Redenção – Chão frio – 43

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Já se passaram algumas semanas desde que havia chegado em Asgard. Aquela noite em que briguei com Loki não saía de minha cabeça. Assim que voltei para o quarto ele já não se encontrava mais lá, e meu coração parecia pesado assim como minha cabeça.

Revirei-me no lençol fino de minha cama. Não conseguia dormir porque, afinal, todas as vezes que fechava meus olhos, me lembrava que saí daquele quarto e Loki não disse uma só palavra para me impedir. Parecia que eu havia nascido para dar errado em qualquer área da minha vida.

O fogo crepitava em minha lareira aquecendo o quarto. O silêncio, hoje, me incomodava. Estava com uma enlouquecedora vontade de me levantar e mudar as coisas com minhas próprias mãos, resolver as coisas com o trapaceiro, recuperar minhas memórias e fazer de Asgard um lar para mim. Não me sentia bem na Terra e agora não me sentia bem aqui, sinceramente não sabia o que fazer para melhorar pelo menos um pouco minha vida.

Suspirei e me levantei da cama. O livro sobre as histórias do planeta estava depositado na pequena mesinha de mogno. Peguei ele e o abri na parte que estava marcada, ainda era a história de Yves, o gigante de gelo, que tanto me intrigou com suas façanhas.

Devido essa semana turbulenta e meu isolamento dentro do quarto, me concentrei em achar alguma pista dentro daquele livro, no entanto nada fazia sentido. Não havia nada que revelasse de onde eu vim e quem eram meus verdadeiros pais. Passei dias tentando entender e cheguei a uma conclusão de que se eu viajei em uma nave e acabei na Terra era porque alguém me enviou.

Cheguei a pensar até que não me queriam, que eu pudesse ser algum tipo de aberração renegada. Eu sei, pode até soar dramático, mas… e se foi isso mesmo? E se me enviaram para a Terra porque eu sou algum tipo de Gigante de Gelo que poderia fazer mal a alguém, ou que não pudesse ser controlado?

Um incômodo me fez comprimir os lábios, minha testa se enrugou. Coloquei a mão em minha nuca. A dor aumentou um pouquinho. Segurei com a outra mão livre na poltrona, pois havia sentido uma leve vertigem. Fechei os olhos e respirei fundo tentando me concentrar, aquilo vinha acontecendo algumas vezes e estava começando a ficar preocupada.

Puxei a poltrona e me sentei nela. Encostei a cabeça no tecido macio e fechei os olhos. Um pequeno sussurro fez os pelos de meus braços e nuca se arrepiarem.

‘’Entendo porquê escolheu ela, Loki. Vejo algo de diferente nela. Muito diferente.’’

‘’Não se esqueça que há algo de especial em você, faça de tudo para descobrir o que é. Creio que nos veremos novamente.’’

Olhei ao meu redor, parecia que alguém falava comigo enquanto eu estava de olhos fechados. Mais uma vez a pontada me fez arfar. Levei minha mão até a testa e pressionei em um movimento inconsciente como se pudesse afugentar a dor. Fechei os olhos e imagens pintaram minha mente. Era uma casa feita de… madeira. Olhos dourados me fitavam e um sorriso doce pintava seu rosto esbranquiçado. Os cabelos estavam trançados e eram de um tom prateado, ela era a mulher mais bonita que eu já havia visto.

‘’Não se esqueça que há algo de especial em você, faça de tudo para descobrir o que é.’’

Ela sussurrou para mim.

‘’Creio que nos veremos novamente.’’

Disse novamente e seu rosto se tornou uma simples névoa em minha mente. Abri meus olhos em desespero. Eu tinha a consciência de que a conhecia de algum lugar… eu sabia seu nome.

Levantei-me da poltrona sentindo um enorme mal estar. Meu estômago embrulhou. Respirei fundo tentando manter minha atenção em um ponto fixo do quarto para a zonzeira passar. Franzi o nariz, um enorme enjoo me fez correr para o banheiro improvisado de meu quarto. Ajoelhei chão e encontrei a pequena latrina que haviam feito após minha chegada e a de Jane em Asgard. Coloquei pra fora todo meu jantar e desabei no chão após o mal estar ter passado.

O piso de madeira do banheiro estava gelado o que me fez suspirar de alívio. Suor gotejava de minha testa e minhas mãos tremiam. Respirei fundo tentando me levantar, mas ainda sem forças só consegui me arrastar para a parede próxima da porta. Recostei minha cabeça ali e fechei os olhos sentindo meu estômago se acalmar depois de toda aquela reviravolta.

– Loki… – sussurrei.

Como eu gostaria que ele estivesse ali.

Senti as palmas de minhas mãos formigarem um pouco. Fechei os olhos e acabei sendo levada pelo sono repentino. Ali, recostada na parede do banheiro e completamente suada e suja eu adormeci.

 

– Eu preciso saber o que ela tem! – uma voz rugiu próximo a mim.

Franzi o cenho. Onde estava? O que havia acontecido? Abri meus olhos devagar e logo os fechei por causa da luz fortíssima. Soltei um muxoxo e coloquei uma das mãos sobre os olhos para poder protegê-los.

