Redenção – O começo do fim – 50

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Guerreiras agarraram meus braços e retiraram a cabeça de Loki de meu colo. As mãos fortes delas se apertaram em mim como grilhões de ferro e começaram a me arrastar para longe dele. Eu não conseguia gritar e nem protestar, meus olhos não deixavam o rosto dele. Uma enorme parte de minha vida e de minha esperança haviam morrido com ele. Minha mente vagueava, me sentia perdida dentro de meus próprios pensamentos.

Olhos esverdeados e bochechas gorduchas se formaram em uma imagem na minha mente. Eu ainda tinha um herdeiro em meu ventre. Uma parte só minha e de Loki que ninguém poderia tirar. O medo invadiu minhas veias como um jato gelado, e se Hela soubesse de meu bebê? E se quisesse tirá-lo de mim como fez com Loki e pior ainda pelas minhas mãos?

Levantei meus olhos para as escadas que levavam ao trono. As mulheres haviam me arrastado até ali e me colocaram de joelhos para a figura maquiavélica que a minha mãe, se é que posso dizer assim, representava.

Hela me olhava sem qualquer centelha de piedade. Seus dedos foram direto para o rubi e ela o agarrou levemente. Frigga estava a alguns metros dela com os olhos vidrados no corpo inerte de Loki. Lágrimas ainda molhavam sua face e eu pude sentir o desespero e o ódio emanar dela. Aquela cena fez com que minha mente desse um estalo. Eu havia matado Loki na frente da própria mãe, na frente da pessoa que eu considerava como uma mãe também. Uma pessoa que sempre zelou por mim e me aconselhou.

O aperto de ferro ainda continuava em meus braços. Me remexi e os dedos longos e finos das mulheres castigaram mais ainda a minha pele. Soltei um silvo de dor. Hela desceu as escadas com seus olhos postos em mim. Me rebati e lutei para me soltar. A deusa da morte se pôs à minha frente e abriu um leve sorriso. Seus dedos levantaram minha cabeça pelo queixo. Ao olhar seu rosto eu senti o ódio correr pelas minhas veias, ela havia tirado tudo de mim e estava prestes a acabar com Asgard e com a vida de todas aquelas mulheres. Eu tinha que fazer algo para impedir.

Quando finalmente ela se aproximou de mim, esfregou os dedos no colar e minha cabeça doeu. Soltei um grito alto e fino de dor. Quanto mais eu teria que sofrer nas mãos dela? Quanto mais Asgard se submeteria ao que ela desejava? Ela tentava, de todas as formas, me subjugar através do colar. Meus olhos foram para Frigga e a deusa loura se sacudiu desesperadamente contra as algemas. Ela estava tentando se soltar para me proteger.

Fechei os olhos. Lágrimas desceram de meus olhos. Hela pegou em meu queixo e apertou entre suas unhas finas.

– Olhe para mim! – Ela ordenou – Você é minha filha, é a herdeira da morte. Não deve chorar por eles. Se tivesse colaborado comigo desde o começo tudo seria mais fácil, porém sua constante luta não me dá outra escolha.

Hela começou um feitiço através do colar. O rubi começou a brilhar tão intensamente que meus olhos doeram. Minha cabeça latejou e eu quase caí de cara no chão se não fosse pelos braços das guerreiras me segurando. Minhas pernas viraram gelatina e eu sentia a inconsciência me levar. Eu não podia mais ter o controle sobre mim mesma e então eu percebi que Hela havia ganhado. Minha mente agora era dela.

 

***

Thor andou de um lado para o outro como um a cão raivoso na frente de um portão de ferro. Já haviam se passado dias desde a súbita aparição de Hela e ele sentia em seu interior que a partir dali todos estavam completamente ferrados. O que fazer quando a morte decide invadir um baile e derruba todos, sem exceção com apenas um movimentar de dedos?

Seus pensamentos iam de Jane até Diana e principalmente Frigga. Ele não via mulheres ali, nenhuma delas nas celas, mas sim como guardas do lado de fora. Elas passavam por ali com olhares vítreos como se estivessem em uma espécie de transe e Thor não deixou de imaginar que tudo aquilo era obra de Hela. Dias atrás, Loki havia sido levado e não retornou. O deus do trovão não queria pensar o pior, porém seu coração se sentia apertado. Não era um bom sinal. Ele não queria perder a esperança, mas sua mente gritava que dessa vez as coisas poderiam estar realmente perdidas.

As celas estavam lotadas de soldados. Alguns dias atrás eles estavam desesperados como Thor, andavam de lá para cá, mas agora apenas sentavam-se próximos ao campo de força invisível e em seus olhos a ponta de esperança vinha morrendo a cada dia que se passava.

O loiro passou a mão pelos cabelos. Ele não desistiria tão fácil, não se entregaria sem lutar. Morreria tentando salvar seu reino e quem amava. Morreria brandindo seu mjonir e se encontraria com seu povo em Valhala sendo servido pelos deuses e as Valquírias.

O farfalhar de pés fez Frigga abrir os olhos atenta. Ela estava presa ao mesmo poste desde que Hela chegou. Recebia comida e hidromel todos os dias pelas guerreiras da deusa da morte. A loira sabia de toda a história, sabia o quanto a mulher tinha sofrido e de como Odin havia decapitado o amor da vida dela diante de seus olhos e como a amaldiçoou para ser a própria morte encarnada. Frigga sabia que ela merecia se vingar, só não acreditava que aquela era a saída e muito menos punir Diana daquela forma.

A deusa olhou para onde o filho havia sido executado pela menina. Ela estava tão desolada. Frigga conseguia ver o quanto Diana lutou contra o feitiço maldito de Hela e a influência do Brisings. As mãos dela tremiam. Quando a vida se esvaiu de Loki, uma parte delas morreu com ele. Diana não tinha o que se agarrar e muito menos Frigga. Ela queria se soltar dali, precisava de Thor, precisava encontrá-lo e lutar.

Mesmo que fosse em vão lutar contra as mulheres asgardianas, mesmo que fosse em vão ela lutaria e morreria. Morreria tentando salvá-los e principalmente salvar Diana, sua filha, de si mesma. O leve farfalhar de pés fez com que ela procurasse atenta novamente entre o grande salão. Uma silhueta encapuzada se escondia atrás das pilastras. Ela se aproximava sorrateiramente.

– Quem está aí? – Frigga bradou.

– Shhhhhhhhh! – A silhueta disse.

O ser encapuzado se aproximou. A cabeça abaixada e a guarda pronta para qualquer imprevisto. Ela se aproximou devagar de Frigga. A deusa se remexeu fazendo barulho com as correntes. O que diabos era aquilo? A loira abriu os lábios para gritar, porém o ser encostou a mão levemente gelada em sua boca fazendo com que ela se calasse.

O ser encapuzado travava uma batalha mental. Suas mãos e seus pés clamavam para ajudar a deusa e libertá-la, porém sua mente só lhe mandava sacar a espada e cortar fora a cabeça da deusa. Era uma árdua batalha. Manteve seu rosto escondido da deusa enquanto lutava consigo mesma, contra um maldito feitiço.

O ser sacou sua espada dourada. Frigga arregalou os olhos e engoliu em seco.

Sann.

Ela pensou.

O ser levantou a espada e o capuz escorregou por sua cabeça. Os cabelos longos cor de chocolate caíram pelo rosto.

– Diana! – Frigga exclamou.

A moça tinha enormes olheiras arroxeadas embaixo dos olhos que estavam arregalados. Seus lábios entreabertos. Seu rosto pálido mostrava o quanto ela estava diferente e fora de si. As mãos dela tremiam levemente enquanto olhava fixamente para Frigga.

A deusa sentiu a dor dela dentro de si. Sua menina estava sofrendo arduamente nas mãos de Hela. Ela estava corroendo por dentro. O feitiço a fazia com que não dormisse apenas pensando que o amor era ruína e que ela deveria eliminar qualquer resquício dele dentro de si.

A verdadeira Diana lutava lá dentro, gritava e repuxava os cabelos insistindo para que pudesse tomar controle de seu próprio corpo e que tomasse Hela pelo pescoço e a matasse enforcada com o maldito colar. Sua mente não parava de sussurrar para que fosse até o salão e matasse Frigga com as próprias mãos, porém nessa árdua batalha outra vontade maior que todas venceu.

Ela decidiu que lutaria, que machucaria a si mesma antes de encostar em um fio de cabelo de sua mãe. Sim, Frigga era como sua mãe, ela a amava acima de qualquer maldito feitiço que pudessem ter feito e acima de qualquer demônio que a obrigasse a fazer o que não queria. Ela não iria perder a deusa como perdeu Loki.

– Shhhh! – Diana sussurrou de novo e colocou o dedo sobre os lábios.

Suas mãos tremeram. A mulher passou a lâmina em sua mão. Sangue gotejou e manchou a espada. A deusa franziu o cenho. Diana levantou novamente a espada. A súbita vontade de cravá-la no peito de Frigga quase a fez ceder, porém Sann, fiel como o próprio nome dizia, desceu certeiramente nas algemas de ferro que prendiam a deusa e se soltaram como se fosse um queijo mole.

– Mas… como? – Frigga sabia que as algemas estavam encantadas. Nem mesmo sua magia podia removê-las.

