Redenção – 400 Trovoadas – 48

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Repassei em minha mente o tempo em que estive com Freyja dentro do quarto. Não deixava de achar que estava ficando maluca ou paranoica, mas parecia que eu havia perdido metade do meu dia. Tudo pareceu passar tão rápido, nossa conversa, a xícara de chá e logo a tarde caiu e eu deveria voltar para meu quarto. Saí de lá com uma promessa de que nos veríamos no jantar.

Maluca… Você deve estar ficando maluca – sussurrei para mim mesma enquanto andava pelos corredores à procura de meu quarto.

Passei a mão pelo meu rosto tentando expulsar os gritos em minha mente de que algo estava errado e que eu havia perdido alguma coisa. Não conseguia me livrar da sensação de perda. Tentei ignorar aquilo, porém o que me fez distrair os pensamentos malucos foram batidas de pés no chão. Alguém vinha descendo a escada. Me escondi atrás de uma pilastra para observar.

Sif descia as escadas enquanto olhava discretamente para os lados. Ela parecia um pouco nervosa, como se estivesse escondendo algo. Ela desceu rapidamente e passou por mim sem ao menos olhar para os lados. Ela desapareceu para a saída que dava aos jardins do palácio e eu me senti tentada a segui-la.

Algo me parecia tão errado com a guerreira, ela não parecia alguém que se distraía facilmente mesmo em tempos de paz em que estamos vivendo. Andei um pouco mais rápido para seguir as passadas de Sif, me escondi entre algumas pilastras que sustentavam os jardins do palácio. A morena andava rapidamente à minha frente e de repente ela parou. Um homem, loiro, estava parado de costas para ela e quando sentiu que se aproximava ele se virou.

– Aaron! – sussurrei surpresa.

Assim que ele se virou sorriu para Sif e a tomou em seus braços. Eu soltei um arquejo. A morena agarrou seu pescoço e eles se beijaram ardentemente. Minha boca se escancarou e eu achei que meu queixo estava quase no chão. Saí de lá o mais rápido que pude ainda embasbacada com a cena que havia acabado de presenciar.

 

Ainda estava surpresa com o que havia visto quando Loki chegou. Tinha voltado para o quarto dele e já estava pronta para o jantar que aconteceria dali alguns minutos. Ao me ver, seus lábios se levantaram em um pequeno sorriso. O sorriso verdadeiro que ele dirigia a mim todos os dias. Eu era a única a recebê-lo, as outras pessoas apenas conheciam seu sorriso de ironia e zombaria.

Ele se aproximou de mim e encostou os dedos em meu rosto. Eu sorri pelo carinho que ele fazia em minha bochecha. Sabia que Loki estava preocupado com meu comportamento da noite passada, mas eu apenas torci para que ele não entrasse naquele assunto. Não era hora de falar sobre aquilo com ele. Levantei-me da cama e deitei minha cabeça em seu peito antes de voltar-me para olhá-lo nos olhos.

– Você está melhor? – ele sussurrou enquanto seus dedos acariciavam meus cachos cor de chocolate.

– Hmmmm… Isso é bom. – Respirei fundo antes de respondê-lo. Levantei meus olhos para ele. – Sim! Estou melhor, obrigada.

Loki franziu o cenho e seus olhos procuraram em meus rosto algum tipo de resquício de que eu estava fingindo, mas aquilo era verdade. Eu estava melhor por encontrar nele uma espécie de cais ou âncora quando estivesse mal.

– Vamos jantar! – eu disse descansando meu braço no seu enquanto nos dirigimos para a sala de jantar.

A conversa estava fluindo calmamente e totalmente espontânea. Jane e Frigga falavam ansiosas sobre os acontecimentos de amanhã no aniversário de Thor. Freyja se mantinha em silêncio com os olhos na comida, parecia pensativa. Loki havia sentado ao meu lado e quando eu me demorava para comer sua mão encontrava a minha por debaixo da mesa e recebia gentis cutucões para que eu voltasse a prestar atenção na comida.

– Thor… se não se importa eu gostaria de fazer uma pergunta – eu disse remexendo a deliciosa sopa asgardiana.

A atenção da mesa veio diretamente para mim e eu sorri amarelo. Sempre tive aquele questionamento. Como Loki havia me dito, o tempo se passava diferente em Asgard e como o aniversário do deus do trovão estava tão próximo eu não consegui resistir.

Espero que não seja uma pergunta indelicada, pensei.

– Claro, Diana. Pergunte o que quiser – ele sorriu para mim enquanto pegava uma suculenta coxa de frango no prato e mordia.

