Redenção – Não pode ser! – 45

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As três luas se passaram e eu deveria encontrar a mulher misteriosa da floresta. Estava ansiosa e com uma pontada de receio, como ela saberia sobre o gigante de gelo e o que aquela história se referia a mim? Claro que estava curiosa e por isso não deixaria de ter informações por uma pequena parte de mim que não achava que aquilo era uma boa ideia.

Remexi o café da manhã em meu prato de ouro maciço. Sabia que os olhos de Loki estavam postos em mim do outro lado da mesa. Thor, Frigga, Freyja e Jane também desfrutavam da comida conosco. Frigga disse que não queria que ficássemos tão separados em um palácio tão grande, portanto ela fazia questão de que nos reuníssemos em cada refeição.

Os quatro conversavam animadamente sobre o aniversário de Thor que aconteceria daqui a dois dias. Frigga e Jane estavam animadas com o preparativo e o deus do trovão parecia ter um brilho diferente em seu semblante esta manhã. Ele olhava para Jane e sorria assim que ela soltava suas famigeradas piadas do Novo México que ninguém entendia. Ofereci minha ajuda para minha amiga Foster uns dias atrás e ela apenas quis que eu a auxiliasse com um vestido que a deixasse deslumbrante naquele baile de aniversário. Sem dúvidas, ela seria a moça mais bonita de todas naquela noite.

Remexi novamente na comida e senti os olhos de Loki me fulminando do outro lado. Levantei meus olhos para ele. Ele tentava se comunicar comigo daquela forma para não ter que participar de uma conversa, tediosa, como o mesmo dizia. Meu Loki não se interessava em bailes, ou preparativos como aquele. Na verdade estava mais preocupado do que eu mesma com minha saúde.

Eu dizia para ele não se preocupar, eram apenas reações por ter mudado de ambiente bruscamente ou até mesmo poderia ser o soro que a HYDRA usou em mim e que finalmente estava saindo de meu sistema. Podia sentir minhas lembranças com Loki aqui em Asgard voltando aos poucos, porém ainda era tudo confuso e desconexo, não conseguia ligar as memórias com os acontecimentos de forma cronológica.

Tomei um pouco de hidromel para que o moreno não me recriminasse mais do que já estava. Ele parecia querer levantar dali e enfiar a comida na minha boca goela a baixo. Não conseguia parar de pensar naquela mulher, sua cicatriz e suas palavras intrigantes sobre minha curiosidade em Yves e em sua história. Por que tudo aquilo estava tão interligado e por que aquilo me interessava tanto?

Olhei novamente nos olhos de Loki. Eu queria falar com ele sobre aquela mulher, sobre meu interesse em Yves, mas não conseguia. Não queria iniciar um assunto que eu não teria certeza e não sabia o que aconteceria. Iria encontrar aquela mulher sozinha, Loki não precisava se preocupar com nada e muito menos aparecer por lá. Aquela figura estranha havia deixado claro que as respostas eram só minhas, se mais alguém aparecesse eu poderia perder a chance de obter informações e além disso, minha inseparável Sann estaria comigo.

Fiz uma mesura de que ia me levantar da cadeira e a conversa cessou. Todos olharam pra mim. Sorri sem graça para eles e me arrumei na cadeira tomando mais um gole de hidromel. Frigga me olhou como se pedisse desculpa por toda a tagarelice. Jane olhou para Thor como  se não entendesse o que aconteceu comigo. Ela parecia preocupada, mas não tivemos tempo de conversar com toda essa organização.

– Como você está, querida? – Frigga perguntou.

Tomei mais um pouco do hidromel antes de respondê-la. Parecia tudo tão estranho, não estava acostumada com a paz que parecíamos ter naqueles dias. Onde eu ia, alguma catástrofe acontecia, Loki e eu éramos pessoas que estavam sendo, incessantemente, separadas. Nada naqueles dias me deixava calma. Um silêncio como aquele não era comum na paz. Um silêncio medonho, duvidoso, como se algo estivesse dormindo, mas prestes a despertar. O silêncio da paz era algo que eu não sentia desde quando era criança e podia deitar nas pernas de meus pais para sentir o calor do sol na praia do Texas.

– Estou bem. – Sorri para Frigga e respondi interrompendo meus pensamentos.

A deusa loira me olhou com uma cara de quem não acreditava em uma mínima palavra minha. Era terrível a forma como eu não sabia mentir para ela e muito menos para Loki. Eu queria compartilhar com alguém sobre aquela mulher, sobre as informações que ela me daria. Porém sabia que se dissesse algo para ela ou Loki, eles tentariam me impedir e não estava pronta para desistir agora.