– Feitiço de sangue. – Diana sussurrou enquanto libertava a deusa das algemas.

A morena segurou a loira pelo pulso e a ajudou a se levantar. Frigga abraçou Diana fortemente. Ela fechou os olhos e lágrimas desceram de seus olhos. A espada caiu com um tilintar no mármore fino. Frigga deu um leve pulinho de susto e se afastou, segurou no rosto de Diana e viu nos olhos dela que a batalha ainda continuava.

– Vá! – Diana disse. – Thor! Ajude Thor! – Ela disse com as mãos atrás do corpo. Ela apertava os dedos tentando expulsar a sensação e a vontade de impedir Frigga e estrangulá-la.

Frigga assentiu. E se afastou rapidamente da morena. Seu vestido balançava enquanto ela descia as escadas. Antes de continuar, a deusa se virou e olhou uma última vez para sua menina. Diana abaixou os olhos e pegou a espada.

– Nós vamos lutar, Diana. E mesmo que…

– Morrerei tentando. Eu prometo. – Diana franziu o cenho e arquejou.

Os nós de seus dedos ficaram brancos tamanha a força que ela pôs sobre espada. Seus olhos se arregalaram.

– Vá! Por favor! Estou tentando controlar… – As mãos dela tremeram.

Lágrimas escorreram dos olhos de Frigga e ela se pôs a correr rapidamente sem olhar para trás.

 

A mulher se esgueirou rapidamente entre os arbustos. Era madrugada quando ela decidiu sair do esconderijo perto do lago e foi até as celas onde deduziu que estaria Thor. Algumas mulheres vigiavam as portas, não haveria problema, afinal tinha a magia ao seu favor.

Antes que pudesse se levantar de seu esconderijo, Frigga conjurou um feitiço e as fez cair em um sono profundo. Os pés delicados dela correram sem fazer o mínimo de barulho. Ela entrou devagar pelas cavernas que levavam até as celas. Não havia nenhuma guerreira lá dentro.

Quando chegou lá, seu queixo quase caiu ao se deparar com os milhares de soldados presos e abarrotados dentro das celas. Ela precisava soltá-los, precisava lutar contra Hela.

– Thor! – Ela sussurrou.

Seus dedos se aproximaram da primeira cela com campo de força. Aquela era cela que Loki costumava ficar. Os braços de Frigga se arrepiaram e ela resistiu ao bolo que subiu por sua garganta. Seus olhos se encheram de lágrimas. Os soldados levantaram os olhos e ao encontrarem a Rainha de Asgard vestida em trapos, com marcas arroxeadas nos pulsos e com uma expressão de pura tristeza, eles se colocaram de pé. Seu juramento era não deixar nada acontecer com seu reino e muito menos com sua Rainha.

Todos se aproximaram do campo de força. Thor levantou-se ao perceber o rebuliço. O que estaria acontecendo?

– Thor! – Frigga gritou.

O loiro correu para o campo de força empurrando alguns soldados. A cela estava abarrotada e os soldados agitados.

– Mãe! – Thor esbravejou.

Ao encontrar os olhos igualmente azuis da mãe, Thor suspirou. Ele quis encostar os dedos no campo de força, mas sabia que não deveria fazê-lo. Maldito seja! Pelo menos ela estava ali e viva. Ele observou os hematomas em seus pulsos e estremeceu. Thor faria com que Hela pagasse por tudo aquilo quando derrubasse seu exército e toda a sua pompa.

– Jane? Onde ela está? – Ele questionou.

Frigga abaixou os olhos. O coração de Thor retumbou. Não seria possível. Jane não poderia estar…

– Acredito que ela continua presa em seu quarto. Eu estava lá juntamente com ela até Hela me levar para o salão e…

Thor suspirou de alívio. Jane estava segura por enquanto. Logo ele se lembrou de Loki. Ele não havia voltado desde que o levaram dali.

– E Loki? Eu o vi sendo levado e…

Frigga fungou alto. Seus olhos estavam vermelhos e cheio de lágrimas. Ela olhou para Thor e balançou a cabeça negativamente. Lágrimas e lágrimas escorriam por sua face. O deus do trovão sentiu algo se quebrar dentro de si. Seu irmão. Mesmo que Loki negasse, mesmo que ele não quisesse fazer parte daquela família, Thor o amava. Eles eram irmãos, não pelo sangue, não por parentesco, mas ainda eram irmãos.

Lágrimas discretas escorreram pelos olhos de Thor. Loki já havia brincado com a morte uma vez, porém o jeito que Frigga se encontrava falava mais do que mil palavras. Ela presenciou toda a cena, nunca mais esqueceria daquele dia e muito menos a forma que ele havia sofrido.

– Mas nós não podemos recuar. – Disse a Rainha assumindo sua postura ereta e séria. – Eu juro que não deixarei nosso reino ser tomado pela vingança. Lutarei até a morte se possível e se assim os deuses antigos quiserem nós estaremos em Valhala sentados à mesa com as Valquírias.

Ela disse enquanto olhava nos olhos de cada guerreiro. Frigga podia ver que não estava sozinha naquela batalha. O fogo ardia dentro de cada um, eles desejavam lutar até a morte, se preciso, para tomar o reino novamente e livrar suas mulheres do maldito feitiço.

– Minha mulher foi levada por aquela maldita… – Um soldado mais velho resmungou – Eu não deixarei que ela tome Ontari e muito menos o reino. Se eu morrer, sei que serei recebido com honras. É um prazer lutar ao seu lado, minha rainha. – Disse cortês ao olhar para Frigga.

A deusa assentiu. A ponta de esperança que começava a desvanecer dentro de si irradiou. Os asgardianos se doavam, eles amavam seu reino, seu rei e suas mulheres. Haveria uma luta e Hela deveria se preparar para isso.

– Qual é o plano? – O soldado loiro se aproximou do campo de força.

Todos se entreolharam e logo dirigiram seu olhar para Frigga. A Rainha levantou as sobrancelhas e refletiu. Após alguns minutos em silêncio ela encontrou o olhar de Thor e soube exatamente o que tinha que fazer.

– Primeiro, preciso tirá-lo daí! – A deusa loira disse enquanto repuxava os lábios em um pequeno sorriso perigoso.

Sua mente trabalhava. Planos e estratégias invadiam seus pensamentos. Frigga se sentiu imensamente grata pelos deuses terem lhe dado o prazer de ser mãe, em todos aqueles anos, do deus da trapaça.

Thor, Frigga, Aaron e Naveen se esgueiraram pelos arbustos próximos ao palácio. Ela havia conseguido abrir uma das celas que Thor estava sem que o alarme fosse soado. Eles deram sorte de que talvez Hela não tenha mandado suas mulheres ligá-lo.

Naveen e Aaron seguraram as pesadas espadas que eles haviam saqueado no campo de treinamento. Fizeram de tudo para se esconder das guerreiras que acordaram logo após saírem da cela. Não podiam libertar subitamente todos os soldados, isso adiantaria uma guerra para a qual eles ainda não estavam prontos.

No palácio, especificamente no quarto real se encontrava um dispositivo que abria todas as celas de uma vez. Frigga questionou Odin sobre aquilo, porém ele sempre lhe dizia que nunca se sabe. Talvez a salvação de todos pudesse vir de um lugar inusitado. Ela nunca concordou tanto com seu marido como naquele momento.

O primeiro plano era simples, porém perigoso. Eles deveriam entrar no palácio. Thor resgataria Jane e tomaria o mjonir. Frigga abriria as celas enquanto Aaron e Naveen se certificariam de que o alarme não fosse soado. Após aquilo, a deusa usaria sua magia para resgatar armas e armaduras para seu exército e assim marchariam para terminar com tudo aquilo.

Thor segurou na mão da mãe discretamente. Frigga não virou seus olhos para ele, porém o loiro sabia que ela compartilhava de seu mesmo sentimento. Eles temiam tudo dar errado, estavam em um número mínimo e se fossem pegos tudo estaria completamente perdido.

Os quatro entraram pelas portas dos fundos no palácio. Elas estavam trancadas com corrente, porém Naveen logo deu um jeito com o certeiro golpe de sua espada. Aquela era a área dos empregados, cozinha e áreas de serviço. Não haviam soldados e nem surpresas até que chegassem nas alas principais.

O combinado era não machucar as mulheres, afinal elas não tinham poder sobre si mesmas, estavam sendo usadas e continuavam sendo guerreiras de Asgard. Se por algum milagre dos deuses conseguissem impedir o transe, Hela estaria derrotada e não seria necessário derramamento de sangue.

Quando finalmente chegaram na porta que daria para as alas nobres do palácio, Frigga olhou para seus soldados e em um pedido mudo eles entenderam que ela suplicava para que voltassem com vida e que desejava que tudo desse certo. Se fossem descobertos tudo estaria completamente perdido.
***

Thor andou pelos corredores rapidamente. Não havia nenhuma mulher até o momento. Talvez todas estivessem reunidas com Hela. O silêncio dentro do palácio causava arrepios. As cores, risos e toda a animação que viviam naquelas paredes pareciam ter se escondido assim que a deusa da morte pisou em Asgard.

O loiro se aproximou da porta de seu quarto. Observou atrás de uma pilastra e viu três guardas postos em frente a porta. Sua arma e Jane deviam estar ali, afinal quem guardaria um quarto vazio? Thor refletiu. Ele não poderia fazer estardalhaço para não atrair atenção.

