Redenção – De volta à monotonia – 28

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A luz do sol batendo na janela de meu antigo quarto me fez relembrar momentos antigos. Momentos em que eu ficava sozinha em minha companhia pensando o que eu faria depois de ter ido embora da casa de meu ex namorado, e é perceptível que estou de volta a mesma situação. Pra onde vou depois de tudo que eu vi? O que vou fazer se nem sei mais quem sou, e quais são meus poderes?

Thor e Frigga me trouxeram de volta à Midgard as escondidas. Haveria um julgamento para mim em Asgard e com certeza eu seria presa para o resto dos meus dias, porém a rainha intercedeu ao meu favor me trazendo de volta. Thor e a mãe forjaram meu assassinato como seu eu tivesse atacado o futuro rei de Asgard e ele se defendeu tirando minha vida. Fiquei um tanto aliviada por saber que eu não teria ninguém ao meu encalço ou querendo minha cabeça.

Os dois quiseram me dar notícias de Loki, mas eu simplesmente neguei e supliquei que me trouxessem de volta para Midgard. O jeito agora é tentar continuar minha monótona vida de professora de Astrofísica na faculdade, e tentar dar uma boa explicação para o reitor pelo meu chá de sumiço e fingir que tudo aquilo não passou de pesadelos esquisitos.

Ainda deitada em minha antiga cama, observei tudo ali e a tristeza começou a me corroer por dentro. Não havia mais vontade de sair e continuar a minha suposta vida normal, pois tantas coisas mudaram. Até eu mudei, tanto fisicamente como mentalmente. Pela segunda vez saio em frangalhos por meter os pés pelas mãos e fazer coisas precipitadas.

Nem Loki e nem meu ex namorado mereciam a atenção e o amor que eu lhes dei. Os dois quebraram meu coração e minha confiança de uma forma que não há como reconstruir. Meu desejo é que o gigante de gelo seja morto ou fique para sempre preso em Asgard e até mesmo que enlouqueça lá dentro, eu fui a última pessoa que quis salvá-lo e agora ele não tem nada.

Puxei meu caderninho verde. Frigga o resgatou para mim se esgueirando pelo palácio e entrando no quarto em que eu estava. Fiquei feliz por ajudar a trazer de volta a rainha de Asgard, mas não me importei em saber como foi sua recepção, apenas perguntei como acabei num dos quartos da pequena cúpula da Bifrost sendo examinada por Frigga, enquanto Thor mantinha o pai ocupado. Heimdall também estava lá e me olhava com seus piedosos olhos dourados.

Frigga me revelou que fui atingida pela Gungnir de Odin quando me soltei. Ele queria me matar ali mesmo, no entanto ela o convenceu de que Thor cuidaria disso como futuro rei. Assim que meu corpo foi levado para um dos quartos de Heimdall, a rainha começou seu pequeno processo de cura. Eu não podia ficar lá muito tempo. Conseguiram me esconder apenas por três dias até que enfim acordei.

Folheei as páginas e observei meus rabiscos. Algumas do palácio. Thor, Sif e Frandall em outra página, entalhados como deuses. Após isso apenas Loki. Tudo começou pelos olhos misteriosos, suas sobrancelhas grossas e angulosas. Depois disso seus lábios e o nariz fino. No começo de tudo eu não o desenhava por completo, somente ia registrando os traços que eu mais gostava nele, afinal, não era tudo que me chamava atenção enquanto a paz reinava entre nós.

Nas páginas a frente consegui captar seu sorriso irônico e as sobrancelhas arqueadas como se estivesse se divertindo as minhas custas. E parecia que ele sempre estava fazendo isso, e foi comprovado nesses últimos dias. A última página que eu havia desenhado captava a essência de Loki no baile. A primeira vez que nos beijamos foi incrivelmente intenso, nada se compararia àquilo. A imagem mostrava ele apoiado na bancada do terraço, algumas lanternas subindo e seu olhar sobre elas como se fizesse um pedido à Frigga. A cota verde e as partes da armadura intactas, apenas acrescentei algumas runas. Seus cabelos pouco abaixo da orelha.

Joguei o caderninho na parede. Eu não deveria estar pensando em Loki e em seus detalhes, eu o odeio. Ele me traiu e me deixou cheia de perguntas sobre o que eu sou ou o que deveria ser. Meu braço esquerdo doeu. Frigga me deu algumas instruções sobre como eu estava. O braço esquerdo quebrado, porém meu processo de cura estava muito mais rápido do que de uma midgardiana comum, então não era algo que deveria me preocupar. Ela disse que o impacto da Gungnir me mataria ou quebraria várias de minhas costelas, porém somente me fez desmaiar.

