Redenção – Yves parte II – 46

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Ainda atônita andei próximo do lago onde eu havia encontrado aquela mulher. Depois de meu encontro com Frigga não sabia o que fazer e até mesmo o que pensar. Não poderia voltar para o meu quarto, Loki estaria lá. Passei rapidamente no baú de armas e peguei uma pequena adaga que logo escondi por baixo das longas saias do vestido.

Não conseguia parar de pensar nos olhos de Frigga e sua mão em meu ventre. Ela não precisou dizer palavra alguma. Como pude ser tão idiota ao ponto de não pensar em… em… nem em pensamento eu conseguia processar aquela palavra. Em que mundo eu me imaginaria com uma criança nos braços? Uma criança minha, um ser que eu deveria cuidar pra sempre.

Andei devagar até a floresta atenta a tudo. Minha mente voltava sempre para a cena com Frigga, o que eu iria fazer? O que Loki iria pensar? Aproximei-me das árvores. O sol se punha ao longe e a lua começava a subir no céu, já havia pouca iluminação e eu consegui driblar Frigga com o jantar, ela entendeu que eu estava abalada então decidiu não insistir para que eu aparecesse.

Entrei na escuridão da floresta, meus olhos estavam tentando se acostumar ainda. Alguns galhos me arranharam o braço, mas eu apenas ignorei. Meus pensamentos iam desesperados em o que eu iria fazer daqui pra frente e como contaria para Loki o que estava acontecendo. Como se não bastasse minhas memórias ainda estarem perdidas. Minha vida já era complicada demais, não podia ter uma criança e arruinar a vida dela daquela forma.

Sem me dar conta repousei minha mão em meu ventre. Um sorriso involuntário pintou meu rosto. Imaginei uma criança com os cabelos negros e lisos de Loki, o nariz pontiagudo e empinado como ele tinha. Seria a criança mais linda de todas, e com toda a certeza teria uma personalidade tão forte que seríamos incapazes de a convencer de algo. Suspirei, talvez não fosse tão terrível como eu pensava.

Ouvi um leve farfalhar atrás de mim nas árvores. Girei rapidamente e olhei para onde vinha o som. Uma movimentação nas folhas me fez ficar alerta. Continuei andando devagar e retirei a adaga de onde estava escondida, segurei-a e armei minha guarda enquanto andava. Andei mais devagar, meus pés se arrastavam no chão arenoso da pequena floresta. O único barulho que eu ouvia era de meus passos e o martelar de meu coração.

A lua já estava alta no céu e fazia uma boa iluminação dentro da floresta. Mais uma vez o farfalhar me fez girar os calcanhares, observei de onde vinha o barulho. Me aproximei de um tronco e me escondi ali para observar. O farfalhar parou. Esperei um pouco, andei por trás das árvores a fim de me camuflar entre os troncos. Um vulto passou devagar entre as árvores da frente, ela parecia apressada, então eu também aumentei o passo. Porém me mantive atrás da sombra. Com certeza era a mulher com quem tinha conversado três dias atrás.

Ela aumentou o passo e correu. Eu segui seu ritmo. De repente, ela parou de costas. Me escondi atrás de um tronco. Virei-me para espiar onde ela estava, e me surpreendi, pois a mulher havia sumido. Saí de trás da árvore e me encontrei na parte da floresta em que se abria um semicírculo em que as vegetações não se fechavam, parecia uma espécie de mini clareira. O farfalhar me fez novamente levantar a adaga, a mulher apareceu em meu lado direito e eu parti para cima dela.

Empurrei a figura magra e a encostei em uma árvore próxima. As costas dela bateram no tronco marrom e o capuz que ela usava caiu. Seus cabelos longos e castanhos caiam sobre os olhos. Ela piscou os olhos pelo susto. Eu ofegava por causa da caminhada e as passadas longas. Meu braço estava no pescoço da mulher a impedindo de reagir. A cicatriz dela ficava mais horripilante à luz da lua.

– Você estava me seguindo. – Ela grunhiu.

Franzi o cenho. Que diabos de afirmação era aquela?

– Não estou aqui para brincadeiras. – Rugi para ela – Comece a falar ou então eu a levarei para ter um papo com o Rei de Asgard.

