Redenção – Presa – 2

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Google+ 0 Filament.io 0 Flares ×

A consciência me tomou de forma devagar e isso fez com que minha cabeça doesse de uma forma quase insuportável, imagens de um pesadelo tomaram meus pensamentos trazendo à tona aquela criatura de armadura dourada e olhos assustadoramente da mesma cor. Depois disso outras criaturas com elmos de chifres correndo atrás de mim e eu revidando da forma que podia.

Mas espera um pouco por que diabos minha cama está balançando? Estava quase ficando enjoada até que lembrei que tudo aquilo não foi um sonho, na verdade aconteceu tudo antes que a escuridão tomasse conta de meus fracos sentidos. Não era para eu estar morta?

Abri meus olhos rapidamente e minha respiração se tornou ofegante quando percebi que não estava na minha cama e sim nos braços de um soldado brutamontes e barbudo, que disse em deboche por cima do ombro:

– A princesinha guerreira acordou. – Olhou pra mim e soltou uma risadinha irônica. – Vamos para seus aposentos reais.

Levantei minhas mãos de forma apressada e para meu desgosto estavam presas em um tubo também dourado. Uma ideia veio a minha mente, juntei minhas forças e bati com o tubo no rosto do soldado brutamontes que me largou no chão surpreso. Minhas costas protestaram e eu soltei um grunhido de dor, me apoiei de qualquer jeito sob a maldita algema e me levantei vacilante e me pus a correr, ouvi grunhidos atrás de mim e uma voz gritando:

– Peguem essa midgardiana rápido e a coloquem na cela, ela te bateu com a própria algema, se tivesse uma espada empunhada teria tomado o reino.

Olhei por cima do ombro e percebi que o brutamontes esfregava a mão no nariz que estava muito vermelho e sangrava, o sorriso de satisfação veio rapidamente ao meu rosto e permaneci correndo, mas aonde aquele corredor me levaria? Eu podia estar entrando cada vez mais no calabouço e por isso não havia muito esforço dos soldados atrás de mim, entrei em outro corredor e assim que a luz forte me atingiu o lugar começou a girar, droga isso não era hora para desmaios.

A gritaria começou quando parei diante daquele corredor tentando fazer com que aquela vertigem parasse. Acho que fui atingida na cabeça brutalmente e por isso não conseguia organizar os pensamentos e agir com clareza, e com aquele maldito barulho não estava adiantando. Foi ai que me dei conta de que as criaturas presas no local estavam olhando e gritando pra mim, qual era o problema daquela gente? Onde eu estava?

O medo começou a se instalar em meu corpo, os assobios eram altos e eles gritavam coisas em uma língua que eu não entendia, olhei para baixo tentando entender por que diabos eles estavam tão atiçados e então me dei conta de que estava com meu vestido preto que batia dois dedos acima do joelho, ele contornava meu corpo e era rodado nas pernas.

Por que não escolhi uma maldita calça jeans larga e uma blusa também larga? Eu não sabia que iria parar em um lugar maluco, estava comemorando meu aniversário, nada mais justo do que me arrumar. O meu rosto se transformou numa carranca de ódio, se tinha uma coisa que eu não suportava era homens que assediam as mulheres por causa de uma roupa curta e pelo jeito aquele lugar era cheio deles. Ótimo lugar para me enfiar.

Um dos soldados entrou no local correndo com meu cobertor de florzinhas nas mãos, eu precisava fugir de alguma forma, estava desesperada e olhando pra trás tentei me desvencilhar das mãos do soldado mediano. Comecei a andar de costas até que bati com algo que me causou um choque não muito forte, mas o bastante para me fazer pular de susto.

Me virei rapidamente dando de cara com um homem alto, seu corpo era forte, mas não exageradamente, seus cabelos eram negros como as asas de um corvo e pendiam na altura dos ombros. Era branco não do tipo doente, pois possuía um tom corado no rosto, trajado com uma cota verde com dourado e calças escuras que pareciam muito finas para um mero prisioneiro.

Estava sentado em uma espécie de divã preto com um livro nas mãos, seus olhos concentrados, mas seus lábios franzidos em uma linha fina que representava irritação. Fiquei parada igual a uma tonta na frente daquele campo de força que o prendia ali. Aquele homem era a criatura mais linda que eu já tinha visto em vinte e quatro anos. Percebendo que estava sendo observado levantou seus olhos verdes como duas esmeraldas, e íris negras para mim. Se eu já estava perdida, imagine agora?