Um barulho fez tanto Thor quanto as guerreiras se colocarem a postos. Elas olharam em volta com as sobrancelhas erguidas e ouvidos atentos. O primeiro a ver foi Thor. Uma sombra se esgueirava entre pilastras. A guerreira morena rapidamente sacou sua espada e olhou para as outras duas como se dissesse: eu vou.

Ela se afastou das outras duas que ficaram olhando atentamente ao redor. Thor viu novamente a sombra passar por ali. Ela só aparecia na parte de trás onde o deus do trovão também se encontrava, portanto somente ele conseguia vê-la. A silhueta se afastou um pouco, a guerreira correu e antes que pudesse atacar foi nocauteada pela silhueta que ao longe parecia alguém encapuzado. O barulho fez as outras duas correrem na direção do som. Ele parou de frente para Thor e a encarou antes de começar a fugir das outras duas mulheres.

Thor franziu o cenho. O que diabos era aquilo? O encapuzado o olhou como se o conhecesse e pior ainda, como se quisesse auxiliá-lo. O loiro se forçou a sair do transe e olhou novamente para a porta, agora livre, de seu quarto. Saiu de trás da pilastra e a empurrou rapidamente. Ele a fechou com um baque surdo. Os olhos dele se arregalaram ao encontrar o mjonir no chão ao lado de ninguém menos que Jane.

Os cabelos cor de caramelo estavam espalhados pelo chão e ela ressonava tranquilamente. Thor correu para ela e a segurou nos braços.

– Jane? – Ele passou a mão pelo rosto dela.

A mulher ressonava. Thor a sacudiu de leve, porém ela não acordou. Seu peito se comprimiu em dor. O que havia acontecido com Jane? Por que ela não despertava? Então Thor mergulhou no mais profundo lago negro do medo e da incerteza de que talvez teria perdido sua amada.

 

Naveen e Aaron se aproximaram da grande porta que levava à sala de armaduras. Era lá que o grande alarme ficava, afinal os soldados sempre estavam de guarda ali para caso acontecesse alguma coisa. E se antes, em dias normais, os guardas se mantinham à postos, os dois imaginavam que estaria abarrotado de mulheres perigosas com armas em mãos e uma mente subjugada pela deusa da morte.

Porém para sua surpresa aquela ala do palácio estava completamente desprotegida. Os dois se entreolharam claramente acreditando que aquilo deveria ser uma emboscada e das boas. No entanto, o silêncio amedrontador que envolvia o palácio fazia com que os pelos dos braços dos dois guerreiros se arrepiassem. Mesmo que eles tivessem certeza que seguir Frigga os levaria à vitória, algo dentro de seus corações lhe diziam que o caminho seria árduo e sangrento.

Ao se aproximarem das grandes portas, Naveen olhou para todos lados se certificando de que soldado algum apareceria para dizimá-los. Nada! Não havia nada, ninguém e som algum. Parecia um silêncio mortal. Aquele silêncio que acreditamos vir antes da morte.

Aaron empurrou a porta levemente e deu espaço para que o moreno entrasse. A porta de mármore foi empurrada novamente para se fechar e assim os dois guerreiros desapareceram dentro da sala de armas.

Frigga entrou rapidamente no quarto real. Sua testa franzida. Ela não entendia o porquê de não haver absolutamente nenhuma proteção em parte alguma do castelo em que ela havia passado. Estava tudo silencioso demais para o seu gosto. A porta bateu atrás de si e rapidamente olhou em volta esperando qualquer imprevisto.

Seus dedos correram sobre a arma em cima da mesa de mogno. A arma que Odin havia lhe dado no dia do casamento. Era uma lança que se transformava em duas espadas quando ela queria. Duas espadas finas e extremamente pontudas. As duas extremidades incrustadas em joias que só se achavam em Niflheim, nas cavernas perto do lago lodoso. Odin havia mandado forjar aquela arma somente para ela, ninguém mais nos nove reinos possuía uma daquela.

Ao lembrar-se de seu marido, seu coração se apertou. A figura do Rei de Asgard deitado na cama, embalado em seu sono de Odin por tanto tempo como aquele afligia seu coração. Ela precisava do marido na guerra, ninguém mais tinha vencido tantas como ele, nem Thor com todo o seu poder era páreo para o Rei.

Frigga temia que algo de ruim acontecesse com seu marido, afinal ele estava desacordado por tanto tempo. Seu coração palpitava de dor e de saudades. Ela desejava arduamente que Odin acordasse e a auxiliasse a salvar o reino como sempre fizeram.

A mulher se aproximou da figura deitada e passou de leve a mão pelo rosto envelhecido de Odin. Lágrimas escorreram de seus olhos sem que ela percebesse. Frigga se aproximou mais e encostou a testa na do marido e fechou os olhos. Como ela sentia falta dele.

– Acorde! – Sussurrou – Eu preciso de você. Asgard precisa de você. Sei que você tem observado tudo. Você tem visto nosso sofrimento.

Mais lágrimas caíram de seus olhos. Ela fungou alto e se afastou dele, limpou o rosto e virou as costas. Precisava ser forte porque não haviam certezas de Odin milagrosamente despertar e salvá-los.

Ela procurou o escondido botão atrás do grande quadro que mostrava a majestosa imagem de Odin com a Gungnir na mão, Frigga ao seu lado, Thor segurando o mjonir e Loki com sua lança. A família real em toda sua imponência e majestosidade. Agora Frigga só tinha o deus do trovão, o deus da trapaça estava… Ela engoliu em seco. E Odin continuava em seu sereno sono.

A mulher puxou delicadamente o quadro e tateou à procura do botão camuflado entre a cor dourada da parede. Seus dedos passaram por uma protuberância e ela soube que era aquilo que estava procurando. Apertou e fechou os olhos. Agora seus soldados estavam livres.

– Thor! – Frigga entrou pelo quarto e encontrou o deus loiro com Jane nos braços.

Seus olhos estavam avermelhados e ele fungava. Jane dormia tranquilamente. Frigga suspirou, ela ia contar sobre aquilo, mas desistiu assim que seus pensamentos passaram de Jane até Loki. Quando acordou do ataque de Hela, a astrofísica estava deitada ao seu lado dormindo profundamente. Ela tentou de tudo para acordar a nora, no entanto, continuava sem resposta alguma.

– O que aconteceu com ela? – Questionou.

A deusa suspirou e se aproximou dos dois e se ajoelhou diante deles. Ela passou a mão pelo cabelo de Jane e por sua testa. Temia o pior, mas não deixaria seu pontinho de fé se esvair.

– Eu tentei de todas as formas acordá-la. – Frigga sussurrou.

– Temos que tirá-la daqui. – Ele disse.

– E colocá-la onde? Não tem lugar mais seguro que o palácio…

– E a guerra? Não podemos…

– Eu posso fazer um encantamento. Posso envolvê-la em uma espécie de campo de força como os da cela… Assim ninguém poderá tocá-la.

Thor abraçou mais forte o corpo de Jane. Ele não queria deixá-la de forma alguma, já havia ficado separado dela por muito tempo. A deusa da morte arruinou a comemoração e pedido de casamento que planejou por tanto tempo.

– Nós precisamos ir, Thor! Os soldados já devem estar livres.

Ele agarrou Jane mais forte e apoiou o queixo na cabeça dela. Sentiu o cheiro de amêndoas que emanava dela. Frigga sacudiu o braço dele de leve. Thor suspirou e se levantou com a mulher no colo. Colocou ela na cama e se afastou um pouco. Segurou a mão de Jane pela última vez e assentiu para que Frigga fizesse o encantamento.

Thor, em momento algum, desviou seus olhos da mulher amada. Ele sentia que aquele não era o fim e se dependesse de sua força de vontade e amor, não seria mesmo o fim.

Os quatro se reencontraram no pátio do palácio. Alguns soldados que estavam na caverna apareceram e avisaram que iriam para o esconderijo que Frigga tinha próximo ao palácio. Aquele esconderijo havia sido de Loki quando ela lhe ensinava magia longe de Odin. Era no subsolo e eles saquearam o máximo de armas que conseguiram.

Thor, Naveen e Aaron queriam voltar para lá e se apressaram para saquear mais armas do baú que ficava na área de treinamento. Frigga os seguia devagar enquanto refletia. O que aconteceria agora? O que viria com aquela guerra?

De repente seus olhos ficaram vítreos. Seus sentidos foram tomados e a costumeira sensação de estar sendo levada por uma viagem astral fez suas pernas ceder. Ela não sentia mais que estava em Asgard, porém em sua visão, Thor correu para socorrê-la.

– Frigga! – A voz de Freyja tomou seus ouvidos.

A deusa loira não conseguia abrir os olhos, apenas ouvir a voz de sua irmã.

– Freyja! Onde você está? O que aconteceu com você? – Frigga se exaltou.

– Shhhhh, querida. Estou em um lugar que nem você irá acreditar, mas não posso entrar em detalhes agora. Hela achou que estaria me subjugando, porém me deu um bom presente.

Ela falava com um tom de sorriso nos lábios e então continuou.

