Redenção – Na vida e na morte – 49

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Google+ 0 Filament.io 0 Flares ×

 

Abri os olhos assustada. Puxei o ar em desespero como se tivesse esquecido como era a sensação de ter oxigênio passando entre minhas vias respiratórias. Olhei ao redor. Estava amarrada a uma enorme pilastra na parte mais alta da sala do trono. Meus pulsos doíam. Puxei meus braços e barulhos de correntes me fizeram olhar para os meus pés que também se encontravam presos. Barulho de passos fizeram meus pelos se eriçarem.

Hela andava de um lado para o outro próxima a mim. Noite passada todos os convidados possíveis se encontravam desmaiados e eu já não os via mais. A deusa da morte os deteu com apenas alguns tremores e eu temi o que ela poderia fazer se eu me voltasse contra ela e tentasse impedir seus planos.

A mulher esperava o salão se encher. De algum modo só as mulheres de toda Asgard se levantaram e estavam agora no recinto como se tivessem sido chamadas e incumbidas de estarem na grande sala do Rei.

A deusa parou de andar e olhou para as mulheres que estavam ali. Elas pareciam petrificadas. Soldados e mais soldados esperando as ordens de sua senhora. Percebi um satisfatório sorriso nos lábios de Hela e então ela se aproximou das escadas pronta para fazer seu pronunciamento.

– Minhas guerreiras! – ela disse em uma voz tão alta quanto um retumbar de trovão – Eu as desejo em meu exército, mas para isso… – Ela se interrompeu e passou as unhas pelos lábios – vocês serão provadas.

Todas elas ficaram em silêncio, mas pude perceber que seus olhos brilhavam de desejo. Como Hela estava fazendo aquilo? Como aquelas mulheres, guerreiras em sua maioria, se venderam? A mulher puxou de seu pescoço o colar de Freyja e o examinou, parecia satisfeita como se tivesse o maior dos poderes nas mãos. Ela ergueu o colar e disse:

– Com esse colar eu posso mostrar-lhes o que o amor é de verdade. Esse sentimento que todos dizem e ensinam para suas crianças é algo mentiroso e irreal. Eu quero perguntar a vocês, minhas guerreiras: vocês estariam dispostas a abrir os olhos para a verdade e se desprender daquilo que chamam de amor para conquistar não somente Asgard como todos os nove reinos? – Hela bradou.

Percebi que as mulheres não expressavam nada além de brilhos esperançosos em seus olhos. Hela parecia tê-las enfeitiçado através de suas palavras e do colar. Franzi o cenho e olhei para a deusa, repassei suas palavras em minha mente e tentei ligar seus ideias. Como ela conquistaria Asgard e os outros reinos sem lutar contra seus verdadeiros senhores?

Meu cérebro deu um estalo eu me lembrei de uma história que Loki havia me contado. Era algo sobre os fins dos tempos e que uma só nação sobreviveria para reinar sobre os nove reinos. Engoli em seco. A deusa da morte queria colocar um fim no reinado de Thor e toda a sua família. Lembrei-me de Astrid dizendo o quanto Hela havia mergulhado na ira, no ódio e principalmente no desejo insaciável de vingança.

Enquanto minha suposta mãe encorajava as mulheres a se aliarem a ela observei tudo em silêncio a fim de encontrar uma saída para aquilo e criar uma estratégia. Onde estaria Loki, Thor e… todos os homens de Asgard? Arquejei ao perceber que as mulheres que comemoravam na noite passada o aniversário do deus do trovão estavam ali como soldados. Centenas de mulheres asgardianas se erguiam como aliadas de Hela. Refleti sobre aquilo até um brilho de cabelos ruivos me chamar atenção.

Minha visão se embaçou ao perceber que Allya estava na linha de frente olhando para Hela como se fosse sua salvadora, sua senhora. Sua expressão era de admiração e aquilo me fez tentar levantar. Quando puxei as correntes o barulho fez a deusa se calar e seus olhos se voltaram pra mim. Ela abriu um sorriso que deveria parecer amoroso, mas só me fez estremecer e pensar na destruição que logo ocorreria.