Pude perceber que seus olhos demonstravam curiosidade, tanto quanto os meus deveriam estar refletindo. O barulho no local ficava cada vez mais insuportável, as criaturas batiam com copos nas mesas e gritavam para mim me deixando desnorteada. Eu acho que poderia ter desmaiado, mas não podia desviar o olhar dele, minhas pernas pareciam gelatina e ainda assim continuavam me sustentando.

O homem se levantou e deixou o livro sobre a mesa. Seu andar era lento e intenso como seus olhos, que também não se desviavam do meu, quando chegou perto do campo de força, enfim desviou o olhar do meu me fazendo soltar um suspiro de desaprovação, porém o melhor estava por vir quando ele decidiu falar:

– Soldado, faça alguma coisa e cale a boca dessas criaturas desprezíveis. – Sua voz era forte, porém melodiosa e rouca e cheia de irritação o que fez meu corpo inteiro se arrepiar.

O soldado apenas assentiu rapidamente fazendo uma careta de desaprovação e apertou um botão perto da porta escurecendo as celas dos baderneiros, deixando-os impossibilitados de nos ver, apenas duas ficaram abertas. Os grunhidos de desaprovação e xingamentos em outra língua começaram a se tornar inaudíveis e então o homem voltou seu olhar para mim, dessa vez não reprimindo a curiosidade. Franzi as sobrancelhas tentando entender o que era tudo aquilo e então senti um puxão nada gentil nos braços, era o soldado mediano loiro, de olhos muito azuis, tentando trazer minha atenção para ele. Jogou o cobertor em minhas costas e me arrastou para a cela do outro lado, ainda mantinha meus olhos no homem e percebi que ficaria de frente para ele, até que não era tão ruim estar presa e ter aquela visão maravilhosa.

Mas espera um pouco, eu deveria saber o porquê de estar sendo presa e ter direito a meu advogado que deveria aparecer da Cochinchina, mas tinha que me tirar daqui. Eu precisava dar aulas, voltar para Manhattan e pagar minhas contas.

Desviei meus olhos do homem de verde a minha frente e puxei minhas mãos de volta de forma bruta, o soldado ergueu os olhos para mim de forma irritada e me empurrou para a cela arrancando os malditos tubos que prendiam minhas mãos, elas estavam vermelhas e doloridas. Ele saiu de dentro da cela e apertou um botão ao lado descendo o campo de força.

– O que diabos eu estou fazendo aqui? Eu tenho direito a uma ligação para meu advogado, me tire daqui agora seu desgraçado. – peguei uma caneca que se encontrava na mesinha da cela e joguei contra o campo de força. Nada aconteceu.

– Chega de falar, midgardiana. – Disse ele bufando e atraindo a atenção do deus grego a minha frente.

– Você poderia parar de me xingar em uma língua que eu não conheço? É desrespeitoso e você deveria agir como um cavalheiro não acha? – Disse irônica fazendo o homem da cela ao lado soltar um risinho fraco.

– Eu seria um cavalheiro se talvez você se comportasse como uma dama e não tivesse batido nos soldados na Bifrost e quebrado o nariz do guerreiro que te trouxe para cá. – Disse cheio de veneno e me lançando um olhar raivoso. – Você está aqui porque é midgardiana e também pela forma agressiva que chegou à Asgard, o Pai de Todos decretou sua prisão até a decisão que  irá tomar sobre você.

– Asgard? Pai de Todos? Bifrost? Deus, aquele vinho com certeza tinha heroína. – O soldado me olhou como se fosse maluca e saiu do recinto balançando a cabeça e falando consigo mesmo.

Encontrei uma cama dentro da cela e me joguei na mesma me cobrindo inteira com o cobertor como se fosse um manto protetor e então o desespero tomou conta. Eu estava em Abard, ou sei lá o que, nunca tinha visto um nome como aquele nos mapas e então significava que eu me localizava em outro planeta, ótimo, como diabos eu vim parar aqui sem um foguete?