A mulher soltou uma risada sarcástica. Pressionei mais sua garganta e ela tossiu entre a risada.

– Eu soube que o Rei de Asgard está em seu sono profundo, que mal ele poderia me fazer?

– Não sei o que Odin poderia lhe fazer, porém ainda a levaria para conversar com Thor ou quem sabe com a Rainha de Asgard. O que acha?

A mulher tremeu. Com certeza a ideia de levá-la até Frigga não era uma boa, mas apenas citá-la fez o sarcasmo e toda a pompa daquela mulher desmoronar.

– Bom, muito bom! Eu vim atrás de informações e não sairei daqui sem elas.

Ela suspirou e olhou para minha mão em seu pescoço. Levantou as sobrancelhas como se dissesse: Se me der licença. Retirei meu braço dali e a mulher se libertou de mim, ela passou a mão pelos cabelos e suspirou. Se afastou um pouco de mim e se sentou no chão encostando em uma árvore. Ela estalou os dedos e uma garrafa de hidromel apareceu ali juntamente com duas taças de ouro.

– Se eu vou contar essa história preciso urgentemente beber. – Ela suspirou e encheu uma taça de. Ele tinha uma cor tão mais forte que não me pareceu os que eu costumava beber por aqui. – Está servida?

Neguei e tentei disfarçar o pensamento que logo me ocorreu após eu ter recusado a bebida. Não podia mais tomar nada que tivesse álcool, faria mal para o bebê. Engoli em seco e me sentei de frente para ela olhando para os meus pés sujos. Estava descalça desde a hora que pulei da cama para o café da manhã. A mulher à minha frente sorriu de forma sarcástica e deu um longo gole na bebida.

– Entendo… – Ela disse e olhou para o meu ventre.

Segurei a adaga perto de mim, quase embaixo de minha perna esquerda para que estivesse próxima e fácil para pegá-la caso precisasse.

– Então… Yves. – Comecei.

Ela soltou mais uma vez uma risada sarcástica e encheu sua taça novamente. Levou o líquido aos lábios e bebeu novamente.

– Eu disse que para contar essa história não deveria estar sóbria.

Revirei os olhos e suspirei. A mulher encheu novamente a taça e tomou ainda olhando pra mim. Ela parou de beber e colocou a taça no chão.

– Por Odin você se parece muito com ela… – Disse observando meu rosto.

Meus pelos se eriçaram. Ela? Ela quem… De quem estava falando?

– De quem… De quem você está falando? – Gaguejei.

– Eu sou Astrid, se isso faz alguma diferença. – Ela disse e abaixou os olhos para o chão da floresta – Eu disse pra ela que saberia quando fosse você, mas nunca acreditou… Minha irmã costumava ser pessimista em relação a mim.

– Sua irmã? – Questionei. – Do que você está falando, Astrid?

Ela pegou um pequeno galho e remexeu na terra, levantou seus olhos para mim e abriu um pequeno sorriso.

– A história não é sobre Yves e sim sobre minha irmã, Diana. – Ela disse meu nome e congelei no lugar.

– Como… Como sabe…

– Seu nome? Você acha que a história da Gigante de Gelo que fez o trapaceiro do Loki se render não correu por toda Asgard? Todos aqui sabem seu nome. – Ela soltou uma risada pelo nariz.

Corei violentamente. Loki rendido a mim? Isso era uma das coisas mais estranhas que eu já havia ouvido, porém tentei ignorar o comentário. Astrid estava me enrolando e eu não poderia ficar por muito tempo, logo todos dariam falta de mim no palácio e seria procurada, Loki não descansaria até por seus olhos em mim.

– Astrid, conte-me sobre sua irmã! – Insisti.

– Ahh… Onde estávamos? Hummm… Yves. Tudo bem.

‘’ Antes de minha irmã conhecer Yves ela havia sido prometida em casamento. Nós duas éramos filhas de um nobre muito respeitado de Asgard. Que meu maldito pai descanse em paz. – Ela suspirou. – Por sorte, ou por azar, minha irmã havia sido escolhida para casar com o futuro Rei de Asgard. Odin ainda era jovem e estava prestes a assumir o trono e ele precisaria de uma esposa a altura. Meu pai conversou com o pai dele e logo Odin se apaixonou perdidamente por minha irmã. Era claro que eu estava feliz por ela, seria a Rainha de Asgard e teria tudo que quisesse, porém não deixei de ter um sentimento ruim dentro de mim, afinal eu era a primogênita, eu deveria estar me casando primeiro.