– Vejam! Minha filha, minha herdeira acordou! – ela bradou e as mulheres cochichavam entre si ao me fitar de cima a baixo.

– Por que ela está como uma prisioneira? – uma asgardiana loira com uma beleza forte questionou.

Hela se aproximou de mim e passou seus dedos gélidos pelo meu rosto até chegar nas mechas cor de chocolate de meus cabelos. Ela os ajeitou como uma mãe amorosa faria e então soltou uma risada um tanto maquiavélica. Uma lágrima escorreu sorrateiramente pela maçã de meu rosto.

– Diana está aqui para provar a vocês o que o amor faz. Essas correntes que a tornam uma prisioneira não são nada mais do que seus sentimentos. O amor que ela diz tanto sentir a amarra, esfola os pulsos e os calcanhares para que ela lembre que não é livre como pensa que é. – ela gesticulou com a mão enquanto falava.

Ao terminar, deu um estalo e as correntes queimaram meus pulsos e calcanhares. Soltei um uivo de dor e me remexi. Olhei em desespero para as mulheres esperando que fizessem alguma coisa sobre aquilo, porém suas expressões mostravam que elas sentiam nojo de mim. Onde estaria Loki? Com um outro estalo a dor passou e eu recostei minha cabeça na grande pilastra de ouro. Suor escorria de minha testa. Olhei para meus pulsos e eles pareciam estar na carne viva. Reprimi um soluço. Eu não demonstraria minha fraqueza.

– E como prova de que o amor é uma ruína, tanto para vocês quanto para ela. – Hela apontou para mim com seu dedo ossudo – Diana será a primeira a provar a si mesma de que merece estar nesse exército e principalmente de ser minha herdeira na nova era que criaremos. – ela olhou para mim e abriu um sorriso diabólico. – Tragam o prisioneiro!

Algumas mulheres da linha de frente se ausentaram e eu estremeci. Prisioneiro? Me remexi novamente e meus pulsos e calcanhares arderam me fazendo gritar tamanha a dor. Parecia que eles estavam dilacerados. Tudo o que eu sentia era dor e desespero. Eu iria morrer ali, não teria chance de me salvar e muito menos salvar Loki e principalmente… principalmente o amor que crescia dentro de mim.

– Como sou generosa, minha querida filha, eu vou lhe dar um presente. Suas memórias a muito tempo foram perdidas por culpa… bem, você perdeu tudo por causa do amor e sabe que isso é verdade. Então, eu decidi que lhe devolverei as memórias assim que reconhecer que está caminhando a passos largos para a ruína. – Hela acariciou meu rosto com as unhas pontiagudas.

As mulheres voltaram segurando um Loki furioso pelos braços. Ele estava com as mãos presas em um tubo dourado. Sua boca também estava amordaçada e sangue escorria de sua testa. A cota verde não estava sobre seu corpo. A camisa e as calças rasgadas lhe davam um ar impotente, mas o ódio elétrico em seus olhos me fazia crer que ele estava prestes a dizimar milhares com as próprias mãos. Tentei me levantar, mas o ardor em minhas queimaduras apenas aumentou fazendo meus pés vacilarem.

Encontrei os olhos de Loki em desespero. Ele parou bruscamente e as mulheres tentaram arrastá-lo pelos braços novamente. O deus da trapaça me olhava intensamente procurando em mim rastros de machucados. Seus olhos se arregalaram ao ver meus pulsos e calcanhares. De repente sua linha de atenção se mudou para Hela e era como se ele a estivesse matando com o olhar.

Loki surpreendeu a todos ao se sacudir bruscamente contra as mulheres e como um touro atrás do montador ele lutou. Mais mulheres vieram para tentar contê-lo, mas ele parecia um espírito de uma tempestade furiosa. As guerreiras caíram e Loki ainda estava com os braços presos, porém parecia indestrutível. Ele se aproximou do pé das escadarias e fulminou Hela com os olhos. Quando pensou que conseguiria subir, um estrondo fez com que ele caísse.

