Redenção – Yves parte I – 42

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Fogo se alastrava por todos os lugares. Me encontrei em uma floresta coberta por neve, e lá na frente havia uma árvore com uma mulher amarrada. Seus cabelos balançavam pelas rajadas de vento. Ela parecia estar desacordada, sangue escorria de seus pulsos e de sua testa.

Cheguei mais perto para observar seu rosto. Ela parecia com Frigga. Toquei sua jugular a procura de batimentos. Nada! Ela estava morta.

Meu coração retumbou em meu peito. Fiquei desesperada. Por que eu estava tão desesperada pela morte daquela mulher?

– Freyja… – sussurrei tirando seus cabelos dos olhos.

Freyja?

Olhei em volta. Eu estava perto da mulher minutos atrás, e agora observava a cena de longe como se fosse uma espectadora observando minha própria história. Fechei meus olhos e apertei as têmporas com os dedos.

– O que estou fazendo aqui? – sussurrei olhando em volta novamente.

De repente ouvi barulhos de patas pesadas no chão. Algumas árvores ao longe começaram a cair. Me desesperei ao ver aquilo, e a Diana que entrava em ação na cena também. Ela arrancou da bainha no quadril uma espada dourada e bateu nas correntes da mulher loira. As correntes caíram com um baque no chão, e a Diana da cena agarrou a moça e gritou.

– Loki! – ela gritou.

Olhei em volta em desespero. Por que estava gritando por Loki? Onde estávamos? Seria um sonho? Ou melhor dizendo um pesadelo? O urro gutural me fez pular de susto assim como a Diana da cena. O animal enorme apareceu entre as árvores as derrubando e cuspindo fogo.

Gritei em desespero e cobri meus olhos com os braços.

De repente a quietude tomou o lugar. Ainda tremendo afastei meus braços dos olhos para poder ver onde estava. Percebi que era um local escuro. O cheiro de pólvora me fez torcer o nariz. Dei um passo para a frente e uma coluna caiu lá na frente. Um clarão de janelas quase me cegou. Atrás de mim apareceram pessoas que corriam e gritavam em desespero.

Uma mão me puxou bruscamente para perto das janelas. Olhei para trás. Meus cabelos cobriram os olhos, porém entre os pequenos vãos pude ver Thomas.

– Diana!

Ele gritou antes de ser engolido pelo desabamento do teto. Eu tentei gritar, porém minha voz não saía. Senti que estava sendo puxada para longe do caos. Lágrimas quentes escorreram de meus olhos. Me choquei contra as vidraças e caí. Fechei os olhos esperando pelo baque que seria meu corpo caindo no chão. Esperei, esperei e esperei, mas nada veio.

Abri meus olhos e encontrei meu quarto. O quarto luxuoso que estou hospedada em Asgard. Olhei em volta. Um aperto em minha cintura me fez franzir o cenho. Me remexi devagar e encontrei Loki agarrado a meu corpo. Seu rosto descansava tranquilamente em meu ombro.

Virei-me para ele devagar e me aconcheguei mais em seus braços, parecia ainda ser madrugada, afinal o ar dentro do quarto estava gelado. Havíamos deixado a porta da sacada aberta. Encostei meu nariz em seu pescoço e respirei fundo tentando entender a linha de meus pesadelos.

O último me lembrava com clareza. A morte rápida e inesperada de Thomas deixou meu subconsciente traumatizado, mas e aquele dragão? Aquela mulher loira que se parecia tanto com Frigga? Será mesmo que aquilo havia sido real? Minhas memórias estariam voltando?

Suspirei e fechei os olhos sentindo o cheiro de Loki. O aperto em minha cintura era reconfortante e ele ressonava tranquilamente em meus braços. Eu, realmente, estava precisando daqueles momentos de paz, no entanto algo me dizia que não duraria por muito tempo. Minhas memórias estavam voltando, e de alguma forma eu teria que encontrar a razão de estar aqui.

Todos aqueles pensamentos, sonhos e questionamentos me fizeram entender que não, eu não conseguiria dormir mais. Mesmo com Loki me abraçando, e a aura de calmaria envolver todo meu quarto o caos estava dentro de mim.

Me desfiz devagar do abraço de Loki e saí da cama a procura de meu robe. Ele estava jogado no chão. O peguei e vesti. Me aproximei da porta da sacada e a fechei, porém antes espiei a noite de Asgard. Tudo estava em uma calmaria total.

