfrentar sua doença para exterminá-la de vez. Ele seria, para a humanidade, uma “vacina” definitiva, um modelo de “anticorpo” que combate essa doença. O Superman (e outros super seres), em contra partida, seriam como remédios paliativos, que ao invés de curarem, apenas amenizam a doença por um período, fazendo com que a mesma ressurja mais forte, e torne esse organismo dependente do remédio. Seria uma relação de dependência eterna, que deixaria este organismo vivo em um estado de semi torpor, semelhante a um coma. E, de certa forma, não é exatamente isso o que ocorre?

 

 

 

OS FINS JUSTIFICAM OS MEIOS

Com o advento dos super-heróis e super seres no planeta, Lex anteviu que humanidade não mais se preocuparia em combater seus próprios problemas e melhorar, mas sim passaria a esperar que seus heróis e protetores dessem uma solução ao problema. Para ele, os supostos heróis atrofiariam serviços básicos da sociedade, como policiamento e proteção civil, causariam danos arquitetônicos estruturais significativos, e no fim causariam mais prejuízos que benefícios à humanidade.

A série Invasão, publicada originalmente entre 1988 e 1989 (uma minissérie em três partes com vários tie-ins e repercussões em várias edições mensais da época) mostrou uma invasão à Terra de nove raças alienígenas diferentes, lideradas pelos Dominions, que buscavam erradicar todos os super seres da Terra, temendo que sua proliferação em massa pudesse causar danos o Universo (à princípio vendo nos super seres do planeta os mesmos perigos que Lex havia previsto). Os aliens fazem um ultimato aos humanos: “entreguem seus super seres e a Terra será poupada”. Os governos da humanidade respondem negativamente aos aliens, e deixam a cargo dos super-heróis e super-vilões a defesa da Terra. As Forças Armadas da Terra mal se envolvem na disputa. Não é justamente isso que Lex previu e tentou impedir?

Só existe um Superman, e ele é humano!

O filósofo Nicolau Maquiavel defende em sua obra O Príncipe, a tese de que, em se tratando do bem do Estado, e do bem da maioria, “os fins justificam os meios”, e esse é o papel de um líder. Cabe a um líder com um bom objetivo, fazer de tudo ao seu alcance para que tal objetivo seja alcançado. É papel então do líder, uma vez que não há instância acima dele, determinar o rumo das ações tendo em vista o seu objetivo final. O que deve ser pesado na balança não é o caráter da ação isolada, mas o caráter do objetivo final das ações. Dessa forma, não importa o caminho seguido, pois se o objetivo final é considerado ético e moral, assim terá sido o caminho.

Lex considera a si mesmo acima da humanidade, logo um líder natural para a mesma. Acredita de verdade que seu papel é guiar a humanidade para seu melhor estado evolutivo, guiar a política para o bem estar geral. Assumidamente Lex coloca a si mesmo como o líder perfeito, e acredita que, como soberano líder da humanidade, a mesma poderá atingir seu potencial máximo, e se livrar de uma vez por todas de seus problemas.

Esse ponto de vista o deixa em uma zona neutra. Em seu pensamento, os fins justificam os meios. O fim que Lex busca atingir é, resumidamente, a soberania da humanidade. Ele pesa na balança a vida de milhares contra a vida de bilhões e toma uma decisão, o que ocorre com frequência no cenário político global.  Para Lex a humanidade está em guerra consigo mesma, e em uma guerra, perdas são aceitáveis quando se busca a vitória, sacrifícios devem ser feitos para que a conquista aconteça. Em contrapartida a esse pensamento está o Superman e toda a Liga da Justiça, com sua pose de heróis, de moral inviolável, e de considerar que toda a vida é sagrada e deve ser poupada. Para os heróis não existe uma guerra, e a humanidade precisa ser cuidada, protegida. Eles acreditam que seu papel é salvar a humanidade de si mesma, mas apenas remediando os males que ocorrem, nunca o prevenindo ou eliminando de vez.