Gritei em desespero ao ver que Sif havia lançado um machado no ombro esquerdo de Loki. Ele uivou de dor e a mordaça caiu de seus lábios. Sangue pintava o chão da sala do trono. Sif se aproximou devagar. As mulheres caídas tentavam ajudar umas as outras desnorteadas. A guerreira arrancou impiedosamente o machado do ombro de Loki e ele bateu os joelhos no chão. Apesar de toda a dor e o sangue que gotejava por todo lado o deus da trapaça não abaixou a cabeça e cuspiu no primeiro degrau da escadaria.

Hela soltou uma risada alta e assentiu para Sif. Ela pegou Loki pelo braço e o arrastou pelo chão deixando uma marca de sangue por onde ia. Lágrimas saltaram de meus olhos. Aquilo tudo parecia um pesadelo, eu não me sentia uma participante real daquela cena, minha mente estava envolta em uma espécie de névoa. Eu não consegui reagir ao que aconteceu ali. Engoli o bolo em minha garganta tentando espantar o choro.

– Isso é lindo. O cavalheiro tentando proteger sua senhora. Ela está muito bem, Loki. Olhe só! As correntes que a amarram são apenas consequências de sua escolha. – Hela colocou o dedo no queixo e pensou – Eu sei que quer vê-la liberta e logo estará. Você irá me ajudar com isso.

A deusa estalou os dedos e uma espécie de pilastra apareceu perto das escadarias. Sem precisar dizer nada, Sif pareceu entender os propósitos e arrastou Loki para perto. Haviam grilhões grossos e dourados. Ela os prendeu nas pernas de meu amado e assim que se levantou para prender suas mãos ele reagiu. Loki tentou de todas as formas usar o tubo dourado como uma arma, porém a guerreira lhe desferiu socos no rosto. Mais lágrimas caíram de meus olhos por presenciar toda aquela cena.

Loki perdeu o equilíbrio com os impactos. Sif conseguiu rapidamente algemá-lo à pilastra e se afastou. O deus da trapaça cuspiu sangue e virou o rosto à procura de algo. Seus olhos encontraram os meus. Ele tentava de todas as formas esconder a dor que estava sentindo. Desejei desesperadamente que eu estivesse em seu lugar, ele não merecia o que estava passando.

– Por quê? – sussurrei para Hela.

Sua atenção se voltou para mim. Ela ainda sorria como se o sangue e toda a cena de tortura lhe renovasse o espírito.

– Você não acha que todo esse espetáculo merece uma boa plateia? – Hela estalou os dedos e ao meu lado Frigga apareceu amarrada a uma pilastra.

Ela se remexeu como se estivesse acordando. Levantou a cabeça e encontrou meu olhar desesperado. De repente a deusa parecia ter entendido o que acontecia ali. Frigga olhou ao redor e encontrou Loki amarrado. Sangue escorria de seu rosto e de seu ombro. Ela reprimiu um arquejo e olhou novamente para mim. Dessa vez sua expressão era de puro desespero e ódio, ela compartilhava de meus sentimentos.

– Frigga! É um prazer recebê-la aqui. – Hela fez uma mesura irônica para a rainha de Asgard.

– Hela… – A deusa loira sussurrou em um tom enojado.

– Minha querida, eu quase me esqueci de você, mas claro que não poderia me esquecer de inseri-la nesse lindo espetáculo. Você estava certa ao dizer para minha filha que ela passaria por provações… estava agora mesmo dizendo isso a ela.

– O que você quer de Diana, Hela? – Frigga ignorou as palavras da deusa e disse entre dentes.

A deusa loira estava acorrentada, mas a forma que olhava para sua inimiga fez os pelos de meu braço se eriçarem. Frigga era doce, paciente e uma mãe excepcional, mas com apenas um olhar ela parecia mais ameaçadora do que uma cobra cascavél. Eu podia sentir o ódio que emanava dela em ondas de calor. Suas mãos tremiam levemente. Ela voltou os olhos para Loki e se manteve assim por alguns segundos. Eles pareciam estar se comunicando.