– Querida, precisamos ser rápidas! Hela não colocou guardas no castelo porque queria que vocês se armassem. A intenção dela é que uma guerra aconteça, ela quer dizimar a população de Asgard. Cuide de Diana, ela é a chave. Infelizmente sacrifícios acontecerão. Ataque ao amanhecer! Não recue, mas não machuque as guerreiras, peça aos seus soldados que tentem apenas desacordá-las. Diana irá fazer o resto. Não recue, minha querida! A provação está quase no fim, guarde os seus ou então haverá inúmeros sacrifícios…

Frigga tentava acompanhar todas as palavras de Freyja. Diana era a chave e ela não deveria recuar. Haveria sim uma guerra. Era isso que a deusa loira temia, uma guerra, derramamento de sangue e mais sacrifícios.

– Não recue, querida! Não recue! Nós voltaremos a nos encontrar. Sinto sua falta. – Ela disse e Frigga sentiu um carinho gostoso em seu cabelo.

A deusa piscou os olhos freneticamente. Thor havia carregado ela para o esconderijo subterrâneo. Ele a olhava apreensivo. Freyja poderia ter escolhido uma hora melhor para levá-la em uma viagem astral.

– O que aconteceu? – Thor questionou passando a mão pelo barba rala.

Frigga se pôs sentada no chão e passou a mão pelo rosto tentando expulsar a sensação de formigamento no corpo.

– Freyja! Ela me levou em uma viagem astral. – Ela mordeu de leve o lábio – Thor, haverá uma guerra. Diana é a chave e eu quero evitar o máximo de sacrifícios possível, porém haverá e é isso que eu tenho medo.

O deus do trovão acariciou o braço da mãe. Ele sabia que a única forma de tomar o reino novamente e salvar a todos seria brandindo as espadas e derramando sangue.

– Não podemos machucar as mulheres, só desacorda-las. – Frigga balbuciou.

– Certo! Agora precisamos descansar, mãe.

– Ao alvorecer! Sairemos assim que os primeiros raios do sol atingirem o céu.

Thor assentiu e abraçou a mãe sentindo que talvez aquela poderia ser a última vez.

Olhando sorrateiramente apressou os pés entre as árvores. O grande palácio élfico apareceu entre as montanhas. Seu coração martelava enquanto se aproximava cada vez mais. As notícias eram de que ela estava lá dentro do palácio com um cetro em mãos.

Ele não havia acreditado ao ouvir aquilo, porém assim que chegou lá e passou pelos guardas até chegar na sala do trono, não deixou de sorrir.

– Meu querido! Que prazer recebê-lo! – Disse a elfo de cabelos prateados e olhos dourados.

O alvorecer chegou e os soldados estavam à postos com armas em punhos esperando sua senhora, Frigga, dar a ordem de ataque.

Eles se encontravam do lado de fora do palácio, perto de entrar no grande salão que havia sido o baile. Tomariam o castelo enquanto Frigga tentaria tomar Diana e ajudá-la com o transe que se encontrava.

– Soldados! – Freyja bradou – Hoje lutaremos para tomar o que é nosso por direito. Não devemos recuar. A morte não é uma personificação, a morte é a benção em Valhala. – Os soldados gritaram emocionados com a citação do lugar de honra que lhes era de direito. – As mulheres não devem ser machucadas, tentem de todas as formas se defender e desacordá-las. Sangue não precisa ser derramado.

Eles olhavam fixamente para sua senhora com o porte ereto e o rosto sério. Obedeceriam todas as ordens dela a risca. Não haveria sangue derramado se dependesse deles. Hela não iria dizimar os asgardianos por uma simples vontade de vingança.

– Lutem com bravura e amor por seu povo! – Ela levantou a segunda parte de sua lança – Lutem por seu Rei e lutem por sua Rainha!

Os soldados bradaram em resposta colocando suas espadas em riste. Logo começaram a marchar e bater nos escudos como um canto de guerra para avisar Hela que eles estavam chegando e que não arredariam o pé até tomar novamente o que era de direito deles.

Hela, dentro de seu palácio observava tudo através do espelho. Se encontrava na sala de baile com suas guerreiras. Ela estava furiosa por Frigga ter sido solta e sabia muito bem quem havia libertado a deusa. O feitiço nas correntes era de sangue e somente Diana poderia soltá-la.

– Traga Diana aqui! – Disse para uma das guerreiras.

Sif chegou com um semblante preocupado, estava pálida. Hela observou, porém só iria deixar que a comandante lhe falasse o que tanto a afligia após punir Diana de forma certeira.

– Preparem-se! O exército de Frigga está vindo e eu quero vê-los pisoteados pelo nosso poder. Não tenho interesse em prisioneiros, matem todos! – Apoiou o dedo com a enorme unha no queixo.

– Minha senhora… – Sif chamou a atenção de Hela.

A deusa suspirou. Ela precisava mesmo ouvir o que tanto incomodava Sif? Não importava que o exército de Frigga fosse um pouco maior, as mulheres dariam conta. Sabia que eles haviam sido instruídos a não lutar como em uma guerra normal e sim fazer de tudo para não machucá-las. Suas guerreiras iriam atacar em massa, cheias de ódio e vontade de vencer. O desejo por sangue clamava dentro delas.

O som das batidas nos escudos ficava cada vez mais alto. Eles estavam subindo as escadas que levavam ao grande salão em marcha. Sif segurou mais forte a espada e mudou o peso do corpo.

– O que há de errado, comandante? – Hela disse impaciente?

– Minha senhora… Ele… Hummm… O corpo dele sumiu. – Disse Sif um tanto nervosa.

Hela franziu o cenho. Ele? Ele quem? Um grito de guerra a fez se levantar do trono. Frigga estava na frente com seu exército atrás. Ela parou de frente para uma Hela que a fulminava com os olhos. Se as duas tivessem um poder elétrico, trovões e relâmpagos lutariam por elas dentro de uma tempestade furiosa.

Os guerreiros pararam obedientes e esperando o aval de sua senhora. Todas as guerreiras se colocaram em posição de ataque também esperando pelo comando. Hela tentou não rir, mas percebeu que os soldados de Frigga não haviam conseguido saquear as melhores armas.

– Frigga! – Exclamou Hela sorridente – Eu estava esperando você! – Ela disse ironicamente. – Seus cavaleiros são tão bonitinhos, eu até me sinto tocada por toda essa bravura.

A deusa loira não respondeu. O elmo dourado fazendo contraste com seus cabelos. Seu rosto estava pintado com uma tinta preta que os asgardianos costumavam usar para as guerras. A parte dos olhos estava completamente coberta da tinta negra fazendo um enorme contraste com sua pele clara e os olhos azuis.

– Senhora! – A guerreira mandada para procurar Diana chegou ofegante – Diana… Ela… Ela sumiu!

Hela grunhiu. Sacou sua enorme lança dourada e brandiu no chão enquanto fazia um encantamento. Os elmos de suas guerreiras foram se transformando em ossos tão pálidos quanto a lua. Seus olhos também estavam sendo pintados e o cabo de suas armas se tornaram ossos incrustados em pedras preciosas.

– Como disse antes, não tenho interesse em prisioneiros. Você, você e você. Tragam Diana até aqui nem que seja arrastada pelos cabelos. – Ela bradou – Minhas guerreiras, é chegado o momento de mostrarem que estão comigo e que realmente querem fazer parte de meu exército. Chegou a hora de abolir o amor de seus corações, retirar a fraqueza que esses homens e sua rainha representam nesse planeta. Ataquem! – Hela gritou.

As mulheres brandiram suas espadas e correram para atacar os soldados de Frigga. Tudo parecia passar em câmera lenta para Thor, Naveen, Aaron e todos os outros irmãos que queriam resgatar suas amadas e seu reino.

– Lembrem-se quem é o verdadeiro inimigo aqui, meus soldados. Nós ganharemos essa guerra e eu entregarei a vocês a cabeça da morte em uma bandeja de ouro. – Frigga bradou para seus soldados.

Todos os homens gritaram junto com ela e levantaram seus escudos batendo cada vez mais alto enquanto marchavam para o grande começo do fim que os esperavam. O primeiro brandir de espadas fora de Frigga com uma das mulheres e assim a guerra começou. Os soldados lutavam bravamente com seus escudos em riste se protegendo das investidas das guerreiras.

Elas lutavam com ódio e fervor, pareciam animais ferozes e descontrolados, porém com um conhecimento incrível de esgrima e luta corporal. Os gritos e sons de espadas lutando entre si encheu o salão. Os olhos de Hela brilharam ao ver aquilo, ela sonhou por muito tempo com aquele épico momento. Asgardiano contra asgardiano. Seu desejo era que o maldito Odin estivesse acordado e para ver aquilo enquanto lutava desesperadamente para salvar os seus.

***

Naveen lutava bravamente contra as guerreiras que tentavam atacá-lo por todos os lados. O homem mantinha uma enorme concentração para que não machucasse nenhuma delas, porém não recebia nada além de safanões de espadas em seu escudo e assíduas tentativas de esquartejá-lo. Rapidamente o moreno aplicou uma rasteira em sua oponente que caiu com um baque no chão, e então bateu seu escudo na cabeça da mulher ruiva. Ela, felizmente, ao ser atingida ficou inconsciente fazendo com que Naveen suspirasse de alívio. Logo mais uma oponente o encontrou e a batalha continuou.