Thor me trouxe de volta. Pedi a ele que me deixasse onde tudo começou, o prédio abandonado. Felizmente as coisas que eu deixei no prédio ficaram lá, menos meu cobertor de florzinhas, ele ficou em Asgard assim como meu vestido preto favorito. Frigga havia me vestido de uma forma mais simples para que eu voltasse e não tivesse olhares questionadores para com as minhas roupas. A garrafa de vinho no mesmo local. O estabelecimento não parecia tão medonho de dia.

Fiquei surpresa ao ver meu querido carro ainda estacionado, porém pichado e sem a janela da frente e a de trás, o que me deixou muito irritada. Coitado de meus retrovisores, não escaparam das pichações. A rua é um tanto deserta e ainda há algumas histórias de que coisas estranhas aconteciam lá, no entanto parece que alguns vagabundos ainda se arriscam por lá.

Levantei-me da cama e fui até a cozinha à procura de algo para comer. Todas as minhas coisas passaram da validade. Pelo jeito havia ficado dois meses e mais alguns dias sumida, nada que eu devesse me preocupar. O celular consistia em mais de cinquenta ligações do reitor da faculdade e cobranças do cartão de crédito. Várias faturas e cartas típicas de televisões a cabo. O porteiro entrou em estado de choque ao me ver ali, como se eu fosse um fantasma, contudo se conteve e apenas acenou com a cabeça ainda demonstrando medo em seus olhos.

Uma batida na porta fez com que eu pulasse de susto e voltasse para o mundo real. Observei minha cozinha um tanto empoeirada por ficar esse tempo inabitada e sem limpeza. Observei o olho mágico e Roberto, o porteiro, estava lá esperando. Suspirei. Não queria conversar ou responder perguntas sobre meu sumiço. Abri a porta e Roberto deu um pulo de susto, ainda me olhando como se eu fosse algum monstro. Claro que eu não estava apresentável, mas tentei colocar roupas grandes para esconder meus hematomas. No entanto ainda assim, meu rosto não poderia ser coberto.

– Olá Roberto, – dei um sorriso forçado – no que posso te ajudar?

– Ahn… – ele pigarreou – Tem uma carta para a senhora, dona Diana.

Ele me entregou uma carta azul. Pude ver de relance seus dedos um pouco trêmulos enquanto mantinha seus olhos em mim. Suspirei novamente.

– Certo. Obrigada, Roberto.  – Puxei a carta e fechei a porta.

Voltei novamente para a cozinha e repousei a carta no balcão preto. O que seria aquilo? Rasguei a parte colada e não encontrei nada lá dentro. A sacudi para ver se havia algo lá dentro, e nada. Repousei ela em cima do balcão. Observei os cômodos do apartamento, nada ali me fazia sentir em casa. Suspirei e decidi tomar uma ducha para clarear os pensamentos Realmente precisava ligar para o reitor da faculdade.

– Eu… Eu fiquei doente. Tive uma doença que me impediu de ir trabalhar ou até mesmo ligar, precisava ficar em quarentena… – Repeti na frente do espelho. – Mas que droga! É claro que ele não vai acreditar nisso, sua otária.

Qual desculpa eu daria para o Senhor Levi? Não havia uma explicação plausível para meu chá de sumiço, é óbvio que ele não acreditaria que fui sugada por um vértice e fui parar em Asgard, outro planeta e acabei me apaixonando por um maldito gigante de gelo metido a besta.

– Pensa, Diana… Pensa. – Apertei o botão de ligar tentando apagar o número da lista de chamada. – Ah, merda!

A ligação começou a chamar e logo o reitor atendeu o telefone um tanto surpreso:

– Alô?!

– Ah… –  pigarreei – Senhor Levi? Ahn… Oi. – Droga!

– Diana?! – Ele gritou no telefone.

Ai! Meu ouvido!

– Oi! Sim, sou eu… – O que eu estou fazendo? Desligo agora na cara dele ou não?

– É você mesmo? Que irresponsabilidade é essa senhorita Diana? Você simplesmente sumiu, não atendia as ligações e nem respondia aos emails. Até chamamos a polícia para procurar por você e agora depois de dois meses desaparecida você me liga sem…

– Polícia?! – Gritei. Ah não, merda, merda e merda. Por que colocar a polícia no meio?

– Claro! Achamos que você estivesse morta dentro do apartamento ou sabe lá Deus o que…

Soltei uma risada baixa pelo nariz e o Sr. Levi parou de falar rapidamente. Suspirei, ele ia ter realmente um chilique daqueles se eu não desse uma explicação.

– Ahhhh, Sr. Levi me perdoe primeiramente…

– Perdoar, garota? Você sabe que eu deveria lhe despedir. Só te dei essa oportunidade por causa de sua mãe, que Deus a tenha… – Ele começou a dar chilique.