– Minha filha será provada como uma espada passando pela forja. Eu sei que ela se sairá muito bem nisso, só preciso que Diana deseje ser liberta dessas malditas amarras que ela chama de amor. – Hela disse que olhou para mim.

Ao se aproximar de mim, a deusa da morte soltou um suspiro como se tivesse pena de mim. Suas mãos encontraram novamente o meu rosto e ela o acariciou. Me afastei bruscamente e cuspi no chão aos seus pés como Loki havia feito. Eu queria mostrar a ela que não tinha o direito de me chamar de filha e muito menos me ter por perto enquanto machucava as pessoas que eu amava.

– Mesmo que você não queira isso, Diana, eu farei por você. Eu preciso salvá-la de si mesmo, minha querida. Isso que você sente só a deixa cada vez mais fraca como um dia me deixou. Se eu conhecesse antes o que conheço agora, ninguém teria te tirado de mim, nós não precisaríamos passar por isso agora. Então, vamos consertar as coisas, sim?

Hela se virou e assentiu para Sif. A mulher sumiu por alguns instantes e logo voltou. Ela se aproximou de Loki e rasgou a camisa preta na parte das costas. O som do tecido destruído me fez piscar os olhos desesperadamente. O que ela estava fazendo? Levantei-me em um pulo ignorando a dor lancinante onde havia sido queimada. As costas nuas de Loki arquearam quando Sif passou em sua pele branca um chicote negro.

– Não! – Gritei para Hela – Se machucá-lo… eu vou matá-la! Eu não me importo que seja minha mãe! Arrancarei seu coração do peito se derramar mais uma gota de sangue dele! – Rugi.

Olhei para Loki em desespero. Ele havia virado o rosto para a pilastra. Sua testa encostava ali. O deus da trapaça sabia o que viria logo após aquilo, eu estava presa, Frigga também e suas mãos atadas. Como iríamos nos livrar daquilo? Hela fez um sinal e Sif estalou o chicote nas costas de meu amado. As pernas de Loki estremeceram com o impacto, ele não emitiu som algum. Sangue carmesim verteu de suas costas. Frigga soltou um grito agonizante. Meus pelos se arrepiaram, minhas costas arderam como se eu estivesse apanhando junto com ele.

– Pare! – Gritei. – Me coloque no lugar dele, é a mim que você quer! – Sacudi-me fazendo barulho com os grilhões – Eu que devo ser provada…

– Você está sendo provada, querida. – Hela me interrompeu – Você pode protegê-lo se fizer o que eu peço.

Mais uma vez o barulho do chicote me fez estremecer. Percebi que quando Sif trouxe a mão de volta, pedacinhos da carne de Loki vieram juntos dos minúsculos pregos cravejados no chicote. Frigga gritou novamente. O deus da trapaça tentou se segurar nas algemas da pilastra, mas suas pernas vacilaram outra vez.

– Você me quer ao seu lado para acabar com Asgard, matar as pessoas que eu amo. Eu não vou me entregar a isso.

– Não! Eu quero que você saiba que o amor vai te destruir. Loki tem destruído você desde que se conheceram. Pense bem! Você foi mantida prisioneira, levada para outros planetas, quase morreu diversas vezes e teve suas memórias capturadas por culpa dele.

Sif chicoteou as costas de Loki mais uma vez. Eu gritei desesperada. Puxei as algemas que me prendiam à pilastra. Mais uma vez senti o ardor da queimadura em meus pulsos. Sif chicoteava o deus da trapaça sem parar e seu sangue pintava o chão. Ele estava sofrendo por mim, ele iria morrer se eu continuasse presa sem fazer nada.

Hela se aproximou e tocou no colar. Minha cabeça doeu como se a estivessem esmagando sem piedade. Gritei novamente. Escutei a voz de Loki amaldiçoando Hela entre gritos. Meus joelhos vacilaram e eu os bati no chão gélido. Prostrei-me, minha testa encostada no piso que reluzia como ouro. Mais uma vez a dor na cabeça me fez gritar. Imagens começaram a aparecer em minha mente. Flashes de minha memória perdida.