Apesar de tudo, eu amava minha irmã e o sentimento de estar sendo roubada sumiu aos poucos, nós duas adorávamos passar o dia juntas e eu a ensinava a praticar magia. Nossa mãe tinha um dom especial que havia passado para nós antes de morrer, havia descoberto após sua morte os livros e todas as anotações sobre magia escondidas. Meu pai odiava aquilo, porém minha mãe nos deixou uma carta explicando que nós duas possuíamos um dom e que não deveríamos rejeitar aquilo.

Eu e ela passávamos a maior parte do tempo até Odin vir cortejá-la. Os dois saiam para lá e para cá, ela parecia estar encantada com o mundo de uma futura Rainha, no entanto sempre dizia que sentia falta de algo. Ela costumava dizer que Odin era silencioso demais e distante, ele parecia estar sim apaixonado por ela, mas queria demonstrar da forma errada.’’

– Minha irmã sempre foi uma romântica inconsequente. – Astrid disse tomando mais um gole de hidromel. Ela sacudiu a cabeça e continuou a contar a história me levando para anos atrás.

‘’Estávamos um dia no quarto enquanto eu lhe explicava um feitiço simples de localização. Ela estava tão distante, parecia até que sua mente vagava por outro mundo, pelas árvores encantadoras de Alfheim. Eu lhe perguntei o que estava acontecendo e minha irmã apenas irrompeu um soluço e correu para os meus braços. Ela me contou aos prantos que estava apaixonada. Em primeiro momento eu apenas ri de sua reação e disse que aquilo era normal, mandei que ela limpasse o rosto e abrisse um sorriso, afinal iria se casar com o homem que amava até ela me dizer que não estava apaixonada por Odin.

Claro que eu me exaltei. Ela tinha a chance de ter todo o poder em suas mãos, governaria Asgard ao lado de Odin. O que mais poderia querer? Eu a questionava sobre isso a todo momento e em um sinal de desespero ela gritou a plenos pulmões que queria amor, amor de verdade. Minhas mãos tremiam, estava completamente fora de mim e lhe esbofeteei o rosto. Se nosso pai soubesse a verdade, se ele soubesse que minha irmã havia se apaixonado por outro surtaria.

– Você está maluca?! – Gritei e a sacudi pelos braços – Você está prometida para outro homem.

Ela apenas chorava em desespero enquanto tentava se livrar de mim. Soltei seus braços e ela caiu no chão, passou as mãos pelo ventre e chorou mais ainda em desespero. É claro que eu gritei mais ainda, além de ter se apaixonado por outro ela havia se entregado para ele.

– Você se entregou pra ele! – Gritei – Você está…

– Grávida! – Ela gritou. – Grávida do homem que eu amo.

– Certamente está maluca! O que dirá o nosso pai para Odin? Que você é uma vagabundo que não sabe manter a palavra? Que é uma romântica insana que quer apenas se destruir e destruir sua família? – Esbravejei.

Ela chorava sem parar, o ódio dentro de mim cessou assim que eu observei minha irmã no chão em desespero abraçando o próprio ventre e olhando para mim como se eu fosse um monstro, como se eu fosse sua assassina. Eu desisti de tudo naquela mesma hora e joguei tudo para o ar um mês depois em que pude ouvir o coração do bebê dela através de um feitiço. Depois de dois meses éramos as maiores e melhores cúmplices de toda Asgard. Conseguimos esconder de todos, até mesmo de meu pai, porém os próximos meses seriam difíceis.

Convenci meu pai de que passaríamos os próximos meses na casa de campo dele para que ela pudesse cuidar de mim, criei uma doença para mim mesma para que ela pudesse ficar livre por todos aqueles meses. Yves, o pai do filho dela ia quase todos os dias visitá-la. Os dois se amavam cada vez mais em que se viam. O bebê crescia forte com a presença do pai e do amor  que emanava dos dois. Eu até rezei para os deuses para que pudessem me dar um amor como aquele.