Thor brandia seu mjonir enquanto voava de um lado para o outro e ainda assim era atacado por diversas mulheres. A vontade era de dizimá-las com seu raio, porém elas continuavam sendo seu povo, as amadas de seus irmãos, a família que ele tinha. Não podia se deixar levar pelo ódio e o desejo de sangue que to as guerras costumavam ter.

Sif correu quando colocou seus olhos no soldado loiro. Aaron lutava com uma mulher de cabelos negros até que a deixou inconsciente. Sif o pegou desprevenido lhe enfiando uma adaga na perna esquerda. O soldado gritou de dor e se jogou no chão levantando o escudo para se proteger da espada que descia com uma força maciça em cima dele. Aaron arregalou os olhos ao encontrar Sif o fitando com ódio como se não o conhecesse, como se ele fosse apenas um dos inimigos que ela costumava dizimar nas guerras.

– Sif! Acorde! – Ele gritou enquanto rolava no chão para fugir de mais uma investida da espada dela.

O loiro aproveitou quando a arma dela bateu no chão, pegou em seus braços e a puxou para o chão. A espada de Sif caiu e ela foi junto com Aaron para o piso de mármore. Suas braços se sacudiram freneticamente enquanto ela tentava se soltar dele. Desferiu um chute, mesmo que inconsciente no rosto de Aaron. O soldado cuspiu uma bola de sangue e segurou mais forte nos braços dela. Ele conseguiu rolar a mulher com ele e se pôs por cima lhe travando os braços e as pernas.

Sif se debatia e contorcia entre os braços de Aaron enquanto o mesmo gritava para que ela acordasse e voltasse para ele. A mulher, o espírito dentro dela, podia ouvi-lo e clamava, lutava dentro de si mesma para acordar. Estava machucando Aaron, estava machucando outros soldados, seus irmãos. Ela não deveria estar lutando contra eles.

Enquanto se debatia descontroladamente, Aaron pôde ver lágrimas descendo pelos olhos da guerreira. Ela grunhia de ódio, queria esmagá-lo com as próprias mãos, mas sua verdadeira vontade era acabar com tudo aquilo e retomar seu corpo. Aaron sentiu uma pontada de dor em seu peito, a sua menina estava sendo usada contra ele. Era algo completamente novo o que estava sentindo, mas sabia que se tornava mais forte a cada dia. Ele não deixaria que Sif se machucasse ou fizesse algo do que se arrependesse depois.

De repente Sif bateu a cabeça no mármore com tanta força tentando se soltar de Aaron que acabou ficando inconsciente. Seus lindos olhos cheio de fúria se fecharam e ela foi tomada por uma serenidade. Aaron sentiu lágrimas descerem por seu rosto, ele encostou a testa na dela e suspirou. Acreditava que por alguns momentos ela havia conseguido tomar conta do corpo e se forçou a apagar para não machucá-lo.

Outra guerreira, ao ver Sif desacordada correu para Aaron e o tirou de cima dela. Os dois lutaram corpo a corpo. A perna dele jorrava sangue pelo grande corte que a comandante havia feito, mas ele iria sobreviver.

***

Diana se esgueirava entre as pilastras. Seus olhos fixos em Hela e em como ela rapidamente lutava com alguns soldados e enfiava sua lança neles fazendo sangue jorrar. Frigga e Thor lutavam bravamente em outra área tentando de todas as formas apagar as guerreiras enquanto a deusa da morte fazia o que lhe era incumbido: ceifar vidas.

Sann, a espada fiel da moça estava em suas mãos. Ela segurava em outra mão o elmo dourado de Loki. Assim que ouviu os barulhos de guerra soube que deveria lutar, e lutar por um lado. O único lado correto. O lado de Asgard, porém ela não podia fazer aquilo sem pelo menos uma lembrança do porquê estar lutando.

Diana iria lutar por ele, faria de tudo para enterrar sua maldita espada no peito de Hela como a havia obrigado fazer com Loki. Ela faria sangue jorrar de sua mãe e a faria se ajoelhar implorando por misericórdia e perdão. Ódio corria em suas veias. Diana queria vingança.

Ela se esgueirou mais entre as pilastras e assim que teve uma oportunidade correu para Hela. Claro que foi impedida por inúmeras guerreiras, porém com a ajuda de seus poderes gelados, ela criou um grande caos. Um enorme sorriso estava em seus lábios. Ela sabia por quem estava lutando, nenhum maldito feitiço iria subjugá-la.

Assim que lutou para soltar Frigga e a deixou ir, Diana sentiu que o feitiço de Hela não funcionava mais em si mesma. Ela empurrou até o fundo a maldita sensação que a fazia seguir as ordens da maluca deusa da morte e ela sumiu para sempre assim que colocou as mãos no elmo dourado de Loki e sentiu um leve tremor dentro de seu ventre. Ela lutaria por seu filho e lutaria por seu amor.

Hela estava completamente errada em dizer que o amor era ruína porque o que corria nas veias de Diana, o que a fazia derrubar todas as guerreiras que apareciam em sua frente tentando impedi-la de chegar até sua verdadeira inimiga, era puramente o amor que a sustentava e a encorajava a lutar, a tomar aquilo que lhe era de direito.

A deusa da morte puxou sua lança do coração de um soldado e então seus olhos se encontraram com os da filha. Ela abatia as guerreiras sem machucá-las completamente. O elmo de Loki em sua cabeça e a espada sendo brandida em riste. Hela sentiu a fúria crescer em seu peito. Além de tê-la traído, ainda lutava com a lembrança do homem que havia matado para zombar da tentativa da mãe em libertá-la daquela ruína.

Com um estalar de dedos as guerreiras que lutavam contra Diana foram abatidas e Hela correu para enfrentar a filha. A morena sentiu a fúria nos olhos da mãe e devolveu-lhe o olhar com o mesmo desejo sangrento de vingança. A lança de Hela bateu contra Sann fazendo um estrondo. As duas lutaram como o fogo e o gelo em um campo maquiavélico de batalha em que a única chance era a morte e não a vitória.

– Você me traiu! – Hela gritou – Eu fiz tudo isso por você, para que pudéssemos ter nossa vingança juntas. Eles te tiraram de mim!

Diana rugiu enquanto se defendia das investidas da deusa da morte. A lança de Hela cortou o braço da filha duas vezes, sangue vívido escorreu, porém Diana nem ao menos ofegou. O amor a incitava a continuar.

***

Naveen sentiu um baque em suas costas enquanto abateu uma guerreira. Assim que se virou encontrou Allya ao longe com seu arco e flecha apontados para ele. O homem se levantou boquiaberto ao ver sua pequena confusão ruiva correr para ele largando o arco e sacando uma espada dourada.

O baque no escudo de Naveen o fez acordar e perceber que sim, sua filha Allya lutava bravamente contra ele. A ruguinha em sua testa e seriedade em que ela se encontrava seria cômica se não fosse trágico. A menina brandiu a espada profissionalmente quase desarmando o pai. O moreno fez de tudo para tentar desacordá-la, mas ela não se deixava ser pega. Como seu porte era pequeno a rapidez estava a seu favor. Naveen tomava o máximo de cuidado.

– Allya! – Ele disse levantando o escudo para se proteger da investida – Filha! Sou eu! Acorde! – Gritou para ela.

Allya não respondia, apenas investia com a espada. Sem perceber, Naveen foi atingido na perna e quase vacilou. Seu escudo caiu um pouco deixando seu braço direito livre. A ruiva enfiou a espada no ombro dele fazendo com que sangue jorrasse e o homem gritou surpreso.

– Allya! – Gritou em desespero.

Ao ver o espanto e desconcerto do pai, a menina lhe aplicou uma rasteira e os dois foram para o chão. Apesar de ser pequena e nova, Allya era forte, afinal era uma asgardiana. Era como se Naveen estivesse lutando com uma guerreira recém preparada, porém cheia de manhas e incrivelmente forte. Ele teria ficado orgulhoso se não estivesse naquela caótica situação.

Diana e Hela agora lutavam corpo a corpo. Sangue escorria da perna e do braço de Diana, mas ela não parou. Seu corpo parecia estar sendo revestido e renovado pela força maciça de seus braços e de sua motivação para lutar. Já não mais importava nada ao seu redor, ela queria Hela morta em suas mãos. A morena bateu a cabeça na de sua oponente e as duas foram para o chão.

– Você me traiu! – Hela gritou novamente enquanto tentava estrangular Diana. – Eles tiraram você de mim, mataram seu pai e me fizeram a morte!

– Você me traiu! Você é minha mãe e me tirou o que eu tinha de melhor – Diana exclamou – Não é o amor que é uma ruína, Hela e sim a sua vingança.

A morena se desvencilhou da deusa e conseguiu se levantar. Tentou chutar a barriga de Hela, porém a mulher lhe segurou a perna e a fez cair novamente. O baque a fez puxar o ar com mais força e uma pontada em sua barriga lhe deu um pensamento desesperador: o bebê.

– O amor foi minha ruína e está sendo a sua e de toda Asgard. Os guerreiros de Frigga estão sucumbindo às minhas porque são covardes demais para matá-las.

Hela pegou Diana pelos cabelos e a ergueu. Uma de suas mãos apertou a bochecha da filha e a fez olhar para a sangrenta batalha. Os soldados de Frigga estavam sendo dizimados por não lutarem com o mesmo intuito que as mulheres.