– Loki a teria matado em um piscar de olhos quando você o levou para os campos. Lembre-se disso! – Hela disse e as imagens de uma Diana brigando com o deus da trapaça apareceu.

Loki me olhava com ódio e levantou os braços presos no mesmo tubo que ele estava quando entrou na sala. Ele estava me ameaçando. Aquilo era familiar, eu havia passado por aquilo quando cheguei a Asgard e tentei salvá-lo de si mesmo a fim de voltar para a Terra depois de conseguir trazer um pouco de arrependimento em seu coração de pedra.

– Ele a enganou para que pudesse sair de Asgard. Loki queria o colar de Freyja, ele sabia que só você poderia tocá-lo e por isso a sequestrou fazendo com que corresse inúmeros perigos.

Memórias de nossas viagens a outros reinos apareceram embaralhadas em minha mente. Cada corte e machucado queimava em meu corpo como se eu os estivesse revivendo. Gritei ao sentir as queimaduras que Ndhogg havia deixado em mim quando tentamos salvar Freyja em Niflheim.

– Ele se voltou contra você em Niflheim e quase a matou.

As palavras de Hela ativavam as piores lembranças que eu tinha de Loki em minha mente. Lembrei-me de nossa batalha e o quanto eu fiquei machucada após aquilo. Nós dois lutamos bravamente e a cada brandir de espada, cada corte e escoriações que eu me lembrava, meu corpo parecia absorvê-lo e me fazia sentir a dor.

– Loki traiu sua confiança! Ele a entregou para morrer nas mãos de Odin assim que chegaram de meu reino. O amor de sua vida havia jurado que protegeria você, mas lhe entregou nas mãos de quem queria seu sangue e ainda afirmou que a usou como um mero peão…

– Não! Ele fez isso para protegê-la – Frigga interviu. – Nós fizemos isso para protegê-la de Odin, Diana. Loki iria ser executado por você assim que assumiu toda a culpa!

Lembrei-me da cena na Bifrost. Ali eu havia percebido que tinha poderes sobrenaturais. Loki havia traído minha confiança. Minhas veias se encheram de ódio. Abri meus olhos e encontrei o deus da trapaça. Ele ainda estava sendo surrado por Sif. Era por isso que ele não me contava o que estava acontecendo quando eu insistia sobre minhas memórias.

Minhas costas doeram e eu soltei um grito. Lembrei-me da Gungnir batendo em mim enquanto eu corria para matar meu traidor. Loki era um trapaceiro, eu me lembrava disso, me lembrava do ódio que eu havia sentido dele naquele momento e como eu quis acabar com sua vida em questão de segundos.

– Isso, Diana! Lembre-se o quanto ele é um mentiroso. Você foi torturada na Terra por culpa dele. Todos lá sabiam que iria protegê-lo e então a torturaram para dar respostas sobre ele, sobre Asgard. Você só sofreu por eles.

Ao ouvir aquilo senti as correntes elétricas passarem pelo meu corpo. Lembrei-me de Thomas me torturando porque queria saber onde eu estava e mesmo odiando Loki eu o havia protegido, eu havia protegido o amor que eu sentia por ele e minhas memórias foram roubadas, meu corpo fora torturado por semanas a fio.

– Você perdeu a memória, sofreu inúmeras torturas e ainda acabou com uma organização inteira que teria te ajudado a dar um fim em Loki e em todos que causaram somente dor e sofrimento a você.

Lembrei-me dos gritos de todos os simpatizantes e participantes da HYDRA. As pilastras caíam por cima deles, o fogo das bombas incineravam seus corpos, sangue vertia dos tiros que eu havia disparado em favor de Loki. Eu fiz pessoas sofrerem por ele. Thomas tinha morrido por culpa dele.

