Redenção – Aventura com margem em frustração – 6

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Loki continuava sentado perto do campo de força com um livro no colo, seu olhar direcionado a mim de forma tediosa. Suas sobrancelhas erguidas esperando que eu continuasse a falar.

– Disse que precisamos conversar, e então? – Disse impaciente.

– É… Sim! – Tentei contornar a situação, porém nada vinha em minha mente. Eu apenas queria ver se ele estava bem.

– Não estou para conversas hoje, midgardiana. – Revirou os olhos e pegou o livro do colo, abrindo em uma página aleatória.

– Eu sei que não está prestando atenção no que lê. – A raiva estava começando a aparecer em minha voz.

– Fingir que estou lendo é muito melhor do que dirigir minha atenção a uma pessoa que não faz ideia do que veio fazer aqui.

Trinquei os dentes tentando segurar a língua. Esse asgardiano metido não merece nem um pouco da minha gentileza ou preocupação. Esse maldito mau humor não me agrada nenhum pouco. Acho que deveria deixar para lá essa ideia maluca de tentar fazer esse ser demonstrar um pouquinho de arrependimento pelas atrocidades que cometeu.

– Qual é seu problema? – Foi a única coisa que consegui dizer.

– Já disse que não é ‘’o problema’’ e sim ‘’os problemas’’ e você está sendo um deles. – Disse me fuzilando com o olhar.

Como é que é?

Quer dizer que eu, sendo maravilhosamente legal aqui, me preocupo com essa coisa de gelo que está lindamente sem camisa com os braços definidos bem na minha frente…

Oi? Respira Diana, tenha foco!

Quer dizer então que esse maldito Jotun está dizendo que eu sou o problema dele? Acho que deve estar muito enganado porque eu quem devo ajudar esse traste metido a príncipe a ser perdoado pelo pai e Asgard inteira. E claro que ele não deve saber disso, mas minha vontade de lhe apontar o dedo na cara é muito grande.

Rosnei – literalmente – para ele tentando conter minha língua afiada, e não lhe falar umas poucas e boas. Virei as costas para ele e comecei a andar para longe de sua cela.

– Não dê as costas para mim, midgardiana desprezível! – Vociferou para mim.

– Já que tem tantos problemas, posso pelo menos resolver um para você? – Disse voltando e levantando uma de minhas sobrancelhas.

– Você não passa de uma humana, como poderia me ajudar? – Disse em deboche. – Aliás, por que se importa tanto comigo?

Pisquei os olhos demonstrando meu nervosismo. Não gosto dessa frase.

– Nunca mais coloco meus pés nesse local, já não há nada que eu possa fazer aqui. Espero que apodreça dentro dessa maldita cela por anos e que comece a ter culpa pelas atrocidades que cometeu. Você não merece ter paz! – Disse gritando.

Loki arregalou os olhos por alguns instantes. Minha reação o deixou surpreso e a mim também. Eu não costumo gritar a muito tempo.

O fogo da ira queimou em seus olhos verdes e seu rosto se contorceu demonstrando o quanto estava descontrolado. Meu coração gelou naquele momento. Tenho certeza que se ele estivesse fora da cela eu estaria morta nesse mesmo momento.

– Infelizmente você não poderá me ver apodrecendo aqui por ser uma maldita midgardiana. É quase como um pequeno mosquito que não vive muito tempo. – Sua risada foi alta e medonha fazendo todo meu corpo se arrepiar de medo.

Ele não podia ver o quanto aquilo me atingiu. Saber que minha vida é breve sempre me deixou caducando por muito tempo. Minha mãe sempre ria e me repreendia por manter minha mente no futuro e sempre com as malditas palavras ‘’e se… ’’ na boca.

‘’Não devemos pensar muito no futuro, querida. Pense no agora! Suas atitudes a partir deste exato momento farão seu futuro; Deixe as coisas caminharem da forma que deve ser. ’’

– Sua soberba será sua ruína, Loki de Asgard.

Surpreendi a mim mesma com a firmeza e astúcia que coloquei em minha voz ao dizer isso para Loki. Seus olhos demonstraram um misto de raiva, surpresa e dor? Será que cutuquei a ferida desse maldito gafanhoto?

Olhei uma última vez para ele e levantei a sobrancelha demonstrando toda a minha decepção e desprezo. Segui marchando para fora do corredor de celas. Uma decisão tomada ardendo em meu peito.

O sinal da aula bateu fazendo os alunos da sala pularem da cadeira. Saíram da sala rindo e conversando alto. Peguei minha bolsa e coloquei os fones de ouvido; Mais um dia rotineiro do terceiro ano do ensino médio.

Tentei me dispersar dos alunos que faziam tumulto na porta das salas para conversar sobre o baile de inverno. O que é totalmente irrelevante pra mim, afinal, eu não sou muito de festas, gosto mesmo é de ficar em casa estudando e vendo as estrelas com o telescópio que ganhei de aniversário no ano passado.

– Diana! – Gritou Luna minha melhor amiga. – Me espera.