– Talvez o caos seja eu. – sussurrei.

O livro sobre as histórias de Asgard me chamou atenção em cima da poltrona vermelha. O fogo crepitava na lareira. Sentei-me na poltrona e folheei o livro. Loki e eu havíamos lido metade dele, mas não tínhamos achado nada que pudesse dizer algo sobre mim, ou sobre alguém como eu naquelas histórias. Eu dizia a ele que não queria saber de onde realmente vim, no entanto nós dois sabíamos que eu estava blefando.

Eu devia ter pais, em algum lugar, afinal os que eu achava que eram meus pais, na verdade, me encontraram em uma nave. Olhei em volta e encontrei minha mala. Ali dentro estava a carta de minha mãe. Pensei em pegá-la, porém desisti. Eu havia memorizado cada palavra.

Marcas estranhas no chão… – sussurrei.

Só podiam ser runas. Runas iguais Loki e Thor deixavam em Midgard depois de se teletransportarem através da Bifrost. Folheei mais o livro e encontrei a história de Heimdall e da ponte do arco-íris. Sorri ao ver um desenho muito bem feito do guarda da ponte, e também do grande globo de ouro onde ele vivia.

Passei as histórias já lidas, no entanto parei na Grande Guerra entre Jotunheim e Asgard. Loki havia me dito tudo o que sabia sobre a guerra, e principalmente sobre ele ter sido levado por Odin. Eu sempre lhe perguntei o porquê de todo o desentendimento e sangue derramado, e Loki apenas me dizia que eram motivos políticos. Odin e Laufey brigavam como cães e gatos à procura de quem seria o senhor de toda a Yggdrasil.

Mas é claro que Odin ganhou o título. A Gungnir estava em suas mãos, e os melhores cavaleiros eram os asgardianos, e assim Asgard triunfou sobre Jotunheim. Loki se tornou um ‘’prisioneiro de guerra’’ como costumava dizer, e a paz tomou os nove reinos.

‘’Um jovem gigante de gelo, Yves, o melhor amigo de Laufey. O irmão que nunca tivera…’’

Opa! Aquela história eu ainda desconhecia.

– Yves… – sussurrei seu nome.

Um barulho atrás de mim me fez fechar o livro de capa dourada, assim como tudo em Asgard. A mão quente de Loki encostou em meu ombro. Fechei os olhos sentindo o carinho bom que ele fazia em minhas costas.

– Por que você nunca me dá o prazer de acordar ao seu lado? – ele abaixou-se até a minha orelha e sussurrou.

Os pelos de minha nuca se eriçaram ao ouvir sua voz e meu coração bateu forte apenas com o toque de suas mãos em minha pele. Não importa quantas vezes ele coloque suas mãos sobre mim, eu sempre vou sentir uma espécie de choque elétrico, uma energia, a sensação maravilhosa de tê-lo por perto.

Virei-me para ele e encontrei seus cabelos negros emaranhados, as duas gemas esverdeadas me encaravam. Um sorriso torto emoldurava seus lábios. Ele parecia ter acabado de sair de um dos meus melhores devaneios.

– Desculpe… – sussurrei – Eu tive um…

– Pesadelo, eu sei. – ele sorriu e suas mãos agarraram minha cintura de forma gentil.

Antes mesmo que eu pudesse protestar, Loki me ergueu em seus braços e me aninhou em seu peito. Me surpreendi com tal gesto, pisquei os olhos rapidamente tentando voltar ao planeta Terra, ou melhor dizendo Asgard. O calor que emanava dele era convidativo, tão convidativo que não consegui me afastar, apenas me aconcheguei mais em seus braços sentindo a mais pura segurança que nunca havia experimentado.

– Como sabe que eu tive um pesadelo?

Ele se afastou das poltronas e se sentou na cama me levando com ele. Me remexi para sentar na cama, porém sua mão segurou minha cintura gentilmente.

– Tudo bem… Fique aqui! – Seu braço envolveu-me.

Sorri para ele e encostei minha cabeça em seu pescoço.

– Seu sono estava inquieto, murmurava algumas palavras e até mesmo o nome do maldito…

– Thomas. – completei

Loki fez um barulho com a boca em desaprovação.

– Eu só gostaria de ter minhas memórias de novo. Esses sonhos me deixam ainda mais confusa.