– Diana, resista a isso! Hela está distorcendo suas memórias, suas razões… – Frigga gritou de dor.

Abri meus olhos e percebi que as algemas também machucavam seus pulsos. Loki estava quase desacordado com sangue vertendo de suas costas. Ao perceber que eu o fitava, o deus da trapaça me dirigiu um olhar com um misto de amor e arrependimento. Franzi o cenho para aquilo. Ele não me amava.

”Sim! Ele a ama, e você o retribui. Não importa o que Hela diga.”

Uma parte de minha mente contrariava tudo o que eu me lembrava e tentava incansavelmente me mostrar os momentos bons, os toques, os beijos e principalmente o amor que emanava de Loki quando ele me olhava.

”Isso tudo é em vão! Ele me destruiu!”

A voz dentro de mim que dizia isso parecia mais com a de Hela, ela falava mais alto e me mostrava as dores, me fazia senti-las em meu corpo como se eu estivesse sendo esmagada pelos pés de Loki enquanto ele sorria com o prazer de me ver destruída.

”Você não pode desistir agora, Diana! Não pode…”

A voz que tentava me fazer resistir àquilo me era familiar, ela se parecia muito com uma mistura entre a minha voz e a de… Freyja.

”O amor é ruína!”

A minha voz e a de Hela gritavam em minha mente. Não conseguia mais resistir às memórias que ela me devolvia. Senti que ela estava certa em me mostrar quem realmente Loki era e principalmente que seu amor não era nada além de destruição, dor e sangue ao meu redor.

As algemas que me aprisionavam caíram. Senti dentro de mim uma batalha sendo travada. A antiga eu lutava por Loki e pelo amor com unhas e dentes. A imposição de Hela e a nova Diana que ela tentava trazer para fora foram ganhando campo. Me levantei do chão e senti como se fosse Anakin sucumbindo ao lado negro da força.

Eu parecia fora de mim. Minhas pernas se mexeram e me aproximei de Hela. Eu tentava incessantemente parar ou me obrigar a correr para Loki e ajudá-lo, mas meus olhos os observavam e eu só tinha pensamentos de ódio e dor. Eu queria esmagar o coração dele com minhas próprias mãos, porém lá no fundo eu escutava os gritos de minha sanidade tentando me impedir.

Estava presa dentro de mim mesma. Não era mais a verdadeira eu que comandava meu corpo e sim a nova criatura que ressurgiu quando as algemas que quebraram. Hela sorriu para mim e segurou em minha mão. Eu sabia o que ela queria que eu fizesse. Assenti para minha senhora e desci as escadas.

Não! Não faça isso! Eu não posso fazer isso!

NÃO!

Gritava para mim mesma sem o total controle de minhas ações. Me sentia como uma espectadora olhando para a Diana que descia as escadas e apertava os punhos com um desejo insano de sangue. Tentei impedir. Forcei-me a sair daquele transe maldito. Eu me parecia cada vez mais com as mulheres de pé que agora me olhavam com expectativa. Me aproximei de Loki e passei a mão por seu rosto.

Ele piscava os olhos devagar tentando se concentrar em mim. O sangue havia se esvaído de seu corpo rápido e por esse motivo se encontrava fraco e trêmulo. Em minha mente as ordens de Hela eram claras. Nós duas parecíamos uma só pessoa. Eu estava fazendo a vontade dela, havia me curvado para seus desejos incessantes de vingança. Lutei veemente enquanto a outra eu andava ao redor de Loki.

Gritei para que parasse. Tentei causar alguma dor em mim mesma para que eu pudesse lembrar-me que não deveria sucumbir às vontades de Hela e o maldito colar que ela segurava com avidez. A deusa da morte tinha sede de sangue, sede de sangue de quem eu amava para finalmente cortar a minha ligação com aquilo que me levava a sanidade.

Uma estaca apareceu em minha mão. As costumeiras estacas de gelo que a Agente 15 criava na Terra. Eu estremeci. Minhas mãos vacilaram e eu virei a estaca para meu próprio peito. Não deixaria que Hela me usasse para matar a pessoa que eu mais amava. Meus dedos queimavam. Minha cabeça doeu novamente e imagens e mais imagens de um Loki que Hela havia criado tomaram minha mente.