Revirei os olhos e bufei tentando andar mais rápido. Ela viria com essas conversas de baile e sobre irmos juntas. Não queria fazer isso, e Luna sempre me obrigava a fazer coisas das quais eu não queria, o que me irritava demais.

Luna é uma ótima amiga, porém quando não quer fazer algo sozinha, me mete em cada coisa que é meio difícil me desvencilhar.

– Ei! Não vai me esperar não? – Disse quase pulando em cima de mim. Me virei para ela. – O que houve?

– Não houve nada, apenas não estou muito animada para qualquer coisa hoje. – Enfatizei para que ela não me arrastasse pra alguma loucura.

– Você está muito esquisita. Não costuma ficar desanimada por quase nada. – Me olhou de forma acusadora.

– Não há nada, Luna. – Disse bufando e continuando a andar enquanto ela me seguia.

– Aliás, preciso te contar algo…

Olhei para ela dando a entender que era para que ela continuasse.

– Fui convidada para o baile. – Sua excitação quase palpável. – E você também.

É o que? Então quer dizer que por algum milagre eu tinha sido convidada? Não consegui esconder a risada.

– Como é que é? Está de brincadeira comigo não é mesmo?

– É verdade, Diana. Você foi convidada e eu também, e nós vamos!

– Não, eu não vou. Terá Lua de Sangue no dia do baile e quero tirar fotos para encher meu quarto com elas, que droga, por que nunca posso fazer o que eu quero?

– Eu disse que aconteceu alguma coisa, Diana e você não quer me contar. Não sou mais sua melhor amiga? – Disse levantando as sobrancelhas.

Balancei a cabeça em direção à porta da escola e saímos de lá. Decidi que deveria contar para Luna logo o que estava acontecendo que me deixara tão aérea o dia inteiro. Paramos em uma sorveteria ali perto e comecei a falar:

– Briguei com meus pais pelo fato de estarem com os narizes enfiado em suas pesquisas quase o mês todo sem me dar a mínima atenção, e quando eu pedi para ir à praia observar uma chuva de meteoros que teria, eles não deixaram porque iria sozinha e seria perigoso, blá blá blá. Mas não querem mais me acompanhar nesses tipos de coisas, e então me aborreci falando que preferia ficar sozinha a aguentar os dois com essa pesquisa maldita. Já sabe o esporro que ouvi, não é mesmo?

– Imagino… – Disse Luna como se estivesse dizendo ‘’sinto muito’’. – Podemos ir à praia se quiser, chamo alguns amigos e você não vai sozinha.

– Não, perdi a vontade. – Dei de ombros pegando um pouco do meu sorvete favorito e saboreando. – Podemos mudar de assunto?

– Claro! Aliás, você nem quis saber por quem foi convidada, seu desânimo está me matando aos poucos. – Luna era a maior ‘’Drama Queen’’ que já vi na vida.

– Tudo bem, fala logo quem foi o corajoso. – Disse arrancando risadas de Luna.

– Bom, ele enviou uma carta através do correio elegante da escola, e eu suponho que o nome dele não seja apenas ‘’T’’. – Ela disse segurando um bilhete rosa nas mãos, a curiosidade falou mais alto e o puxei das mãos de Luna.

‘’Duvida da luz dos astros,

De que o sol tenha calor,

Duvida até da verdade,

Mas confia em meu amor.

Há mais perigo em teus olhos do que em vinte espadas, Diana e é por isso que não tive a coragem de estar em sua presença para lhe fazer este convite. De alguma forma fiquei sabendo que gostas de Shakespeare e a felicidade me tomou, pois acabei de crer que temos algo em comum.

Se me permitir, quero ter a honra de conduzi-la ao baile de inverno.

 Uma garota não pode perder uma data tão especial como essa em seu último ano.

Se decidir aceitar meu convite, peço que me encontre atrás da escola perto da fonte.

Atenciosamente, T. ‘’

Minha boca abriu-se em um grande ‘’O” e Luna fez uma cara de malícia do tipo: ‘’Sabia que iria gostar.’’

Como aquele menino descobriu que eu gostava de Shakespeare e recitou uma de suas frases que era minha favorita? Sinceramente, pode ser clichê tudo isso, mas para uma garota com dezessete anos essa é a maior declaração de todas.

E então você deve imaginar o que aconteceu, não é? O fenômeno Lua de Sangue poderia esperar e como uma garotinha inocente do ensino médio eu fui para o baile e conheci meu admirador secreto, Senhor T.

Pisquei freneticamente os olhos tentando voltar à realidade. Não deveria estar me lembrando de coisas como aquela que há muito tempo eu decidi guardá-las em meu ‘’baú’’ de coisas que deveriam ser esquecidas, pois a frustração fazia parte de todas aquelas lembranças.

Cheguei em meu quarto e me joguei na cama tentando controlar a enxurrada de lembranças daquela noite e o resto dos dias em que passei ao lado do Senhor T. Nada do que ele me fez sentir, ou fazer, me deixariam feliz ou com nostalgia. Só de lembrar seu nome a ira tomava conta. Minha tolice de adolescência me envergonha.