– Bom… eu queria saber quantos anos você vai fazer – eu disse.

Loki soltou uma breve risada e Frigga o acompanhou. Eu fiquei vermelha, tão vermelha quanto um tomate. Maldita a hora em que eu entrei naquele assunto. Jane também riu. Olhei para Freyja e ela continuava alheia a tudo que acontecia ao seu redor.

– Bom. – Thor disse em meio a uma risada – Farei 400 anos.

– O quê?! – Quase cuspi um pouco da sopa que estava desfrutando.

Loki e Frigga riram mais uma vez e Thor os acompanhou.

– Bem, Diana. O tempo em Asgard passa de forma diferente. – Loki disse e acariciou minha mão por baixa da mesa.

– Sim! – Jane continuou – Aparentemente os anos aqui duram muito menos que na Terra, Diana. Então Thor está vivo… Bem, há muito tempo, mas se formos contar como os Midgardianos… Thor faria 28 anos. – Jane sorriu para o loiro e ele mordeu novamente o pedaço da coxa de frango.

Corei violentamente e levei a colher com sopa até a boca para me calar. Olhei para Thor com uma expressão de pedido de desculpas e ele apenas sorriu para mim e disse:

– Está tudo bem. Acho que Jane não se importa de ter um namorado tão mais velho. – Ele riu.

– Uhhh! Claro que não, adoro caras mais velhos. – Jane sorriu para ele e limpou resquícios de molho de sua barba rala.

Olhei para Loki e ele me devolveu um olhar divertido. O clima na sala de jantar ficou ainda mais leve e descontraído do que antes. Parecíamos realmente uma grande e estranha família.

 

Dei uma última olhada no espelho. O vestido nude cheio de pedrarias se abria nas minhas costas. Prendi os cabelos em um coque para mostrar o decote. Loki não queria que nos aprontássemos no mesmo quarto. Ele insistia que queria me buscar na porta, afinal da última vez que tivemos um baile em Asgard ele não era meu par propriamente dito. Estava satisfeita com as pedrarias, elas brilhavam sempre que eu me mexia o que me lembravam estrelas e constelações.

Olhei na pequena penteadeira e lá estava uma pulseira, ela era dourada com estrelas. Franzi o cenho. Eu a reconhecia de algum lugar. Sorri ao ter uma espécie de flashes. O último baile eu usava a pulseira. Havia encontrado ela entre meus pertences do outro quarto. Era bom saber que algumas coisas já se mostravam reconhecíveis assim como alguns caminhos pelo palácio. Eu nem precisava parar para perguntar, simplesmente seguia a intuição.

Uma batida na porta me fez sorrir mais ainda. Loki estava ali para me levar. Ajustei as sandálias e aumentei os passos para abrir a porta. Assim que dei de cara com a figura à minha frente eu não consegui reprimir o suspiro. Loki estava com uma cota negra por cima de uma espécie de camisa verde musgo. A calça também era negra e os sapatos igualmente negros. Seus cabelos recém cortados penteados para trás, um fio rebelde caía perto dos olhos. Ele abriu um sorriso grande quando me viu, parecia satisfeito com o que estava vendo assim como eu.

Sem dizer uma palavra ele me estendeu o braço e eu prontamente aceitei. Era típico dele ser um tanto silencioso, mas assim que chegamos ao salão eu percebi o modo como ele olhava para as pessoas e andava, ele parecia satisfeito e orgulhoso. Segurava em meu braço mais forte. Olhei ao redor, nobres e mais nobres foram convidados assim como os guerreiros.

Os amigos de Thor estavam próximos dele conversando. Jane também estava ali e tomava goles e goles de hidromel, ela estava deslumbrante em um vestido vermelho com as típicas fendas asgardianas. Seus cabelos pendiam nos ombros cor de caramelo. Os sorrisos e olhares que ela e Thor dirigiam um ao outro mostravam o quanto estavam felizes e apaixonados. Eu sorri para minha amiga e acenei. Ela veio correndo e me abraçou.

Obrigada por me ajudar a escolher o vestido – ela sussurrou.

Abracei ela com mais força e sussurrei que ela estava linda. Jane se animou e se aproximou de minha orelha:

Loki está com uma pompa enorme. Ao vê-los entrando eu pude perceber o quanto ele está orgulhoso de andar por aí com você segurando nos braços dele – ela sussurrou.

Não pude deixar de sorrir. As coisas em Asgard estavam realmente boas, Loki aparentemente havia sido perdoado por seus erros, mas não contava com isso por muito tempo, afinal Odin ainda dormia e quando acordasse as coisas poderiam não ser tão boas assim.