Tentei lutar contra aquilo, mas a nova eu virou a estaca ainda tremendo. Eu fazia um esforço enorme para não deixar com que eu mesma fizesse aquilo. Virei meus olhos para Hela. A deusa assentiu para mim e tocou no colar. O rubi brilhou e a voz da morte em minha cabeça disse:

O amor é ruína.

De repente senti como se estivesse atrás de uma parede de vidro vendo o que acontecia. Ainda estava de pé de frente para Loki enquanto olhava para Hela. Gritei desesperada e bati na parede de vidro que me separava de meu corpo. Soquei o muro e meus dedos ficaram ensanguentados. Não conseguia controlar mais a Diana que estava perto de Loki. Ela virou a estaca para o peito do homem e assentiu para Hela.

– O amor é ruína.

Eu sussurrei e logo a estaca que estava em minhas mãos foi enfiada no peito de Loki. O sangue dele pintou minhas mãos de vermelho e a minha sanidade gritava dentro de mim atrás da parede de vidro. Eu estava longe de controlar meu corpo. As algemas de Loki se soltaram e ele caiu no chão. Como um estalo a parede de vidro se quebrou e eu tomei o controle novamente de minhas ações.

Me joguei no chão com ele e o abracei com meu corpo. Gritei em desespero ao perceber o que Hela havia me obrigado a fazer. O brisings controlava as ações de todas as mulheres ali através do amor que elas sentiam. A deusa queria destruir a fonte de minha esperança e amor e isso acabaria quando Loki morresse por minhas mãos. Eu me culparia para sempre.

Envolvi seu rosto com minhas mãos. Ele ainda respirava apesar do sangue verter por seu peito. Minhas lágrimas lavavam seu rosto. Seus olhos inspecionavam os meus, um sorriso leve se abriu em seus lábios e ele ergueu os dedos gélido. Ele acariciou meus lábios.

– Eu prometo… – disse entre os soluços de meu choro – eu prometo que vou consertar isso.

”Shhh…”

A voz de Loki disse em minha mente.

”Está tudo bem!”

– Me perdoe – sussurrei para ele. Beijei seu rosto enquanto chorava desesperadamente.

”Eu a amo, Diana. Não se esqueça disso”

”Não me deixe! Por favor.”

Sussurrei para ele em minha mente. Nossas últimas palavras estariam seguras em minhas lembranças. Nem Hela e nem ninguém poderia tirar aquilo de mim.

”Eu prometo a você que consertarei isso.”

”Eu nunca vou deixar você. Não deixei quando esteve na Terra e eu não deixarei agora.”

Minhas lágrimas caíram em seu rosto. Loki estava quase fechando os olhos.

Abracei seu corpo gelado no meu. Loki soltou um suspiro e eu senti a nossa ligação, o fio dourado que me ligava a ele, que nos tornava um só desde que eu havia colocado meus olhos sobre ele se quebrando. A conexão, o amor e sua alma eram arrancadas de dentro de mim com um safanão.

Seu último suspiro me fez abraçá-lo ainda mais forte. Seu coração deu o último solavanco e eu apertei meus lábios no seu a fim de fazê-lo sentir meu amor enquanto ele era arrancado de meus braços. Nosso fio de ligação em amor havia sido cortado para sempre. Loki sussurrou suas últimas palavras:

Eu fui seu na vida… e serei seu na morte.

Fui carregada para a eterna escuridão que viveria dentro de mim a partir de agora. Guardei suas últimas palavras em minha mente e as repeti para o silêncio eterno com uma esperança muda de que ele as ouvisse.

Sua na vida. Sua na morte, Loki de Asgard.

 

Karol

Jovem com alma de criança. Cabeça nas estrelas, pés no chão e olhos no céu. Escritora amadora nas horas vagas e sonhadora em tempo integral.