Loki se calou por algum tempo. Franzi o cenho. Qual teria sido o motivo de seu silêncio? Levantei minha cabeça e encontrei seu olhar. O moreno fitava o fogo crepitar na lareira. Seu maxilar travado.

– Algo o incomoda. O que é?

Ele forçou mais ainda seu maxilar e fitou meus olhos.

– Eu vi seu sofrimento pela mente dele. Eu vi desde o começo. Desde o momento que ele colocou os olhos em você.

Prendi minha respiração. Eu me lembrava sim até o momento em que eu comecei a trabalhar para a empresa do pai de Thomas. Nós estávamos bem, havia uma viagem que fizemos para a Síria, ficamos lá por algum tempo. Uns três meses no máximo e depois retornamos, e aí minhas lembranças começam a ficar confusas.

– A única coisa que eu me lembro com clareza é de minha vida antes de Thomas, a morte de meus pais e uma viagem que fizemos para a Síria.

Ele ficou em silêncio. Afastou seus olhos de mim e observou o fogo novamente. A marca em seu rosto demonstrava a forma que ele pressionava os dentes um no outro como se descontasse todo o ódio em seus molares.

– Você não vai se lembrar dessa conversa, mas uma vez eu lhe perguntei se sabia que eu havia ido até Midgard e… tinha feito um belo desastre por lá, – Loki disse e soltou um riso pelo nariz – e você disse que não sabia, que nunca tinha ouvido falar de mim.

Franzi o cenho. Se Loki tivesse aparecido em New York fazendo um belo estrago eu deveria saber.

– Eu não… eu nunca soube que você esteve em… isso é por causa de Thomas e da HYDRA. Maldito soro.

– Não! Mesmo antes disso tudo. Antes de lhe tomarem as memórias você não sabia que eu estive lá, e então eu o questionei. Eu arranquei dele até último fio de informações do que ele fez com você e…

Me afastei de Loki e sentei-me em sua frente. Segurei seu rosto em minhas mãos.

– Eu quero saber! – sussurrei para ele. – Eu quero minhas memórias de volta.

Loki me lançou um olhar desesperado e respirou fundo. Suas mãos seguraram as minhas. Ele as retirou de seu rosto e  desviou o olhar.

– Não quero que passe por aqueles momentos novamente.

Mordi o lábio inferior, Loki não deveria decidir se eu deveria ter ou não minhas memórias de volta. Elas são minhas e eu preciso delas de volta.

– Não cabe a você decidir isso. – disse firme e irritada.

Loki franziu o cenho. Levantei-me e me afastei de suas mãos. A cama estava quente e aconchegante, e nem preciso dizer sobre os braços dele, porém toda aquela negação para me dizer o que tinha visto na mente de Thomas me intrigava. Ele trincou os dentes e se aproximou da beirada da cama. Seus olhos se arregalaram um pouco tentando esconder a surpresa e algo a mais que não consegui captar.

– Eu não quero que sofra com todas aquelas memórias novamente e você fica irritada? – ele se levantou da cama e se aproximou de mim.

Franzi o cenho e olhei em seus olhos. Ele não parecia ofendido como fazia soar, mas parecia estar com medo de algo, preocupado.

– Loki… – disse me aproximando mais dele fitando seus olhos – O que está escondendo?

Perguntei rapidamente ainda observando suas expressões. Eu não me lembrava do tempo que passamos, mas sentia que conhecia muito bem suas expressões, principalmente quando tentava mentir pra mim. O deus da trapaça não conseguia mais jogar comigo.

O homem mordeu de leve o lábio inferior, tão discretamente que seu eu não o estivesse observando minuciosamente deixaria passar. Soltei um suspiro longo e me afastei indo até a poltrona, peguei o livro e o abracei a mim, corri meus olhos pelo quarto e encontrei minha pequena pantufa rosa. Segui até ela e calcei meus pés.

– Onde você… – ele disse se aproximando.

Me afastei dele e pus a mão na maçaneta da porta.

– Quando decidir ser sincero comigo, e me contar o que diabos está acontecendo me procure. – disse firmemente enquanto abria a porta dourada de meu quarto.