– Estou tão radiante quanto ele – soltei minha amiga e sorri para ela.

(…)

Loki me entregou uma caneca de ouro cheia de hidromel. Parecia que Thor iria fazer um pronunciamento e todos estavam próximos das escadas que davam para o trono. A música já estava um pouco mais baixa e todos conversavam e cochichavam esperando que o Príncipe de Asgard falasse. Ele subiu até as escadas e se juntou à Frigga. Ela estava como a Rainha regente enquanto Odin dormia então era preciso ela ali para um pronunciamento oficial.

Olhei em volta e encontrei Sif com os olhos. Ela estava linda em um vestido azul cobalto. Bebia hidromel. Aaron estava a alguns passos de distância e seus olhos não deixavam os dela. Apesar da situação com a qual me deparei mais cedo eu fiquei feliz por ela, sabia que a guerreira era apaixonada por Thor, que somente tinha olhos para Jane. Queria que Sif fosse feliz com quem quer que seja desde que estivesse feliz.

– Diana, querida. – Naveen apareceu juntamente com Allya em um vestido roxo, ela estava linda.

– Naveen! – Eu me separei de Loki e o abracei apertado.

– Você está linda. – Ele mostrou seus dentes perfeitamente brancos e alinhados.

Allya cumprimentava Loki e ele mostrava entusiasmo ao conversar com a pequena, porém ao ouvir aquele comentário ele nos lançou um olhar atento. Corei por alguns minutos e pensei se seria correto dizer que ele também estava bonito. Graças a Odin, quando abri minha boca para agradecer, um soldado anunciou o pronunciamento de Thor. Naveen se virou para ouvir e Allya correu para o aconchego das mãos do pai. Loki se aproximou e se pôs atrás de mim com uma mão em minha cintura.

– Sejam bem vindos, meus queridos amigos. Quero agradecer-lhes por estarem juntamente comigo comemorando. E em um momento tão especial como esse eu quero pedir que cada um de vocês peguem uma caneca de hidromel e proponho um brinde entusiasmado. – Todos riram com o comentário de Thor.

Servos passaram entregando canecas e mais canecas. Loki pegou duas e me entregou. Eu não queria tomar o hidromel, mas também não queria que meu anjo trapaceiro desconfiasse de algo relacionado a isso.

– Como eu dizia… – Thor continuou – Em um momento especial como esse eu quero que vocês brindem não somente meu aniversário como também… – Thor desceu as escadas. As pessoas abriram caminho para ele que chegou até Jane. Ela segurava a caneca e franziu o cenho assim que o loiro se aproximou. – Bom, eu tentei descobrir como os midgardianos fazem isso, mas não vem ao caso. – Ele disse mais baixo para Jane. – Quero que vocês brindem também a uma pessoa especial. Jane Foster é a pessoa mais especial em todos os nove reinos da Yggdrasil para mim. Ela é como as inúmeras estrelas de Asgard e é tão bela quanto nossa cultura, por isso… – Thor se ajoelhou arrancando arquejos surpresos dos convidados e de Jane. – Por isso, eu quero ter o prazer de tê-la como minha esposa, Jane Foster de Midgard. Você me entregaria seu coração para sermos um só até os fins dos tempos? – Thor disse em sua voz estrondosa e sorriu para ela.

Jane colocou uma das mãos sobre os lábios. Seus olhos marejaram e gotas de lágrimas desceram pelos seus olhos. Eu também estava com uma das mãos sobre os lábios. Então era aquilo que Frigga e ele estavam aprontando. Os dois tão cúmplices. Sorri. Jane merecia aquilo. Meus olhos marejaram.

– Sim! Claro que sim. – Jane se ajoelhou e abraçou Thor. Ainda bem que ele era um guerreiro preparado e forte porque a reação de Jane poderia levá-los para o chão a qualquer momento.

O casal se abraçou tão fortemente que eu achei que eles iam se fundir. Thor levantou e puxou Jane junto. Ela agarrou sua cota e o beijou tão apaixonadamente que algumas moças asgardianas que estavam ao meu redor suspiraram. Todas queriam estar no lugar de Jane agora, sendo pedidas em casamento pelos homens que a amavam.

Todos explodiram em comemoração brindando e bebendo. Alguns nobres ainda estavam petrificados como se não aceitassem aquilo, porém Frigga sorria de onde estava e seus olhos os olhavam desafiadores como se os instigassem a questioná-la sobre isso. Ninguém se opôs e então a música começou.