A deusa da morte riu e começou a conjurar mais um feitiço. Hela sentiu que era hora de trazer suas almas para dentro de Asgard. Com o sangue de Loki derramado, o preço havia sido pago para que seus bichinhos entrassem e terminassem com tudo aquilo. Ela fechou os olhos e conjurou, porém a força que emanava de seus mortos não estavam palpáveis. Algo estava errado. O sacrifício havia dado certo, Loki estava morto e por que seus bichinhos não a seguiram?

‘’O sacrifício não aconteceu.’”

A voz da vingança que vinha orientando Hela em todos esses anos sussurrou baixinho em seu ouvido. Hela não entendeu o que diabos estava acontecendo. Loki havia sido sacrificado, o preço em sangue tinha sido pago. O preço do amor. O que estaria dando errado?

Seu sangue congelou nas veias assim que ela se lembrou das palavras de Sif. Suas mãos se apertaram nos cabelos de Diana. A morena gritou. Hela a jogou no chão. Mais uma pontada em seu ventre a fez arquejar.

– Onde ele está?! – Hela gritou

Diana franziu o cenho. Ele? Hela a pegou novamente pelos cabelos e socou seu rosto. A morena cuspiu sangue e debateu os braços para se livrar da deusa. Ela espumava. O sacrifício não havia sido completo.

– O sacrifício não está completo! Onde. Ele. Está?! – Gritou novamente.

As costas de Diana bateram no chão e sua visão se tornou turva. Hela olhou nos olhos da filha e viu que as mãos dela correram para a barriga como se quisesse protegê-la. A morena tinha lágrimas nos olhos e o ódio ardia em suas veias. A deusa arregalou os olhos.

– O sacrifício de sangue… De amor… – Ela balbuciou – A não ser que… O sangue dele ainda viva dentro…. Dentro de você.

Hela se aproximou e suas mãos foram para a barriga de Diana. Ela estremeceu. A deusa sabia da existência de seu bebê.

– Minha querida, você não completou o sacrifício. – Hela sorriu de forma maquiavélica e apertou a barriga de Diana.

A morena gritou alto e se debateu. Sua perna chutou a barriga de Hela que quase caiu, porém se soltou de Diana. Ela levantou ainda tonta, mas manteve sua postura de ataque.

– Eu já fiz sacrifícios demais em minha vida. Você não vai tocar em mais nada do que é meu! – Esbravejou.

Hela estalou os dedos e Diana caiu de joelhos puxando o ar desesperadamente. Sua garganta queimava. A deusa se aproximou e Diana tentou se arrastar para longe.

– E eu já fiz sacrifícios demais, Diana. Um dia, quem sabe você entenda o que estou fazendo por você, por nós. – Ela sussurrou.

Seus dedos encontraram a barriga de Diana. A moça lutou novamente contra a asfixia e tentou chutar Hela, porém a deusa a jogou no chão. As palavras conjuradoras de Hela fizeram com que a asfixia se fosse e a dor lancinante no ventre de Diana se iniciasse. Ela gritou desesperadamente enquanto lutava em vão. Seu bebê, sua única parte de Loki dentro de si corria perigo.

Diana sentiu sangue escorrer por suas pernas. Ela gritou mais alto e chorou. Seu bebê estava sendo assassinado dentro do próprio ventre. A mão dela se levantou e seu punho se fechou tamanho o ódio. Uma estaca de gelo se formou ali.

***

Allya lutava bravamente contra o pai que já estava se sentindo sonolento pela perda de sangue. Seus reflexos já não eram mais os mesmos. A ruivinha brandia a espada e Naveen tentava se proteger. Em um derradeiro momento os dois foram novamente para o chão e a menina desarmou o pai. A espada dela foi para o peito dele. Seus olhos se encontraram e ela exitou. Por um minuto Naveen pode ver que sua filha ainda estava ali.

Ela franziu o cenho, as mãos tremendo e os nós dos dedos brancos apertavam a espada. Dentro de si a menina gritava. Aquele era seu pai, o seu protetor, seu amigo. O verdadeiro amor. Hela havia dito que iria prová-las e aquela era sua prova. Suas mãos trêmulas desceram e a espada se cravou no coração de Naveen. O homem soltou um arquejo. Seus olhos nos olhos da filha. Lágrimas jorraram pelo rosto moreno dele.

Um estrondo fez com que o salão se silenciasse. Diana havia erguido a mão com a estaca com todo o seu fio final de força, tentou enterrar a estaca no peito de Hela, porém errou por alguns centímetros. O gelo entrou em contado com o Brisings o que o fez explodir em milhões de pedaços vermelhos. Hela gritou quando um caco de rubi atingiu seu rosto. Ela se soltou de Diana que caiu inerte de seus braços. Sangue escorreu por suas pernas. Seu bebê estava morto e agora tudo estava perdido, nada mais seria como antes.

Allya piscou freneticamente e gritou ao ver seu pai com a espada cravada no peito. Seus olhos marejados. Ele respirava devagar. Ela olhou as mãos pintadas de sangue e gritou tão alto que o silêncio pós estrondo foi tomado por outros gritos de agonia. Com a quebra do brisings as mulheres foram libertas de seus transes. E assim, perceberam que seus homens estavam mortos ou completamente feridos.

A ruiva agarrou os ombros do pai e chorou no peito dele. O homem conseguiu levantar devagar a mão e acariciar de leve a cintura de sua pequena guerreira. Ele estava morrendo, sabia disso e Allya também, porém seus olhos se alegraram ao sentir o torpor.

Allya gritava e soluçava. Suas lágrimas molhavam os cabelos e a armadura do pai.

– Shhhhh! – Ele disse com certa dificuldade – Tudo… tudo ficará bem… minha… minha Allya. – Naveen disse em meio a dor.

Allya agarrou mais o pai e chorou baixinho. Seu corpo tremia e ela tentava agarrá-lo como se pudesse fundi-lo dentro de si.

– Papai! Me perdoe! – Ela sussurrou.

– Olhe… olhe pra mim, Allya. – Ele ordenou.

A menina balançou a cabeça envergonhada. Suas mãos. Suas próprias mãos haviam matado seu único amor, o único que realmente havia lhe amado de verdade, cuidado e não tinha abandonado. Agora ele estava indo embora, ele a estava deixando.

– Olhe! – Disse enquanto tossia.

Ela levantou os olhos molhados para ele. Naveen sorriu e ergueu a mão. Seus dedos acariciaram o rosto da filha. Allya deitou a cabeça na mão dele e chorou mais ainda. Suas mãos foram para o rosto do pai.

– Não… perdoar. Não… há o que…. perdoar – Disse entredentes. A dor em seu peito ficava cada vez maior.

A menina chorou. Ele queria dizer que não havia sido culpa dela. Allya não queria matá-lo. Não queria perder o pai, mas havia feito aquilo com as próprias mãos. Sangue jorrava da armadura de Naveen pintando o chão.

– Eu te amo, papai. Eu te amo! – Ela disse desesperadamente ao ver as têmporadas de Naveen se fecharem devagar.

– Eu… também… Ally. – Ele abriu os olhos mais uma vez encontrando os olhos azuis de sua filha. – Eu… amo… – Allya assentiu enquanto chorava.

– Eu sei… – Ela disse – Não fale mais, descanse agora. – Ela disse acariciando as bochechas do pai. – As Valquírias te esperam, para um hidromel brindar. Suas honras… Seus amores e suas lutas serão aceitas. – Allya cantarolou uma conhecida canção de guerreiros.

Naveen sorriu e seus olhos se fixaram acima de Allya. Seu sorriso se abriu devagar. Ele podia ver o teto dourado de Asgard se transformar em um maior ainda e muito mais dourado. Nele havia pinturas das Valquírias brandindo espadas e lanças. Homens ao seu redor lutavam bravamente. O homem ouviu tilintar de espadas e sussurrou pela última vez:

– Valhala! – Disse.

Seu sorriso se abria e seus olhos se fechavam devagar pela última vez naquele mundo e Allya soube naquele momento que seu pai seria recebido na mesa das Valquírias e honrado com danças e música por sua bravura. Os braços da menina se fecharam em torno do pai e ela deitou a cabeça no peito dele e sussurrou:

– Valhala te espera, papai!

***

Diana estava no chão envolta em uma poça de sangue. Ela só podia ouvir os clamores das guerreiras enquanto as imaginava abraçando o corpo inerte de seus amores agora perdidos. As mãos trêmulas da moça foram para sua barriga e ela chorou. Seu amado já não estava mais vivo, e um pedaço dele morreu dentro de si. Hela havia matado os dois. Ela havia tirado as luzes que guiavam Diana para o caminho feliz que ela esperava trilhar.

Hela levantou-se com sangue escorrendo pelo rosto. Ela bradou e bateu novamente a lança no chão. O brisings estava destruído, suas guerreiras caídas pelo amor. Tudo havia sido arruinado. O ódio ferveu em seu sangue e ela conjurou novamente, dessa vez sentiu seus bichinhos, sentiu que eles a haviam ouvido.

– A ruína de vocês é essa! – Ela bradou.

Seu rosto bom agora estava desfigurado pelo corte do rubi. Seus dedos se abriram em garras.