Saí do aconchegante quarto e dos braços de Loki sem qualquer arrependimento. Não fazia sentido termos passado por tanto e não receber um pingo de sinceridade. Fechei a porta e encontrei os olhos de Loki. O moreno estava parado onde eu o havia deixado e seu olhar tentava esconder o desespero ao me ver sair por aquela porta. Aquilo, com certeza, se repetiria se não houvesse sinceridade entre nós.

Passei pelo corredor dourado sem me importar se estava ou não de pantufas rosa e muito menos enrolada em um robe negro que o maldito asgardiano havia me dado como presente pela última vez. Me afastei mais do quarto, no entanto, olhei para trás na esperança de vê-lo correr atrás de mim para resolver tudo. Não havia mais ninguém além de mim no corredor. Engoli em seco tentando de todas formas fazer com que o sentimento de decepção momentânea passasse.

‘’Um jovem gigante de gelo, Yves, o melhor amigo de Laufey. O irmão que nunca tivera. O Gigante de Gelo lutou ao lado de seu Rei, e amigo, em muitas guerras, era seu escudeiro mais fiel.

Yves e Laufey passaram por muitos reinos em busca da colonização, ele acreditava que seu Rei poderia ser o Senhor da Yggdrasil e que os dois conquistariam súditos, riquezas e muito poder.

Yves, infelizmente, não pôde ver seu sonho ser concretizado, pois morreu na Grande Guerra entre Asgard e Jotunheim…’’

Passos interromperam minha leitura, estava encostada em balaústres. Havia passado pelo grande salão onde costumavam fazer festas, encontrei uma grande porta aberta e subi para uma espécie de terraço onde pude ver os limites de Asgard, a bifrost, o globo de ouro onde Heimdall ficava e também o grande mar furioso.

Aquele local não me era estranho, parecia que eu já havia estado naquele lugar. Dei de ombros com aquele pensamento, talvez eu já tenha estado mesmo. Olhei sobre meus ombros e encontrei uma figura loira se aproximando. Frigga. A deusa estava enrolada em um robe fino e vermelho. A cor fazia contraste com sua pele branca e os cabelos extremamente loiros. Ela parecia não estar tendo uma boa noite assim como eu.

– O que faz aqui essa hora, querida? – ela se aproximou e afagou meu braço carinhosamente.

– Perdi o sono. – murmurei.

Olhei para o livro apoiado nos balaústres.

– Yves… – Frigga sussurrou lendo o pequeno texto que apresentava o amigo do Rei de Jotunheim.

Ela se aproximou mais do livro e observou a história. Seu olhar parecia um pouco preocupado, mas deduzi que se devia ao fato dela estar acordada e não o fato de eu estar lendo as histórias antigas de Asgard e toda a Yggdrasil. Um silêncio constrangedor me fez trocar o peso do corpo. Me remexi e puxei mais o livro para mim e o fechei. Frigga levantou seus olhos para mim, a deusa me parecia um pouco preocupada e reflexiva ao me ver com o livro em mãos. Franzi o cenho, o que diabos estava acontecendo com esses asgardianos?

– É um ótimo livro. – Sorri amarelo tentando puxar assunto.

Ela demorou um pouco para me responder, parecia mergulhada em pensamentos.

– Sim, é! – Ela sorriu para mim, porém aquele levantar de lábios não me convenceu.

– Algum problema, Frigga? A senhora me parece estar cansada ou preocupada. – disse ainda sorrindo, no entanto dessa vez verdadeiramente.

– Apenas preocupações, minha querida. – Ela sorriu de volta apreciando minha pergunta, pude ver que o carinho entre nós era recíproco. – Coisas de Rainha. – Ela suspirou.

– Hmmmmm… – Suspirei e fitei a paisagem da quieta Asgard naquela madrugada fresca.

– O que te incomoda? – Ela se aproximou e apoiou o braço em meu ombro me trazendo para um pequeno abraço.

– Ando tendo pesadelos terríveis, quero minhas memórias de volta e… – suspirei – Loki parece estar me escondendo algo.

A mulher loira enrijeceu de leve ao meu lado, porém logo tratou de se acalmar. Franzi o cenho mais uma vez. Frigga suspirou e acariciou meus cabelos como minha mãe costumava fazer nas noites em que eu não conseguia dormir.

– Loki sempre foi difícil, querida. Você, mesmo não se lembrando, sabe disso e chegou até aqui, chegou tão longe para desistir agora? Você é a pessoa que ele mais se sente à vontade desde que nasceu. – Ela olhou para mim e sorriu – Ele a ama e se algo o estiver incomodando tenha certeza que recorrerá a você.