– Estou ansiosa para sua festa, Thor. – Mudei de assunto bruscamente.

O deus do trovão sorriu para mim. Sua barba estava maior e o cabelo também. Ele usava algumas tranças pelo cabelo loiro e uma pena de guerreiro também estava ali pendurada próximo de sua orelha. Jane havia aderido os penteados asgardianos também e trançou os cabelos como Frigga fazia. Diferente de mim que andava para cima e para baixo descalça, com os vestidos de Asgard e os cabelos soltos. Alguns guardas até me olharam torto por semanas até finalmente darem de ombros e ignorarem tudo aquilo.

– Nós também estamos. – Frigga dirigiu um olhar cúmplice para Thor e os dois sorriram.

Thor era tão parecido com Frigga que era capaz de achar os traços da deusa loira no homenzarrão sentado próximo de mim. Eles sorriam igualmente, e as covinhas se abriam no lado esquerdo e direito do rosto. Aqueles sorrisos só queriam dizer uma coisa: eles estavam tramando algo.

Andei pelo palácio distraidamente respirando fundo. Meus enjoos repentinos estavam passando, porém algumas vezes os danados decidiam aparecer e acabar com a minha manhã ou qualquer coisa que estava comendo. Toda vez que eu sentia a pontada de náusea não conseguia sequer colocar uma gota de hidromel ou água na boca sem querer devolver no vaso do banheiro.

A porta do quarto de Frigga estava aberta. Ela se encontrava sentada próximo à sua janela olhando para o céu de Asgard que começava a dar traços do crepúsculo. Loki havia me contado que quando a deusa ficava assim era porque estava vasculhando o futuro à procura de respostas. Eu a entendia. Se eu pudesse ver meu próprio futuro, ver o que me reservava daqui pra frente, eu também procuraria, não me cansaria de vasculhar minha história que ainda estava sendo escrita.

Bati levemente na porta. A deusa olhou para mim e sorriu, fez um gesto para que eu me juntasse a ela. Segui para a janela e sentei em seu largo batente de frente para a Rainha de Asgard. Ela sorria maternalmente para mim. Levantou as mãos e segurou as minhas. Seus dedos estavam quentes. Ela acariciou com o polegar minha mão e disse:

– Querida, o que te aflige? – Ela questionou.

Mordi os lábios. Eu não sabia ao certo. Tudo parecia muito estranho e silencioso pra mim, não encontrava paz. Minha cabeça não cansava de criar perguntas e mais perguntas sobre o que eu sou, de onde vim, por que Loki havia se apaixonado por mim e principalmente: por que me sentia fraca, exausta e nauseada todos os dias.

– São tantas perguntas, Frigga… eu não sei quem eu sou… quer dizer, eu sei que sou uma guerreira de Asgard, uma Gigante de Gelo e sei que sou completamente apaixonada pelo seu filho, mas o que realmente me define? De onde eu vim? Qual é a história que me privaram?

A deusa suspirou e apertou mais minhas mãos como se entendesse o que eu queria dizer. Loki me dá paz, Asgard me proporciona paz, mas não a completa e plena que eu necessitava ter. Enquanto não conhecesse minhas origens e qual foi a maldita bagunça que me levou à Terra e de volta à Asgard novamente.

– Eu só… só quero respostas. Estou com medo desse silêncio que tenho aqui. – Apontei para minha cabeça – Parece que algo está prestes a acontecer e eu não posso evitar… ninguém pode.

Frigga franziu o cenho e seus olhos ficaram vazios como se não prestasse mais atenção em nada a sua volta. Segurei mais forte em sua mão. Ela ainda olhava pra mim, mas de forma vazia. Sua boca se escancarou e ela soltou rapidamente minha mão. A deusa piscou os olhos freneticamente e repousou novamente seu olhar no meu. Sua mão direita desceu para o meu ventre. Ela olhou para o local e para mim.

Olhei para onde a deusa tinha colocado a mão e depois para ela sem entender. Seus olhos se arregalaram e ela reprimiu um sorriso nos lábios. Os olhos da loira marejaram e ela acariciou meu ventre. Desci minhas mãos para onde estava repousada a dela e olhei para meu ventre.

Não! Não pode ser! Isso só pode ser uma brincadeira.

Pensei

Levantei meus olhos para a loira. Abri meus lábios, mas nada saiu deles. Frigga assentiu para mim e sorriu. Soltei um arquejo de surpresa. Uma lágrima escorreu pelos meus olhos.

Não… Não pode ser!

Karol

Jovem com alma de criança. Cabeça nas estrelas, pés no chão e olhos no céu. Escritora amadora nas horas vagas e sonhadora em tempo integral.