Loki veio e sorriu para mim. Bateu a caneca na minha e tomou um gole. Sorri abertamente enquanto uma lágrima rolava de meus olhos. Malditos hormônios. Thor havia feito uma surpresa linda no dia de seu aniversário para a amada. Nada era mais bonito que a demonstração pública de amor.

– Você não vai tomar seu hidromel? – Loki levantou as sobrancelhas e com a mão direita limpou a lágrima que escorreu por meu rosto.

– Ahn… – Droga! – Não, não estou muito animada para beber.

Meu anjo trapaceiro franziu o cenho e pegou a caneca de mim. Uma música agitada começou a tocar e Loki colocou as canecas em uma bandeja de um servo que passava. Ele segurou em minha cintura e disse:

– Você? Recusando hidromel? O que está acontecendo? – Me perguntou irônico.

As palmas de minhas mãos suaram. Loki precisava saber sobre o que estava acontecendo. Engoli em seco. Com toda aquela demonstração de Thor e a felicidade que emanava dele e de Jane, meu coração se encheu de vontade. Vontade de contar para Loki que havíamos sido presenteados. Eu não sabia até quando aquele momento duraria porque Odin iria acordar em breve e também meus pressentimentos diziam que algo aconteceria.

Loki me arrastou para a pista. Eu o abracei e senti seu odor amadeirado. Lágrimas escorreram de minha face e olhei em seus olhos. Meu anjo trapaceiro me devolveu o olhar preocupado. Abri um leve sorriso tentando dizer que estava tudo bem.

– Loki, eu… – Comecei.

De repente um tremor fez a música parar. O salão de baile tremeu, todos se agarram a seus pares e olharam para a porta de entrada. Me virei para onde todos observavam. O tremor continuou. Loki agarrou minha cintura e me colocou atrás dele. Assim que o barulho e o tremor cessou uma figura surgiu nas escadas de entrada. Era Freyja. Ela subiu, entrou no salão. Todos a seguiam com os olhos. A mulher bateu palmas e disse:

– Eu adoro demonstrações públicas de amor. – Ela sorriu ironicamente.

Ouvi um grito ao longe de uma moça. Todos prenderam a respiração e mais outros gritos foram ouvidos. O lado esquerdo de Freyja estava se transformando em uma caveira. Arquejei. Loki se pôs defensivamente à minha frente. Logo os cabelos loiros de Freyja se transformaram em negros e então eu descobri o que diabos estava tão errado. Aquela não era Freyja, mas sim Hela.

Hela levantou uma das mãos e o salão tremeu novamente. Os nobres começaram a correr desesperados. Os homens puxavam suas mulheres para trás. Olhei em volta e vi Sif empunhando sua espada assim como outros guerreiros. O salão tremeu mais ainda e pessoas caíram. Loki me puxou mais para perto dele e então algo mais estranho aconteceu, o tremor fez todos caírem prostrados no chão. Meu anjo trapaceiro caiu ao meu lado e colocou seu corpo na frente do meu para me proteger.

– Acredito que precisamos fazer algumas mudanças aqui. O amor é maravilhoso. É uma pena… – Hela andou e os nobres abriram espaço enquanto ela caminhava batendo as sandálias pretas e altas no chão.

Loki segurou em minha mão muito forte. Encontrei seu olhar e o sustentei. A morte estava ali. A morte havia vindo nos cobrar. Chegara a hora de sua vingança e então eu tremi. Hela voltou no momento mais oportuno e o pior de tudo: eu conhecia suas razões.

– É uma pena que ele seja a ruína de seus amantes.

Assim que a morte disse isso, Loki desmaiou ao meu lado. Soltei um grito e coloquei minhas mãos em seu rosto. Olhei ao redor e todos estavam caídos como mortos. Levantei-me e encontrei o olhar de Hela. Ela levantou os lábios em um sorriso sarcástico. Olhei novamente para Loki e todos asgardianos caídos como meros peões.

Hela estendeu a mão para mim. A morte me fez um convite. Engoli o choro e fiz uma carranca. Ódio queimava minhas veias. Se ela machucasse Loki eu mesma daria um jeito de matá-la da forma mais dolorosa e lenta de todas. A ruína era eu, e ela me seguia onde eu estivesse. Abaixei e segurei a mão de Loki. Plantei um beijo cálido em seus dedos e abri caminho entre os corpos desacordados.

A morte me fez um convite e eu o aceitei.

Karol

Jovem com alma de criança. Cabeça nas estrelas, pés no chão e olhos no céu. Escritora amadora nas horas vagas e sonhadora em tempo integral.