Levantei atordoada e tomei alguns goles do hidromel que continha em meu quarto. Essa bebida de Asgard é muito forte,. Minhas lembranças encheram minha mente novamente.

Estávamos eu e ele na praia deitados em cima do capô de seu carro, olhando as estrelas. Não fazia ideia de como aceitar um simples convite para o baile mudaria minha vida e planos.

Virei meu rosto e encontrei o garoto que fazia meu coração bater mais rápido que as asas de um colibri. Ele mantinha um sorriso sacana nos lábios porque sabia que eu o estava admirando. Na verdade não tenho vergonha de fazer isso, e dizer o quanto ele é bonito e especial. Devemos aproveitar as coisas enquanto temos.

– O que foi? – Disse ele rindo.

– Nada, apenas admirando a paisagem. – Disse zombando.

– Deveria estar olhando para as estrelas. – Disse se virando para mim e abrindo mais o sorriso.

– Acho que seus olhos são mais bonitos. – Ri alto e meu rosto ficou extremamente vermelho, suponho.

Ele riu alto e se aproximou de mim me roubando um beijo de tirar o fôlego, encostou sua testa na minha e sorriu. O tempo poderia congelar nesse momento e eu seria eternamente grata.

Sentamos abraçados ainda olhando para o céu. Meu namorado estava inquieto, e eu não me senti confortável com isso. Era pra ser uma noite tranquila observando as estrelas.

– O que houve? – Disse rapidamente, senti seu corpo ficar meio rígido. É óbvio que há algo de errado.

– Diana, posso te fazer uma pergunta?

– Por que sempre responde minhas perguntas com outra pergunta? – Disse impaciente.

– Por favor… – Disse suplicante.

– Tudo bem!

– Por que se importa tanto comigo? – Disse com um tom doloroso na voz.

Virei-me rapidamente para ele estranhando sua pergunta. Por que ele estava tão intrigado com isso? Ele deveria saber o motivo de me importar com ele.

– Por que quer saber isso? – Disse rindo.

– Por favor, responde-me isso. Por que se importa tanto? – Disse demonstrando um tom de raiva na voz.

Peguei em seu rosto fazendo com que olhasse em meus olhos, e com a outra mão acariciei seus cabelos ruivos.

– Você me tirou da rotina, e de alguma forma mudou minha monótona vida. Me arranca sorrisos e suspiros quase sempre. Quer mais algum motivo para que eu me importe?

Coloquei as mãos no rosto tentando de forma vã afugentar as malditas lembranças. A minha raiva e frustração com Loki fez com que elas se libertassem de meu baú e começassem a voar em volta da minha cabeça como uma mosca chata. Eu realmente preciso parar de pensar nisso.

Um, dois, três goles de hidromel, e minha mente foi tomada em um tipo de névoa.

Joguei o copo de ouro maciço contra a parede causando um barulho que me fez dar um leve sobressalto.

Estou ficando maluca… Não posso ter outra crise. Duas em três anos de paz… Respire Diana.

Sentei-me no chão colocando a cabeça entre os joelhos. Respirei fundo. Comecei a cantarolar a música favorita de minha mãe que um dia tornou-se também a minha. Tentei lembrar de coisas boas, como a sensação de achar uma constelação nova, ver uma chuva de meteoros e tirar fotos lindas da lua.

Enquanto pensava nisso, minha mente ia clareando e o peso em meus ombros se esvaindo. A ideia que tive logo cedo se mantinha forte em meus pensamentos.

Se ficasse mais tempo em Asgard acabaria enlouquecendo, e essa é a última coisa que quero. Na verdade o que mais anseio agora é voltar para casa e me livrar desses vestidos extravagantes e de jantares com muitas pessoas ao meu redor. Preciso de minha rotina de volta, e quase tudo que faço fora dela me amedronta.

Levantei-me do chão rapidamente, e segui até a porta. A abri respirando fundo. Tomei coragem para descer as escadas. Minha decisão estava concreta, e seria extremamente difícil me fazer voltar atrás.

Negociaria com Odin minha volta à Midgard. O convenceria de que não tenho intenção alguma de retornar à Asgard, afinal não há mais nada aqui para mim. Loki deixou bem claro isso quando debochou, até mesmo sem saber, de meus planos e há também o fato de que aquele prisioneiro não é minha responsabilidade.

E a segunda chance que eu achava que ele merecia? Eu deixaria essa criatura desprezível onde deveria estar. Com toda certeza ele deve ter tido muitas chances de fazer o que era certo, e desprezava aquilo. Não posso ajudar alguém que não me concede o aval para isso. Não lido bem com pessoas teimosas, afinal eu sou uma delas.

Desci as escadas de meu quarto correndo, e fui em direção à sala do trono.

Karol

Jovem com alma de criança. Cabeça nas estrelas, pés no chão e olhos no céu. Escritora amadora nas horas vagas e sonhadora em tempo integral.