Poética: FOTOGRAFIA VELHA

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O menino da cidade já não sabia mais como era ter os pés tocando a terra. As paredes, os prédios, as avenidas, tudo fazia com que ele se esquecesse de como era olhar para longe e conseguir ver o céu tocando a terra lá no horizonte. O menino tinha uma saudade no coração que ele não entendia, nem sabia direito de onde vinha. Toda vez em que ele olhava pela janela do ônibus e via as pessoas esperando pela próxima condução para poderem ir para casa, cansadas, estressadas, ele pensava que aquela era uma vida difícil e todos sabiam disso, mas era a vida que eles conheciam e que lhes era alcançável.

O que ele poderia fazer? Era aquilo que ele se tornaria afinal? Como aquele senhor idoso sentado mais afastado no banco, olhando para longe com os olhos caídos, as rugas falavam a maldade do tempo, as mãos trêmulas falavam o cansaço do corpo. Ele seria mais alguém que espera para ir pra casa? Mais alguém que se perde em pensamentos antigos, como agora?

Nenhum medo era maior do que se esquecer de casa. Aquela casinha na zona rural de onde ele veio, onde ele podia brincar com carneiros, onde ele espantava os bois e em outras vezes corria deles. Onde ele saia com seu estilingue para caçar pardais, tentava pescar os peixes com seu tio, mas acaba espantando muito mais do que pescando, por causa da mania de querer tomar banho no rio. A vida mais simples era tão difícil quanto aquela na cidade, mas a maior diferença era que antes ele se sentia em casa de verdade, e agora ele se sente sempre perdido.

Agora ele não se lembrava de qual era a sensação, como era correr descalço nas estradas de terra, a sensação de tocar e subir numa árvore, comer uma fruta direto do pé, nadar no rio, coisas que ainda reverberava na sua mente, mas eram imagens que pareciam perder a cor como uma fotografia velha.

[Fotografia Velha, por Jadson L. Ribeiro, 02/12/2016]

Jadson

Escritor, poeta e artista visual. Um amante incurável da literatura e das artes plásticas. O romance, a ficção científica e principalmente a fantasia me fascinam. Nerd assumido. Séries, filmes, animações e café são as coisas que melhoram meu dia. O mundo real é um lugar que às vezes me arrisco em visitar.