– Agora irão provar o verdadeiro gosto da morte.

Ao dizer aquilo, Hela e todos os outros ouviram o som que as almas fizeram ao entrar correndo pelas portas. As mulheres se colocaram de pé novamente. Lágrimas escorriam de seus olhos, mas as armas estavam em riste e então se puseram a lutar bravamente contra as almas.

Algumas gritavam em desespero por Hela mexer com suas mentes. As almas não eram nada mais do que sombras que a deusa usava e abusava. Ela podia transformá-los na imagem que quisesse e então seus falecidos amores pareciam estar lutando novamente contra elas em busca de vingança por terem sido assassinados.

Diana não sabia quanto tempo ficou ali deitada. Ela queria morrer. Queria ser levada pela escuridão. Não conseguia ter uma centelha de força para se levantar e lutar contra as investidas que Hela fazia. Estava quase acreditando que ela era invencível quando sentiu uma mão segurar a sua. A morena abriu os olhos e encontrou os dourados de Caliel.

– A luta não acabou ainda, minha querida. – Disse em seu lindo sotaque élfico. – Eu disse que iríamos nos reencontrar. – Sorriu.

Diana se forçou a levantar mesmo ainda sem forças. Suas pernas bambearam. Caliel a ajudou.

– O que está fazendo aqui? – Ela questionou.

– Soube que você precisaria de uma ajudinha e trouxe meu exército.

Diana olhou em volta e percebeu que o salão se enchia de elfos praticando magia. Bolas de fogo voavam dizimando as almas negras. Com aquele resultado, os asgardianos se puseram a lutar com mais fervor. Eles pareciam completamente sem esperanças antes porque toda vez que tentavam matar a alma, ela apenas se regenerava novamente.

Caliel levou Diana até a ponta das escadas. Hela havia entrado na batalha e brandia sua lança contra as espadas de Frigga. O ódio faiscava das duas. A elfo passou a mão pelo rosto da amiga e a olhou com uma centelha de pena.

– Ela tirou de mim ele. Tirou de mim o meu bebê e… Loki – Diana balbuciou. Lágrimas ardiam em seus olhos, mas já não desciam por sua face.

– Eu só posso ajudá-la em uma coisa agora, Diana. Vou tentar estancar seu sangramento, isso vai fazer com que se recupere logo e se sinta preparada. Ainda precisamos terminar com essas almas. Você tem que lutar!

– Lutar? Por quê? Pelo quê?! – Ela questionou.

– Você acha que Loki ficaria feliz ao saber que desistiu? Ele está aqui – Ela apontou para o coração de Diana – Ele vive dentro de você, não sente isso? Precisa enfrentar esse momento Diana. Sempre disse que você era especial. Vai jogar isso fora agora? Faça o que tiver que fazer, faça Hela se render! – Caliel encorajou.

Enquanto dizia isso, a elfo passou a mão pelo rosto de Diana. Ela conjurou alguns feitiços e Diana viu seus machucados se regenerarem assim como as almas. O coração dela martelou forte como um cavalo e o sangue correu em suas veias fazendo com que ela conseguisse se levantar.

– Agora é hora de lutar. – Caliel disse.

Diana se afastou dela e pegou a espada. Caliel rapidamente correu para uma alma e lhe lançou bolas de fogo. A morena cortou outras almas, mas elas se regeneravam. Em um movimento desesperado para se proteger, ela acabou congelando uma delas e bateu a espada na alma. Ela caiu em pedaços e não voltou mais.

Assim, Diana e Caliel e os tantos outros soldados começaram a abater as almas de Hela. A morena percebeu que Thor estava cercado. Seu mjonir caído no chão. Diana estendeu a mão e jogou jatos de gelo nos oponentes de Thor. Ele rapidamente entendeu o recado e os quebrou com os próprios punhos. Mais almas tentaram abater Diana e Thor, porém eles lutaram bravamente.

Diana se aproximou de Thor. Os dois ficaram de costas um para o outro. Quanto mais almas eles matavam, mais apareciam. Suas forças estavam se esgotando e mais soldados estavam morrendo. Diana levantou os olhos para o trono e viu uma silhueta se esgueirando. Um capuz a impedia de ver o rosto. O encapuzado se esgueirava por trás até uma alma avistá-la e correr para lutar contra. Assim que a alma se aproximou logo foi abatida e o capuz caiu de sua cabeça.

A morena arquejou ao encontrar aquelas duas gemas esverdeadas. Suas pernas cederam e duas almas se aproveitaram de sua distração. Ela piscou freneticamente. Não podia ser! Aquilo não era real! As almas a abateram. Diana gritou de dor ao sentir uma espada se cravando em sua perna. Uma das malditas estava em cima dela. Seus dedos tatearam o chão e encontraram o cabo do mjonir. Diana olhou para ele e desejou que pudesse terminar toda aquela maldita guerra e ajudar a salvar todos os asgardianos, Frigga, Thor e os guerreiros de Caliel.

Quando suas mãos tocaram o mjonir ela o sentiu tão leve que o puxou. Seu punho se fechou e ela levantou o martelo, congelou a alma em cima de si com a outra mão e bateu tão forte que ela se quebrou em milhões de pedacinhos. Suas mãos tremiam. Ela olhou para a arma de Thor em suas mãos que parecia pesar como uma caneta.

Mais almas correram para ela, e Diana se levantou. Ela ergueu o martelo e um estrondo com clarão atraiu a atenção de todos. Ela estava evocando o poder do raio. Um grito involuntário saiu de seus lábios quando o raio atingiu o mjonir. Diana os abaixou e atingiu as almas com a onda eletromagnética os fazendo virar pó.

Thor arquejou e abateu mais uma alma. Ele olhava boquiaberto para Diana. Ela era digna de levantá-lo! A morena viu Hela e Frigga se distraírem com a cena, porém a deusa da morte aproveitou aquela deixa e correu para a deusa loira com a lança apontada para seu peito. Diana não viu mais nada além daquela cena correr em câmera lenta.

O ódio nela cresceu e então ela se pôs a correr. Acabaria com aquilo naquele exato momento. Ela sacudiu o mjonir e o jogou na direção da deusa da morte. Ao mesmo tempo a silhueta que estava encapuzada correu em uma direção oposto e arremessou a lança certeira no peito de Hela. O mjonir prendeu a deusa no chão enquanto a lança dourada se cravava em sua pele. Sangue negro jorrava dali.

Diana olhou desesperada para a lança dourada e depois e de onde vinha. Ela encontrou os olhos esverdeados de Loki e o cabelo negro desgrenhado. Ele sentiu que os olhos dela estavam sobre ele, mas apenas se aproximou de Hela e arrancou a lança de seu peito. Sangue escorria da boca da deusa da morte. As almas começaram a morrer devagar.

Algumas correram para sua senhora e tentaram, em vão, retirar o mjonir que a prendia no chão. Diana sentiu suas pernas cederem e então ela caiu quando Loki voltou seu olhar para ela. Almas correram para ele e o atacaram. Como um excepcional guerreiro ele exterminou seus oponentes e olhou para Diana que se desequilibrou. Ela iria desmaiar. Como se algo tivesse se quebrado, o deus da trapaça correu para sua amada e a encontrou desmaiada. Ele a pegou nos braços e acariciou o rosto dela.

Uma alma ainda viva tentou empalar Frigga, porém um barulho e um golpe certeiro fez com que ela virasse farelo negro. A deusa correu seu olhar para onde o som veio e seu sorriso se abriu. Odin havia puxado a Gungnir de volta enquanto olhava para a alma com ódio. Ele havia acordado. Ele estava ali.

Frigga correu para os braços de Odin e segurou seu rosto com as mãos. O homem a olhou e sorriu. Ele bateu a Gugnir no chão formando um terremoto. As almas caíram e se transformaram em pó, dando assim fim à guerra que Hela achou que venceria.

Odin se aproximou da deusa e a encontrou engasgando em seu próprio sangue. Ele a olhou tristemente e disse:

– Os deuses a receberão, eles me disseram. Você já se sacrificou demais, Hela. Nenhum de nós merecia o nosso destino, porém fizemos escolhas que nos trouxeram até aqui. Encontre sua paz sendo a alma do Helheim. – Ele disse enquanto passava a mão pelo rosto dela e lhe fechava os olhos vítreos.

Frigga se agarrou à Odin e lágrimas caíram de seus olhos. Hela estava cega de vingança, mas mesmo assim os deuses lhe dariam a colheita do que ela plantou um dia.

– Diana causou isso. – Odin sussurrou.

– A guerra? É claro que…

– Não! Ela deu a paz para a mãe. Assim que Loki foi usado como sacrifício, Diana soube que iria lutar, não somente por ele como por Asgard. Ela fez os deuses se renderem à sua bravura. – Ele sussurrou.

Frigga sentiu lágrimas caírem de seus olhos. Ela se virou para olhar Diana e encontrou Loki, seu filho a segurando no colo. Ele estava ajoelhado e a moça se apoiava na perna dele. Os cabelos iam até o chão.

A deusa correu para o filho assim como Thor ao ver o irmão. Caliel sorriu com aquela cena. O destino de todos havia sido atado ali, naquele momento, sua trajetória finalizada por um motivo: a moça deitada entre as pernas de Loki. Era o dever dela voltar para Asgard, unir aquela família em seu sacrifício para depois receber a paz que lhe cabia.

