Quando Eu Era Vivo (Resenha)

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Chamamos de lar aquele lugar onde nos sentimos amados, protegidos e acolhidos. Ou é isso que aprendemos. Mas, debaixo desse teto protetor, e exatamente por essa segurança, também é onde encontramos os maiores segredos da vida íntima, muitos deles complicados. Quando o filho pródigo volta à casa do pai viúvo em um momento ruim, nos deparamos com um conflito familiar construído nesse lar, um conflito que envolve mágoas, não aceitação, e possivelmente o capeta.

Quando Eu Era Vivo (2014) é o primeiro filme solo de Marco Dutra, baseado no livro A Arte de Produzir Efeito Sem Causa (2008), de Lourenço Mutarelli. Nessa história de terror e suspense (sim, um filme de terror nacional!), acompanhamos os conflitos entre Junior (Marat Descartes) e Sênior (Antônio Fagundes), quando o filho volta temporariamente à casa do pai após perder o emprego e se divorciar, dormindo na sala por seu quarto ter sido alugado para Bruna (Sandy, aquela mesma), se tornando cada vez mais obcecado pela falecida mãe (Helena Albergaria), uma carola também obcecada, mas pelo ocultismo.

Quem espera sustos gratuitos e didatismo vai se decepcionar, já que o filme trabalha o terror a partir da criação de tensão, tanto pela estranheza crescente de Junior – cuja sanidade se deteriora com o aumento da fixação pelo passado, assumindo aos poucos trejeitos infantilizados ou mesmo copiando os da mãe –, quanto pelo excelente trabalho de efeitos sonoros e iluminação. É um filme bastante sensorial e, apesar de nenhuma cena ser visualmente chocante, elas causam aquela estranheza e incômodos que levam o espectador ao desconforto.

Quanto mais Junior encontra os bens da mãe guardados no quartinho dos fundos e os coloca pelo apartamento, mais aquele lugar iluminado e moderninho vira uma mansão escura de filme de terror. O apartamento, aliás, onde se passa a maior parte das cenas, é colocado como um personagem, que engole pouco a pouco os demais quando seus segredos começam a ser revelados. E não espere ter explicações sobre o que realmente houve. Ao invés disso, temos sugestões de que a mãe não lidava com coisa lá muito boa enquanto o filme é salpicado com referências ao Diabo (a musiquinha no programa infantil de TV foi uma surpresa) e lendas urbanas brasileiras (dá até pra brincar de procurar o boneco do Fofão). Cada objeto de cena, cada som, cada música completa a narrativa.

Marat Descartes segura bem o filme no papel de protagonista e sua interpretação detalhista consegue transparecer a crescente estranheza de Junior até em leves expressões corporais, enquanto Antônio Fagundes brilha em cena como o pai viúvo que só quer cuidar da saúde, namorar a vizinha e ver o filho bem, mesmo que isso passe a constante impressão de que também quer se livrar dele. O papel de Sandy é bem direto e ela não compromete. Se a decomposição mental de Junior causa pouco impacto porque ele já surge em cena esquisito, a corrupção de Bruna, com sua voz angelical (e ela canta bastante no filme) e sua atriz que é de certa forma a representação da pureza na cultura pop brasileira, dá tom perverso à situação.

É um filme de terror psicológico aberto à interpretação, e naturalmente não é para todos. Não vai mudar sua vida, mas é bem executado e fica na cabeça depois que acabam os créditos. Vale uma assistida.

Ficha técnica:
Direção: Marco Dutra
Roteiro: Marco Dutra e Gabriela Amaral Almeida
Elenco: Antônio Fagundes, Marat Descartes, Sandy Leah, Gilda Nomacce, Helena Albergaria Nacionalidade e lançamento: Brasil, 2014

Vinicius Mendes

Escritor, redator publicitário e conspirador pela dominação mundial. Quando não está trabalhando ou estudando, assiste animações e filmes chatos, conhece uns graphic novels e mangás, lê de Paulo Coelho a Saramago, joga videogame e RPG de mesa e tenta fazer receitas de doce que aprende no Youtube.