– Ela acordou! – a voz conhecida disse novamente.

Ele parecia estar aliviado.

Loki? Meu coração retumbou no peito. É ele! É a voz dele. Onde estamos?

Retirei minha mão dos olhos e os abri ainda ressabiada. Estava com medo de abri-los e perceber que estava sonhando e que não era Loki ali ao meu lado. Senti uma mão segurando a minha outra livre, ele apertou de leve.

– Diana? – me chamou em seu sotaque arrastado.

É Loki!

Meu coração gritou.

Olhei para onde vinha a voz e lá estava o meu par de olhos favoritos. As gemas esverdeadas. O conjunto de sobrancelhas expressivas. Sua testa estava franzida e ele exalava preocupação. Observei em volta e percebi que estava em uma das salas de cura. Algumas mulheres andavam de lá para cá arrumando a sala. Porém a que eu estava me parecia a Sala Real de Cura.

Tentei me levantar, mas uma zonzeira me fez encostar novamente assim como as mãos gentis de Loki.

– O que… aconteceu? – perguntei.

– Deite-se! – ele sussurrou para mim.

Loki acariciou meu rosto com seus dedos. Seus olhos clamavam preocupação e então eu me toquei que havia passado mal na noite anterior. Será que eu estava doente? Muito doente?

Coloquei a mão sobre a testa e respirei fundo. Pisquei freneticamente os olhos tentando esconder as lágrimas que já ardiam em meus olhos, eu não deveria chorar na frente dele. Loki não deveria estar aqui.

– O que faz aqui? – perguntei a ele sem olhá-lo.

– Como assim: o que eu faz aqui? Você estava caída no banheiro do quarto suando frio. Seus lábios tremiam. Fiquei desesperado e a trouxe para cá…

– Espera aí! – o interrompi – Você foi até meu quarto?

– Sim…

– Achei que tinha deixado claro na última conversa que…

– Eu estava indo lá justamente para isso, Diana. Para ser sincero com você.

Não pude deixar de desviar de seu olhar. Não consegui manter minha atenção nele. Eu estava sendo ingrata nesse momento. Ele havia ido até lá para ser sincero comigo, para resolver as coisas e eu ergui meu dedo e o apontei em seu nariz.

– Eu…

– Senhorita Diana. – Uma curandeira veio sorridente – Fico feliz que tenha acordado.

– Obrigada! – Sorri para ela – Vocês descobriram o que aconteceu?

A mulher sorriu carinhosamente para mim e olhou para Loki. Ele não havia desviado sua atenção de mim.

– Acreditamos que seja mais uma indisposição acarretada pelo nervosismo. Recomendo que fique em repouso e volte para podermos checar se está tudo bem. – ela disse.

–  Tudo bem. – respondi.

A curandeira se afastou e eu finalmente tentei levantar. Percebi que a zonzeira havia passado. Meus sapatos não estavam abaixo da maca. Olhei para baixo e percebi que estava enrolada no robe da outra noite.

– Ainda é madrugada? – perguntei a Loki.

– Não, já é manhã. As curandeiras lhe deram um chá para que pudesse dormir. Elas disseram que você não tem dormido bem esses dias.

– É, eu sei…

Desci da maca e me desequilibrei um pouco. Em um reflexo me segurei em Loki para poder manter o equilíbrio. Ele me segurou rapidamente. Levantei meus olhos e encontrei seu rosto. Nossos narizes estavam um tanto próximos. Abaixei minha cabeça ainda envergonhada.

Loki rapidamente envolveu minhas pernas em seus braços e me levantou como uma pena. Ainda surpresa segurei em seus ombros. Eu não esperava que ele me levasse em seu colo para o quarto.

– Eu não preciso…

– Pare de ser tão orgulhosa! – ele disse sério – Me deixe cuidar de você.

Ele saiu da sala de cura e me levou para os corredores dourados. Ele tinha um cheiro tão bom e sua pele estava sempre quente. Eu queria muito recostar minha cabeça no ombro dele e me aninhar em seu peito, porém ainda tínhamos assuntos inacabados. Eu não queria mostrar o quanto necessitava dele e o quanto estava com medo de ter adoecido, de ser algo sério.

Respirei fundo e apertei meus braços no pescoço de Loki a fim de aproveitá-lo mais alguns instantes até chegarmos em meu quarto e ter a tão temida conversa que resolveria tudo. Eu não sabia o que esperar a partir de agora, nem mesmo sabia o que aconteceria depois que minhas memórias voltassem. Apenas tinha a certeza de que não queria que Loki escapasse entre meus dedos. Eu o tenho, ele é a única pessoa que tenho agora e não posso… não devo estragar tudo.

Passamos pelos corredores dourados e chegamos até a minha porta. Era chegado o momento. Olhei para o moreno. Seu maxilar estava travado. Fechei os olhos e suspirei: seja o que Odin quiser.

Karol

Jovem com alma de criança. Cabeça nas estrelas, pés no chão e olhos no céu. Escritora amadora nas horas vagas e sonhadora em tempo integral.