Loki abraçou o corpo inerte de Diana e encostou a testa na dela. Agora ele sabia que nunca, nunca mais iria precisar deixá-la.

Assim que Diana acordou Frigga e uma animada Jane a receberam. Elas disseram que ela havia dormido por dois dias seguidos e que agora era hora dos guerreiros receberem as honras por terem lutado tão bravamente na guerra da morte. Diana estranhou aquele nome, mas não quis contestar.

Ela se permitiu falar pouco. Sua mente vagueava entre as lembranças dos olhos de Loki no meio da batalha e a última lembrança antes de seus olhos se fecharem. Ele havia corrido para ela e era só isso que se recordava. Não podia ser verdade, Loki tinha morrido dias atrás pelas mãos dela e seu… Seu filho. Ela engoliu em seco enquanto colocava o vestido dourado que Frigga lhe estendeu.

Ao chegar no grande salão que havia sido a guerra, Diana se surpreendeu em como todos arrumaram a improvisada cerimônia tão rápido. Os guerreiros estavam muito melhores e já recebiam as honras quando ela colocou os pés no salão. Ela cruzou os braços tentando em vão proteger seu peito, como se seu coração fosse se estilhaçar em mil pedaços. As atenções foram todas para ela enquanto Frigga e Jane a guiavam para a frente perto do grande trono.

Diana arquejou ao encontrou os olhos de Loki um tanto distantes dela. Ele estava ao lado de Thor próximo a Odin enquanto ele falava sobre a guerra. Loki estava ali, vivo, sem qualquer explicação. Ele havia matado Hela com as próprias mãos e correu para ela como se tivesse matado uma mosca que o incomodava.

Os olhos deles se encontraram e Diana ouviu seu coração retumbar. A morena abaixou os olhos e sentiu as lágrimas se formarem ali. Ela nem conseguia olhá-lo nos olhos depois de tudo que aconteceu. Ela havia enterrado uma estaca em seu peito e o visto morrer em seus braços.

– Diana! – Odin esbravejou e Asgard aplaudiu.

A moça saiu de seu transe e olhou para o rei de Asgard que lhe dirigia um olhar piedoso.

– Nós sabemos de sua bravura, querida Diana. A história de Hela e toda a sua vingança me fez pensar que fazemos escolhas erradas. Trilhamos caminhos tortuosos até o mal. Eu escolhi errado ao matar Yves, amaldiçoar Hela e tirá-la dos braços de sua família. – Odin apontou para a Diana – Mas são escolhas. O destino escolheu isso para todos nós para que finalmente chegássemos até aqui. Então eu me pergunto, será que se tivéssemos escolhido agir com mais bondade e resiliência tudo teria mudado?

Não temos certeza mais de nada nesse momento. Sabemos que escolhas foram feitas por nós. Homens e mulheres se perderam nesse caminho por sua bravura e vontade de resgatar o que é nosso por direito. Hoje eu quero homenagear a bravura e coragem de nossos guerreiros, mas principalmente de uma pessoa: Diana.

Você chegou aqui trazida pelos deuses, eles me disseram isso enquanto estive em meu sono. Por muitas vezes achei que eles a haviam trazido para o caos, porém eles só me diziam uma palavra: Redenção. Seu propósito aqui foi a pura e simples redenção. Você fez um malfeitor se render, fez a terra se render e fez a morte se render ao seus pés com a bravura. Em momento algum você desistiu de sua luta, é claro que deve ter sentido vontade de abandonar, porém aqui está. E agora eu digo a você: você fez Asgard se render.

Os asgardianos gritaram em concordância com seu rei. Diana sentiu lágrimas arderem em seus olhos. Ela nunca quis que ninguém se rendesse aos seus pés, não queria que a morte se rendesse e que mesmo rendida, levasse tantos com ela. Ela nunca quis que Loki se rendesse à ela e sim que mudasse por si mesmo.

– O amor! – Freyja apareceu de repente arrancando arquejos do povo – O amor que tem dentro dela fez com que todos esses se rendessem: um pelo o amor, os dois outros pelo poder e agora… pelo amor novamente.

Frigga subiu as escadas e abraçou a imagem brilhante da deusa. Ela abraçou gentilmente a irmã e continuou:

– Eu disse que você teria um destino pela frente, Diana e que você estaria livre dele. Suas escolhas a partir de agora são totalmente suas, mas quero que se lembre que o amor a fez pertencer. Você sabe, seu coração sabe que pertence a algum lugar e os deuses querem que você escolha. Agora eu sou a senhora do amor, o amor encarnado. Hela matou meu corpo físico, mas minha alma é eterna e está com os deuses. Agora irei guiá-los através de seus corações pelo amor que o destino lhes reserva. E você Diana, pode escolher o seu destino agora.

As honras aos guerreiros começaram. A morena recebeu um enorme colar de pedras preciosas e assim que a cerimônia acabou, todo o povo se disperçou. Frigga e Jane deixaram a morena sozinha. Ela se afastou para o seu quarto e pensou seriamente nas palavras de Freyja. Ela pertencia a duas coisas que lhe foram tiradas. Ela não poderia ter Loki mais mesmo com seu coração batendo e ele vivo no quarto perto do dela.

A vergonha e o sentimento de culpa por tudo o que aconteceu envolviam seus ombros. Seu filho estava morto. Sua felicidade se rendeu ao terror e o caos que ela mesmo causava por onde passava. A moça passou as mãos pelo rosto e saiu correndo do palácio. Ela passou pelas ruas e encontrou a estrada que a levava para a Bifrost. Não podia ficar em Asgard, não podia ir para a Terra. Ela não pertencia a lugar algum.

Seus pés tocaram a Bifrost e ela andou mais rápido. Todas as lembranças da guerra, o momento em que Hela matou seu filho tomaram sua mente e ela chorou. As lágrimas ardiam em seus olhos e pareciam estar se esgotando. Não havia mais água em seu corpo para escorrer por seus olhos. Seus pés descalços se arrastaram pela ponte colorida

O mar lá embaixo rugiu e ela o observou. Ele era livre, tempestuoso e pertencia ali. Tudo dentro dele lhe pertencia. Ela queria se sentir assim, mas somente tinha a certeza que era um ser irremediavelmente quebrado por dentro.

– Diana! – A voz de Loki interrompeu seus pensamentos.

Ela olhou para trás assustada e encontrou os olhos dele. Seu coração doeu. Deus, como ela o amava. Ela sabia que o amava e queria correr para os seus braços, porém seu corpo não a obedecia. Sua mente havia criado o maldito e conhecido muro de sempre. Ela tinha medo de perdê-lo novamente, de causar algum mal e a morte voltar para carregá-lo de seus braços.

– O que está fazendo?

– O que acha que estou fazendo? – Ela gritou para ele – Eu não pertenço a lugar nenhum. Não posso ficar aqui.

Loki franziu o cenho. Ele sentiu seu peito se encher de raiva e um calor. O amor emanava dentro dele, porém ele se irritou profundamente com Diana. Como ela ousava blasfemar daquela forma.

– Como ousa dizer isso? – Ele se aproximou dela com o dedo em riste – Você está se escutando?

Diana se afastou dele e virou as costas.

– Você não foi a culpada por aquela morte, Diana. Eu arquitetei um plano, eu sabia o que aconteceria. Os deuses me visitaram enquanto fiquei preso e eles me deram uma opção: me sacrificar por você ou então não ceder e acabar com todo o seu destino, o nosso destino. Depois de muito pensar eu me sacrifiquei. Era o mínimo que eu podia fazer depois de todas as vezes que você se sacrificou por mim. Você tem feito isso desde que chegou aqui. – Ele esbravejou.

Até mesmo para uma declaração como aquelas, Loki esbravejava, dizia tudo isso com a fúria rasgada em seu peito.

A morena fechou os olhos. As lágrimas correram por seus olhos.

– Eu me recuso a deixá-la se sacrificar por mim novamente. Eu me recuso a deixá-la ir porque dessa vez, eu sei que não pertenço a droga de lugar nenhum, eu pertenço a você e você igualmente me pertence Diana O’connor.

O gigante de gelo deixou as palavras fluírem por seus lábios a primeira vez. Ele nunca foi de dizer o que sentia, de abrir o coração, mas sentia que por ela ele devia fazer aquilo. Diana merecia escutar que ele se sacrificaria quantas vezes quisesse para lhe salvar e acertar o destino caótico que eles tinham.

– Eu me recuso a deixar minha redenção se esvair assim, Diana. E é isso que você é: minha redenção. – Ele esbravejou e disse pausadamente a última palavra.

A morena escutava tudo aquilo de olhos fechados. Seus joelhos e mãos tremiam. Ela não pode conter seu corpo e se virou para ele. Seus olhos se abriram e ela encontrou Loki de joelhos aos seus pés, ele estava literalmente rendido. Lágrimas lavaram o rosto de Diana e ela aceitou todos os sentimentos que estava tentando empurrar para dentro de si. Ela não pertencia a lugar algum, somente a Loki. Seu lugar era onde ele estivesse e seria assim para sempre.

Karol

Jovem com alma de criança. Cabeça nas estrelas, pés no chão e olhos no céu. Escritora amadora nas horas vagas e sonhadora em tempo integral.