Quase meio decaptado

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Os olhos ensanguentados não conseguiam definir a imagem dois metros a frente, tudo em sua volta não passava de borrões em tom de vermelho. Sua armadura que sempre fora tão leve e confortável, agora pesava tanto quanto o maior fardo do mundo. Havia quebrado ao menos duas costelas nas primeiras investidas do inimigo, o que debilitaria seus movimentos. E Isso o causava uma certa preocupação, pois sempre acreditou que seu único trunfo era sua agilidade.

Tentava se apegar a fé para reconquistar sua confiança, mas a verdade é que a mesma sempre fora pequena e o medo já tomara seu corpo por completo.

Mas não era por menos, Dorin era um garoto considerado grande, tinha cerca de 1,80m. Porém logo a frente se erguia seu adversário: Um emaranhado de armadura, músculos e confiança. Que ninguém se atreveria chutar a altura, pois qualquer que fosse seu palpite, pareceria muito exagerado para descrever um humano. E de humano realmente ele não tinha nada, o maldito nem se dava o trabalho de ter um nome. Apelidos e histórias, colecionava em todos cantos dos nove reinos de Naftlan. Algumas absurdas, feitas para assustar crianças mimadas com pais de pulsos frágeis. Porém diante de sua presença, Dorin não duvidara mais de nenhuma. Inclusive a que dizia que a mãe era uma puta que havia trepado com o demônio para conseguir riquezas, só que ao contrário de riquezas o anjo caído lhe deu um filho, um híbrido de humano e demônio. O que de alguma forma ilógica fazia sentido na cabeça dos que ousavam empunhar uma espada contra “O monstro”.

A cada passo que ele dava no lamaçal, o coração do garoto palpitava e suas pernas praticamente imploravam para sair dali correndo. Mas todos estavam ali em volta, ele não poderia ser o covarde. Era a única oportunidade para Sor Dorin de lugar algum, descendente da família de ninguém ascender socialmente. Vencendo o demônio com certeza se tornaria rico, se deitaria com as mulheres que quisesse e além de tudo teria o que mais almejara durante a vida: reconhecimento. Sabia que não estava preparado para aquele momento, sabia que a chance de ser esmagado com a marreta do “Sem nome” era gigante, porém ele tinha que tentar. Sempre fora persistente, porém a vida nunca o sorriu com sorte. Talvez hoje seria o dia, ou não…

E em sua direção vinha mais uma investida do martelo gigante. Dorin levantou seu escudo, cravou sua bota na lama e recebeu o golpe. Fez todo esforço possível para continuar de pé. Conseguiu.

A multidão estava louca para velo cair e ser esmagado, não porque não gostavam dele, mas sim porque era o costume ver um ninguém ser obliterado pelo martelo do “Bastardo Infernal”.

Enfim veio outro golpe, anunciado com o grito da multidão que estava entusiasmada com as possibilidades de morte que o “Gigante Demoniaco” poderia causar ao garoto. Mas mesmo estando com os movimentos debilitados, Dorin ainda era mais rápido. Conseguiu se desviar abaixando, o vácuo criado pelo martelo fez seu ouvido zunir. Tentou se levantar rápido para refazer a guarda, porém no meio do caminho acabou encontrando o joelho do “Gigante inominável” em sua cara.

Em uma situação com cavaleiros normais, uma joelhada em um capacete não seria algo muito inteligente, porém o endiabrado era tão forte que conseguira amassar o capacete do garoto e acabou o deixando zonzo. Por mais que estivesse de pé ainda, ele era um alvo tão fácil quanto um peixe em água barrosa.

A “Besta dos Nove Reinos” veio com toda velocidade erguendo seu martelo para o lado do pobre garoto. O fim era próximo, e até ele já havia admitido. Nunca esperava sentir tanto medo, pensou que se sairia um pouco melhor.

Morreria ali no meio da lama como mais um ninguém e seria enterrado da mesma forma. Tentava se enganar com a ideia que era melhor estar tentando, do que ser um acomodado durante sua vida toda. Isso o reconfortava um pouco, mas logo em seguida vinha o sentimento de incerteza e medo. Afinal tinham dezesseis deuses em Naftlan, talvez ele iria para o paraíso por ter escolhido o deus certo, mas o contrário era dezesseis vezes mais provável.

O gigante veio se aproximando, descendo com uma força de mil trovões o martelo que deveria ser a coisa mais pesada naquele ambiente e… a vida sorriu.

Por um capricho o monstro escorregou na lama, o martelo bateu no chão a frente Dorin com a força tão grande, que o fez acordar do transe cometido pela joelhada. Parecia que os deuses resolveram servir de bandeja a cabeça do “Demônio Gladiador” para o garoto. Até a altura que o monstro ficou no chão era perfeita para cortar seu pescoço.

Dorin, o filho de ninguém, vindo de qualquer lugar sem importância, pela primeira vez na luta iria usar sua espada. Atacou com o máximo de força que podia, o que não quer dizer grandes coisas. Porém sua mira foi precisa, acertou entre o capacete e as ombreiras. Indo de encontro a uma grossa cota de malha, que tentou resistir, mas não conseguiu defletir o golpe. Golpe este que não teve força para chegar nem na metade do pescoço do endemoniado, mas já era mais que o suficiente para o desgraçado nem agonizar.

A multidão fez silêncio por alguns segundos até voltar gritar, tentando se acostumar com a ideia de que um ninguém acabara de matar o homem mais temido dos nove reinos. Dorin não tinha absoluta ideia a qual dos dezesseis deuses de Naftlan deveria agradecer. Só sabia que a partir de agora era um homem rico, nunca iria faltar damas para o acompanhar a noite, era reconhecido e nunca mais em sua vida voltaria a brandir uma espada.

Luiz Henrique

Bom dia mesmo que de noite pessoas! Meu nome é Luiz Henrique, e se quiser saber mais sobre mim... Escuta o Lote Piloto! Também conhecido como o melhor podcast do mundo. Conhecido por 3 pessoas, que são familiares e não entenderam bem o que é um podcast. "-É tipo uma rádio né?! - É sim vó!"