No entanto, o dia do nascimento do bebê chegou. Yves fez de tudo para sair do palácio e com muito esforço conseguiu. Ele chegou ofegante e preocupado. Minha irmã estava nos últimos minutos do parto, a pequena criança já estava chegando ao mundo. E quando ela chegou eu fui a primeira a segurar em meus braços. Era uma linda menina que chorava tão forte quanto seu coração batia. Minha irmã e eu sabíamos que ela seria uma guerreira incessante. Entreguei a menina para minha irmã e ela sorriu. Yves se aproximou e chorou acariciando a cabeça da filha. Os dois não sabiam o que fazer após o nascimento dela. O prazo estava acabando e o casamento de minha irmã iria acontecer, afinal Odin ainda era seu noivo e respeitou seu espaço enquanto ela supostamente cuidava de mim na casa de campo.

Enquanto os dois conversavam sobre uma suposta fuga eu saí para fora e vi um soldado à espreita. Assim que ele me viu começou a correr e eu entrei em desespero. Corri para dentro de casa e avisei Yves de que um soldado havia me visto de pé e que talvez, talvez tenha nos observado o tempo todo.

Os dois entraram em desespero e começaram a organizar uma fuga. Alguns dias se passaram e no dia marcado para que os dois se encontrassem Yves não apareceu. Minha irmã entrou em desespero e quis procurá-lo. Nós não podíamos sair do local marcado. Estávamos próximas de uma caverna em que havia um portal para os outros mundos, nós duas descobrimos tempos atrás que a Bifrost não era a única saída de Asgard. Pouco tempo depois ouvimos barulhos de cavalos. Eu avistei a Gungnir dourada de longe.

– Odin está vindo! – Gritei. Ela entrou em desespero e eu peguei a criança em meu colo.

– Esconda-se! – Minha irmã – Esconda ela, Astrid. Salve minha filha. – Ela deu um beijo no bebê e eu fugi para dentro da caverna.

Observei de uma fresta o que estava acontecendo. Odin vinha à cavalo com Yves pendurado pelas mãos. Ele o arrastou até ali. Minha irmã gritou em desespero ou ver aquilo e correu para ele. Odin desceu do cavalo e a esbofeteoou. Puxou minha irmã pelos cabelos, eu quis reagir mais precisava salvar a vida do bebê. O Rei soltou Yves do cavalo e começou a acusá-los de traição. Yves era um homem extremamente respeitável em Asgard por ser o braço direito de Laufey, o Rei dos Jotun’s. Asgard tinha uma aliança com Jotunheim e agora tudo estava acabado por causa de Yves.

Minha irmã o acusou de não amá-la e que tudo que ela queria Yves pode dar a ela. Odin enfureceu-se e saiu de si. Pegou a Gungnir e matou Yves impiedosamente na frente de todos. Em desespero eu fiz um feitiço e criei uma espécie de cápsula para o bebê e a coloquei lá dentro. Levei-a até os cores do arco-íris e deixei que fosse levada. Fiz uma prece muda aos deuses que cuidassem do bebê e que ela pudesse achar seu caminho de volta um dia.

Sai da caverna e implorei por perdão para que minha irmã fosse livre. Insisti para que Odin me levasse no lugar dele, mas ele ignorou meu clamor. Chorei desesperadamente ao lado de minha irmã. Ela mantinha os olhos no corpo sem vida de Yves, não chorava mais e assim que Odin a segurou pelo braço eu vi em seus olhos o fogo do ódio e da vingança.

– Você, sua meretriz! – Odin sibilou – Terá o que merece. – Ele apontou para Yves – Espero que esteja satisfeita pela morte dele porque você é a culpada! – O Rei esbravejou – Agora eu lhe rogo uma maldição. Você será a razão das mortes, serás a própria morte em pessoa. A senhora de todos os que a vida foram tiradas, afinal você, Hela é a morte de Yves.

Odin jogou minha irmã no chão. Hela sacudiu os ombros e convulsionou. Eu gritei e pulei em cima do Rei em puro ódio. Um soldado entrou em minha frente e brandiu sua espada cortando meu rosto da sobrancelha até os lábios. Hela se transformou em metade mulher e metade cadáver demonstrando a morte. Odin levantou minha irmã pelos cabelos e a arrastou para longe de mim enquanto eu gritava em desespero. Olhei para a minha esquerda e meu pai estava lá observando toda a cena. Assim que Odin levou Hela os soldados os seguiram enquanto eu gritava em desespero por minha irmã.’’