As lágrimas começaram a molhar meu rosto e meus soluços foram ficando cada vez mais alto, droga de ataque de pânico. Respirei pelo nariz e soltei pela boca tentando me acalmar sem êxito, começou a ficar quente demais debaixo daquela coberta e estava com a impressão de estar sendo sufocada. Levantei-me rapidamente da cama me jogando no chão perto do campo de força, puxei meus joelhos perto do tórax em uma forma idiota de me proteger. Meus soluços estavam altos demais, não gosto de chorar, mas quando tenho alguns ataques é quase inevitável e devido o que estou passando neste momento era quase certeza de que eu teria um ataque de pânico.

Ouvi um pigarreio a minha frente e levantei meus olhos para o homem da cela a frente e ele estava com as mãos para trás observando minhas ações com um misto de confusão e surpresa.

– Continue respirando dessa forma e solte os braços, relaxe os músculos do corpo e feche os olhos. – Disse de forma autoritária.

Minha respiração acelerou ainda mais fazendo com que minha pulsação me deixasse quase surda, minhas mãos apertavam com força as pernas e meu maxilar estava travado, eu ia ter um colapso e então decidi respirar fundo algumas vezes fazendo um esforço para responder:

– Por que eu deveria te obedecer? – Disse de forma irônica levantando as sobrancelhas.

– Talvez porque você está quase tendo uma síncope na minha frente e não me sinto à vontade com esse tipo de coisa? – Disse ele em um tom irritado.

– Eu estou bem, não pre…

Midgardiana teimosa. – Rosnou ele indo direto para a cama da cela e se jogou na mesma olhando para o teto.

– Por que todos me chamam de mibidiana? Vocês deveriam ser mais educados. – Disse entredentes tentando me acalmar. Ouvi a sua risada o que fez meus músculos tensos relaxarem.

– É midgardiana e não é considerado um xingamento como você diz, é sua naturalidade de Midgard ou a Terra como vocês a chamam. – Disse de forma tediosa.

– Por que não me chamam de terráquea então? Eu hein, nomes difíceis.

– Vejo que está quase melhor. – Disse pegando o livro preto com o título em letras douradas e se concentrando nele.

Respirei fundo mais algumas vezes e fechei os olhos tentando absorver tudo o que estava acontecendo ao meu redor, as lágrimas não paravam de molhar meu rosto. Dá pra acreditar que estou em outro planeta e ainda fui presa no dia do meu aniversário? Às vezes me pergunto por que eu fui nascer um imã para problemas, porque é isso que sou.

– Hoje é meu aniversário e eu estou presa em maldito planeta que não faço ideia de como cheguei, não queria ser uma ameaça. Eu só quis me defender dos soldados e tentar explicar a situação pro minotauro dourado. – Disse fungando e limpando as lágrimas que desciam constantemente.

Os olhos do charmoso homem se levantaram do livro e fitaram meus, pude ver um brilho de deboche o que me irritou profundamente.

– Você não é uma ameaça, é humana. – Disse como se eu fosse o ser mais desprezível que ele já teve o desprazer de conversar. – Odin acha que é uma ameaça por coisas que aconteceram há um tempo em Asgard, mas é só olhar para você neste momento e perceber o quanto é vulnerável, isso é totalmente irrelevante para mim.

Depois de dizer tudo aquilo me deixando completamente para baixo voltou a se concentrar no maldito livro que lia, então é assim? É fato de que o que ele tem de beleza tem em dobro de arrogância e um ego que poderia estar me sufocando agora mesmo de tão grande. Bufei alto revirando os olhos, eu não suporto pessoas mesquinhas.

– Não diga como se fosse melhor que eu, Alteza. – Soltei minha farpa ironicamente.

– Na verdade, eu sou. – Disse levantando uma de suas sobrancelhas e focando novamente em mim. – Eu sou um deus e também um dos príncipes de Asgard, deveria mostrar respeito.

– Se é um deus e um príncipe tão renomado assim, o que está fazendo nessa cela? Talvez sua reputação seja muito pior que a minha não acha? – Cutuquei de volta.

Seus olhos se reviraram demonstrando tédio, ele puxou o livro tampando a visão de seu rosto. A resposta era clara: nossa conversa tinha acabado ali.

Voltei para a única coisa que me pertencia dentro daquela maldita cela e me cobri até a cabeça novamente, as tochas dentro do recinto foram se apagando lentamente nos deixando na completa escuridão. Se antes eu achava que estava completamente perdida e ferrada, agora eu tenho a total certeza disso.

Karol

Jovem com alma de criança. Cabeça nas estrelas, pés no chão e olhos no céu. Escritora amadora nas horas vagas e sonhadora em tempo integral.