Sr. Levi era o melhor amigo de minha mãe quando ela fazia faculdade de física. Depois que os dois se formaram, Levi sumiu e eles não mantiveram mais contato até eu fazer dezesseis anos. Os dois se reencontravam algumas vezes e quando meus pais morreram e eu vim para New York entrei para a faculdade que o mesmo dirigia, e me tornei professora lá graças a ele.

– Eu sei… Me perdoe, mas eu acabei tirando umas férias… Na verdade eu fugi. Fugi com meu… Ahn… Um amigo.

– Amigo? Diana… Você está namorando com alguém e fugiu me deixando na mão com o bando de loucos que são seus alunos?

Suspirei… Onde fui me meter? Levi é a única pessoa que se importa, pelo menos um pouco, comigo nesse mundo após meu ex namorado. Nosso término fora definitivo e fico feliz por não ter mais nenhum contato.

– Levi… Sim, eu me apaixonei e acabei fugindo, mas não deu certo e agora eu estou em frangalhos jogada na cama desejando um prato enorme de brigadeiro e querendo matar lentamente o maldito que me deu um chute, e daí? Eu precisava ligar para te avisar que segunda-feira estarei de volta, prepare os alunos. – Soltei de uma vez, e percebi que não era tudo mentira.

– Querida, eu sinto muito, mas não posso ficar feliz ou agir como se nada tivesse acontecido. Você sumiu por dois meses. E como assim prepare os alunos? Acha que está falando com quem, mulher?…

– Mas agora estou aqui e tudo tem que voltar ao normal! – O interrompi. Não sei se estou tentando convencer a mim mesma ou convencer Levi.

Depois de uma longa conversa com o reitor da faculdade e muitos pedidos de desculpas, consegui convencê-lo de que estaria lá na segunda-feira pontualmente e que não sumiria mais. Sentada na sala tentando me acostumar novamente a assistir televisão, uma reportagem me chamou a atenção.

”Jane Foster, a astrofísica de vinte e cinco anos virá essa semana ao nosso programa para falar sobre o prêmio Nobel que recebeu no sábado passado…”

– Pera aí! Jane Foster! – Dei um pulo do sofá.

Uma pessoa que me entenderia muito bem nesse momento seria ela. A garota foi levada até Asgard e causou problemas, por mais que fossem menores que os meus, ela causou. Jane sabe como é se apaixonar por um Asgardiano e ser abandonada, viver sem explicações e até mesmo sem acreditar no que viveu com Thor nos nove reinos.

– Eu preciso… Preciso muito falar você, Jane Foster. – Sussurrei para a foto sorridente de Jane na tv.

Pov Autora…

Após toda a loucura de um dia normal em Midgard, Diana decidiu enfim se deitar e tentar dormir. Sua casa na completa escuridão. Apenas o abajur do quarto ligado para tentar afugentar os traiçoeiros pesadelos que a levavam de volta a noite em que quis matar Loki. Eles variavam entre as gemas esmeraldas dele a fitando com uma espécie de carinho em momentos anteriores, porém Diana se lembrava de como ele a olhou naquela noite, como se ela fosse um nada.

Enquanto isso, sua cozinha escura e silenciosa. Uma carta azul em cima do balcão e um pequeno ponto vermelho no chão chamaram a atenção da humilde autora que vos fala. O pontinho vermelho piscava freneticamente embaixo de uma cadeira. Ele era um tanto minusculo e imperceptível à luz do dia, mas não para mim nesse momento já que a noite cai sobre Midgard.

O que seria isso, minhas caras leitoras? Meus olhos seguiram do pontinho vermelho até a carta em cima do balcão. Aquilo seria um… Oh meu Deus… Há algo escrito dentro da carta que Diana não se deu conta ao abrir, afinal, seus devaneios e pensamentos a deixaram um tanto avoada nesse seu primeiro dia de volta à Midgard.

Como sou extremamente curiosa decidi dar uma pequena espiada na carta, mas lhes garanto, caras leitoras, não é uma novidade boa, porque tudo o que vem de fora para Diana O’connor geralmente não é algo que cheire muito bem.

Ao dar uma espiada na carta quase me estatelei no chão… Há algo escrito nela, e vocês nem imaginam o que é.

”Hail…”

A luz do corredor de repente se acendeu… Lá vem Diana. Eu preciso ir agora, mas acho que vocês devem saber o que vai acontecer.

 

Karol

Jovem com alma de criança. Cabeça nas estrelas, pés no chão e olhos no céu. Escritora amadora nas horas vagas e sonhadora em tempo integral.