– Aquela foi a última vez em que a vi, e também foi assim que eu ganhei essa belezinha aqui. – Ela apontou para a cicatriz.

Os pelos de minha nuca se eriçaram. Aquela história era de Hela e como se tornou a senhora da morte.

– E… E o bebê? – Sussurrei para ela. Lágrimas desciam pelos meus olhos.

– Eu a mandei pelo vértice e vejo que conseguiu encontrar o seu caminho de volta. Os deuses foram bondosos comigo e com Hela por você ter voltado.

Soltei um arquejo e me levantei. Minha mente parecia estar envolta em névoa. Hela, a deusa dos mortos é minha mãe. Yves, o Gigante de Gelo meu pai e Odin a razão de eu não ter crescido em segurança com a minha família.

– O que… O que aconteceu depois? – Perguntei. Levantei meus olhos para Astrid.

Ela levantou os lábios em um sorriso e tomou mais um gole de hidromel.

– Após descobrir que Odin matou seu melhor amigo, Laufey promoveu a grande guerra contra Asgard e a aliança foi quebrada. Ela durou anos, Odin casou-se com Frigga e teve rapidamente um herdeiro, afinal a guerra ameaçava o trono. Quando enfim Asgard ganhou a batalha, Loki foi encontrado e trazido para cá e a paz foi restaurada até você colocar os pés aqui novamente. – Ela sorriu para mim – Eu sabia que você voltaria, sentia em meu coração que você voltaria e abalaria as estruturas desse planeta, não poderia ser diferente. Sua mãe foi a razão de uma grande guerra, não imaginei que com você haveria paz. – Astrid riu novamente.

Encostei-me a uma árvore e as lágrimas saltaram de meus olhos. Eu era a razão de tantas mortes, onde ia o caos me seguia. Me afastei devagar de Astrid. Respirei fundo e me curvei para normalizar minha respiração descompassada.

– Eu sempre dizia à Hela que o amor seria a ruína dela e agora eu pergunto a você, Diana: O amor será a sua ruína ou sua salvação?

Ela se levantou e tomou o hidromel da garrafa. Se aproximou de mim e acariciou meu cabelo devagar. Bebeu mais um pouco do gargalo e se afastou tropeçando nas saias do vestido preto. Astrid foi embora murmurando algo sobre eu ser tão parecida com Hela que seus pelos se arrepiavam.

Respirei fundo e fechei meus olhos. Lágrimas jorravam molhando minha face. Aquela então era a minha história. Meu passado era pintado de guerra, traição e muito sangue, não tão diferente de todo o resto da minha vida na Terra. Eu era incessantemente perseguida pelo caos e a morte porque… Porque era a filha da morte.

Me afastei da árvore cambaleando. Tentei achar o caminho de volta para casa, para os braços de Loki. Eu precisava desesperadamente dele. Levei a adaga comigo enquanto andava em meio aos arbustos. Saí da pequena floresta e apertei o passo perto do lago. Me dei conta de que estava correndo quando passei pelas portas de ouro maciço do palácio e subi as escadas ofegantes do quarto de Loki.

Abri a porta em desespero e entrei. Olhei para os lados e ele não estava ali. Empurrei a grande porta para a sacada e me aproximei dos balaústres. Loki não estava ali, não estava em lugar nenhum e eu estava tão despedaçada que não consegui me manter em pé. Sentei-me ali mesmo e observei a lua pelos vãos dos balaústres. As lágrimas caíam de meus olhos sem parar e eu me permiti chorar por tudo, pelo meu pai morto, por minha mãe, por meus pais adotivos, até mesmo por Thomas e Bucky e mais ainda por Loki e pelo filho que crescia em meu ventre.

E ali sentada no chão frio eu me perguntei: O amor seria minha ruína?

Karol

Jovem com alma de criança. Cabeça nas estrelas, pés no chão e olhos no céu. Escritora amadora nas horas vagas e sonhadora em tempo integral.