Dessa forma, Superman e a Liga da Justiça não são heróis, mas sim os vilões, aqueles que impedem a humanidade. Para Lex, os “supostos deuses” deveriam, se realmente quisessem ajudar a humanidade, usar seus poderes para resolver os problemas do mundo, como as doenças, a fome, a miséria. Esse ponto de vista é bem explorado na maxi série Justiça (publicada originalmente no Brasil pela Panini em 12 edições entre 2007 e 2008), onde os vilões “resolvem” os problemas da humanidade e esfregam isso na cara da LJA, mostrando que o mundo não precisa e não depende deles, causando nos supostos heróis a dúvida se os mesmos realmente fizeram o melhor pela humanidade.

Lex também não se priva de se aliar a outros vilões quando seus interesses são comuns. Mais de uma vez foi o líder da chamada “Legião do Mal”, que teve várias formações diferentes ao longo dos tempos, enfrentando igualmente diferentes versões da Liga da Justiça. Independente de sua formação, a Legião do Mal sempre teve como objetivo principal aniquilar a LJA e todos os heróis do mundo, dando o controle da humanidade para os vilões, sendo que Lex sempre tinha já elaborados os planos para acabar com os vilões logo que a LJA fosse aniquilada, assumindo sozinho o controle de tudo e cumprindo seus objetivos.

Lex frente a uma das várias formações da Legião do Mal

 

UM HOMEM ALÉM DO HOMEM

Para o filósofo Friedrich Nietzsche, apareceria entre a humanidade um ser evoluído, acima de todos os homens, o Übermensch (que pode ser traduzido como além-homem, além do homem, ou mesmo o super-homem). Em sua obra Assim Falava Zaratustra, o filósofo descreve os passos pelos quais o homem poderia se tornar o além-homem, e Lex acredita que ele próprio é esse Übermensch, aquele que veio da humanidade e a superou, mas que prova ser possível a outros seguirem seus passos. Lex acredita que, tal qual o personagem de Nietzsche, seria papel dele levar a humanidade à mesma evolução, mostrar o caminho, e não mais pertencer àqueles que não desejavam ouvir.

A presença do Superman, e consequentemente de todos os “pretensos heróis” do planeta, em sua visão, cega a humanidade para seu próprio potencial, e deposita em “falsas divindades” a crença de seu Übermensch, deixando de buscar a evolução e a transcendência interior. Para Lex os heróis, e principalmente o Superman, assumem o papel que Nietzsche atribui a Deus em suas obras: a figura que aprisiona a humanidade em um sonho de esperança, em uma imagem irreal de que suas preces serão atendidas.

Enquanto o filósofo alemão critica a Deus (e principalmente a religião católica) dizendo que eles impedem que a humanidade aja por conta própria com ilusões de que sacrifício e comodismo serão retribuídos pela providência divina, Lex faz a mesma crítica, dizendo que os heróis, e principalmente o Superman, aprisionam a humanidade em uma falsa idéia de que basta gritar por socorro e todos os problemas serão resolvidos, seja ele um assalto, um acidente, ou mesmo uma doença. Lex critica duramente a interferência dos heróis nos considerados “assuntos urbanos”. Segundo ele, cada vez que um heróis impede um assalto, resgata alguém de um acidente, ou impede uma catástrofe, eles estão impedindo a humanidade de mudar suas atitudes, refletir sobre seus erros, analisar seus paradigmas.

Lex tenta, conforme mostrado em várias histórias, como a saga Inimigos Públicos (publicada originalmente em seis edições na revista Superman & Batman, e no brasil pela Panini entre 2003 e 2004; também recebeu uma adaptação para um longa metragem animado em 2009) desmascarar o Superman e todos os “pretensos heróis” perante a humanidade, provando que os mesmos são incapazes de ajudar a humanidade quando a mesma realmente precisar. Ele quer que a humanidade acredite em si mesma, e não em alguém de fora da humanidade. Seu desejo profundo de derrotar a LJA e o Superman podem ser interpretados como um desejo de derrubar os falsos mitos, as mentiras que prendem a humanidade, colocando Lex no papel do anti-herói em seu sentido mais puro e também figurativo.