Após dizer aquilo acariciou meus cabelos mais uma vez e suspirou. A deusa me parecia verdadeira ao dizer aquilo, mas o seu tom de esperança não estava ali. Ela parecia tentar convencer mais a si mesma do que a mim. Me aconcheguei em seu braço e deitei minha cabeça em seu ombro.

– Eu quero acreditar que sim. – murmurei desacreditada. – Eu adoraria ter minhas memórias de volta.

Frigga acariciou meu cabelo como se quisesse me confortar. Fitamos o cenário da calmaria em Asgard.

– E você as terá. Não se esqueça que apesar de tudo, apesar de todas as coisas ruins que suas memórias possam guardar e te fazer sentir, deve lembrar-se de quem é. Nunca se esqueça de quem é!

A rainha me abraçou mais forte ao dizer aquilo. Fechei os olhos aproveitando de um carinho materno que não sentia a muito tempo. Refleti em suas palavras. Será que minhas memórias eram tão ruins assim? Tão ruins ao ponto de me fazer ser quem eu não sou? Ou me fazer esquecer de minha essência?

 Eu prometo que não esquecerei.

Levantei meus olhos pra ela, a deusa loira sorriu maternalmente e me abraçou novamente.

– Estou contando com isso. – ela disse.

Ponto de vista: autora.

Relâmpagos clareavam o céu negro. Uma chuva grossa caía no chão escuro e apesar de tudo ao seu redor estar molhado, Hell se encontrava sentada em seu trono de ossos. Apoiava sua mão no queixo, a unha pálida encostada na pele. A deusa dos mortos observava. Seus olhos roxos se arregalaram ao observar o livro nas mãos dela. Ela se levantou do trono e se aproximou do pequeno portal espelho que havia aberto para observar a morena.

A moça estava no terraço do palácio lendo atentamente o livro dourado que Hell sabia muito bem do que se tratava. A deusa conhecia todas aquelas histórias, principalmente as mortes que ali estavam registradas. Até mesmo uma em especial.

Hell observou toda a conversa que a morena teve com Frigga. Seus olhos se encheram de uma insana alegria ou ouvir sobre as memórias tão desejadas de Diana. A deusa dos mortos não poderia estar mais feliz em ver a moça traçando o caminho que ela queria.

Seus planos estavam começando a se concretizar e isso era como uma injeção de ânimo para suas veias secas cheias de morte. Hell tocou no pequeno portal e ele se desfez em suas mãos. Olhou por cima de seus ombros e encontrou Modgud enchendo um cálice de vinho com uma jarra de ouro puro.

– Modgud. – a deusa murmurou.

De prontidão a guardiã da ponte se apresentou. Seus olhos demonstravam uma certa centelha de animação. Sua senhora havia ficado muito tempo em silêncio, observava o portal de seu majestoso trono, não lhe dirigia uma palavra desde a chegada da deusa da feitiçaria, Freyja.

– Senhora? – Ela se curvou um pouco em reverência – É chegada a hora? – perguntou tentando esconder sua animação.

– Sim, minha querida escudeira. Os caminhos estão sendo traçados, só precisamos ter um pouco mais de paciência e ela virá até mim.

Modgud não conseguiu esconder sua reprovação, a guardiã não se sentia confortável com a ideia de sua senhora manter seus olhos sobre Diana todo o tempo. Sentia que estava perdendo o carinho e amor de Hell. A amava desde que fora encontrada pela deusa. Modgud a amava como uma mãe e faria tudo por ela.

– Ela virá, minha senhora. E então tu terás todo o poder sobre suas mãos. – disse a guardiã empurrando o sentimento de inveja para o mais profundo de seu coração.

Ela queria ser a escolhida.

– Sim! E será Diana que colocará todo o poder sobre minhas mãos. – ela disse sorrindo para a serva.

Se afastou da guardiã e pegou a taça de ouro maciço em cima de uma grande mesa de mogno. Encostou a ponta em seus lábios e se deliciou com o vinho agridoce. Sua vitória seria como aquela bebida: agridoce.

Karol

Jovem com alma de criança. Cabeça nas estrelas, pés no chão e olhos no céu. Escritora amadora nas horas vagas e sonhadora em tempo integral.