Para Lex, o Superman é o verdadeiro culpado e o verdadeiro vilão

 

UM SENHOR VILÃO

Lex Luthor não é apenas um bilionário obcecado. Tire dele todo seu dinheiro e nome, e ele ainda será capaz de usar de toda a sua inteligência e dialética para colocar outros para trabalharem por ele. Dono de uma forte capacidade de diálogo e persuasão, ele é capaz de convencer de heróis a vilões, andar nos meandros da lei sem ser pego, e até mesmo de colocar o Coringa em controle! Tal genialidade põe frente a toda a Liga da Justiça, e sozinho! Mas Lex não é um personagem orgulhoso, e reconhece que nem sempre tem todas as respostas ou soluções sozinho (apesar de sempre se considerar fundamental em todas elas). Sua genialidade só não é mais perigosa por ser nublada por sua obsessão com o Superman. Por acreditar tanto que o Superman é a figura absoluta de rivalidade de sua própria imagem, Lex acaba sempre incluindo o Superman em todos os seus planos e objetivos, raramente sendo capaz de tomar alguma ação que não envolva de alguma forma seus planos contra o Homem-de-Aço.

E aí, profundo o vilão, não? São ou não são motivos mais que suficientes para fazer Lex Luthor figurar entre um dos maiores vilões fictícios de todos os tempos? Deixe aí seu comentário e sugestão, e nos vemos no próximo!

Ah, e a frase do desafio de páscoa é: Coelho traz com muito amor

E se… Lex Luthor tivesse os poderes do Superman?

 

REFERÊNCIAS PARA PESQUISA E LEITURA

Friedrich Nietzsche – Além do Bem e do Mal

Friedrich Nietzsche – Assim Falava Zaratustra

Nicolau Maquiavel – O Príncipe

Liga da Justiça – A Torre de Babel (DC Comics / Panini Comics)
Lex Luthor – Biografia Não Autorizada (DC Comics / Panini Comics)

DC Invasão (DC Comics / Panini Comics)

All Star Superman (DC Comics / Panini Comics)

 

Eduardo Filhote

Filósofo, podcaster do Machinecast, brisador por natureza, nerd por vocação, e viciado em cultura pop por opção. Em dias normais uma pessoa normal.

  • Marcos Valle

    Ótimo artigo, Edu. Nessa abordagem, como ficaria a visão de Lex sobre o
    Batman? Afinal, ele não tem poderes, seria outro Übermensch como o
    próprio Lex?

    • Edu Filhote Henrique

      Valeu Marcos, muito obrigado por ter lido, meu amigo!!!
      Vamos à sua resposta!!!

      O Batman não seria um Ubermasch como Lex, porque, para o Lex, ele é o único!
      Lex de certa forma “respeita” o Batman como um adversário no mesmo nível, porém ele vê no vigilante uma contribuição para a doença.
      O Batman não faz o que faz, e como faz, buscando a salvação da humanidade ou a iluminação pessoal. Ele busca, como os outros heróis, sanar o problema, e não acabar com ele de vez.
      O Batman estaria mais para o “homem primitivo” de John Locke que para o “além-homem” do Nietszche!

  • Fabiana Murray

    Edu que artigo maravilha! Brisei legal na ideia. Liderança é bem assim mesmo, e você tem que tomar bastante cuidado para de líder virar um tirano.

    • Edu Filhote Henrique

      Brigadão Fabi!!!!! Muito muito obrigado!!!
      Sim, é bem verdade!!! E o Lex é um dos melhores exemplos do gênero!

  • Darley Santos

    Interessante e super válido esse paralelo entre esses argumentos filosóficos e a história de Lex Luthor, e os autores referenciados perfeitamente cabíveis na visão de mundo do personagem. Na parte sobre Maquiavel, no entanto, um pensamento me fez acabar vazando para o mundo real, que foi enxergar Lex Luthor como os Estados Unidos da América e seu papel intervencionista enquanto maior potência militar e econômica, pois fica o dilema – qual o papel de alguém que está à frente dos demais perante os problemas da humanidade?

    • Edu Filhote Henrique

      Excelente questão menino Darley! Segundo Maquiavel, é dever do detentor do poder exercê-lo em função do bem maior! Quando colocamos esse mérito no mundo atual, encostamos no problema da Globalização: por um lado, é dever do Estado zelar pelo seu território e sua população, porém não vivemos mais em um mundo “isolado”, logo as influências de um ultrapassam barreiras de outros, e com isso, surge a questão: até quando um Estado é resposnável por sua influência em outros Estados Soberanos?

      E muito obrigado por ler e ter curtido!