SARTRE, NÁUSEA E NETFLIX – EXISTENCIALISMO E HUMANISMO NA SÉRIE FENÔMENO

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Google+ 0 Filament.io 0 Flares ×

Fala galera! Sejam muito bem-vindos a mais um Nerdosofia! E depois de falar de quadrinhos, vamos falar de séries! Mas, antes de qualquer coisa, gostaria de deixar claro um ponto: o objetivo é comparar uma obra atual com a filosofia de Jean Paul Sartre, e mostrar como elementos trabalhados na sua obra estão descritos na narrativa da série, e como ela se encaixa bem nisso! Em momento algum a análise feita quer representar minha compreensão ou entendimento pessoal sobre a série, e sim como ela é no ponto de vista do Sartre!

Outro detalhe muito importante que precisa ser dito: o artigo será uma análise sobre a série por completo, portanto leia apenas se já assistiu até o fim, ou se não se importa em nada com spoilers! Cenas importantes e momentos chaves da série serão discutidos ao longo de todo o artigo, então, haverá spoiler em todo o canto! Está avisado!

Diante disso, desejo a todos uma boa leitura!

 

13 Reasons Why (OS 13 PORQUÊS) – A SÉRIE

13 Reasons Why (ou Os 13 Porquês) é uma produção original da Netflix, em formato de seriado, com um total de 13 episódios, lançada pelo serviço de streaming em 2017. É baseado no livro homônimo de Jay Asher lançado em 2007, e que se tornou best-seller do New York Times em 2011, adaptado para o formato Netflix por Brian Yorkey. A trama gira em torno de Clay Jansen, estudante norte americano que recebe uma caixa com 7 fitas que foram gravadas por Hannah Baker, sua colega de colégio e trabalho, e também seu interesse amoroso, que cometeu suicídio duas semanas antes. Nas fitas, Hannah diz que existiram 13 razões para decidir tirar própria vida, e que cada um dos 13 responsáveis  receberiam as fitas. Com a frase inicial “se você estiver ouvindo isso, você é um dos motivos”, Clay fica obcecado e ao mesmo tempo transtornado, ouvindo as fitas e tentando descobrir qual o motivo dele estar nas gravações.

À medida que vai ouvindo as fitas, uma a uma, Clay vai entendendo o que aconteceu com Hannah, bem como vai descobrindo que a história não é tão simples, que as pessoas não são tão inocentes, e que o mundo não é tão feliz quanto ele idealizava. Desde seu lançamento, a série causou grande repercussão ao abordar, usando uma metalinguagem jovem e realista, problemas do cotidiano considerados tabus até os dias de hoje, como depressão, bullying, suicídio, estupro, e a influência de nossos atos na vida das pessoas que nos cercam.

Existem inúmeras teorias e pontos de vista diferentes sobre a obra. Há quem analise com foco apenas no bullying, ou apenas no suicídio. Outros enxergam o reflexo de uma sociedade cada vez mais doente gritando por socorro. Há quem diga que a série é apenas uma ferramenta para arrecadar dinheiro à base da exploração de temas impactantes. Mas se estivesse vivo ainda hoje, acredito que Jean Paul Sartre, um dos pais do Existencialismo, diria que a série é um retrato nu e cru da náusea existencial da humanidade, um reflexo da sociedade presa na constante obsessão de exteriorizar a responsabilidade de existir. Certamente, ele diria que a série retrata a máxima de sua filosofia: “o inferno são os outros”.

 

O EXISTENCIALISMO HUMANISTA DE SARTRE

Jean Paul Sartre foi um filósofo francês, contemporâneo à 2° Guerra Mundial. De pensamento puramente ateu (o que é muito importante destacar), desenvolveu toda a sua obra filosófica em volta da existência humana, sendo um dos pioneiros da chamada Filosofia Existencialista. Uma de suas principais obras, “O Existencialismo é um Humanismo”, retrata justamente os conceitos abordados em suas outras obras, e a definição da base de toda a sua filosofia existencialista.

Dentre os vários conceitos criados e abordados em suas obras, o mais relevante aqui talvez seja “a Náusea”. Para Sartre, nós nascemos uma “folha em branco” com nada escrito, ou seja, não nascemos determinados e sujeitos a nada. Como tal, à medida que vamos vivendo, vamos escrevendo a existência, vamos nos moldando, nos criando. Não somos seres definidos. Lembrem-se: Sartre era ateu, logo o conceito divino de criação não é levado em consideração no seu pensar. Não há um Deus, um Destino, ou uma Força Maior que guie, conduza ou influencie de alguma forma na existência do ser. Existe apenas o Ser. Dessa forma, o Ser é puramente livre! Livre para decidir e viver por conta própria, para ser dono de si mesmo, livre para Ser. Não estamos abordando aqui o conceito de liberdade “jurídico”, a liberdade estatal. Estamos falando da liberdade do Ser, a liberdade de escolher, tomar decisões, de ter domínio sobre os próprios atos. Mas, junto a essa liberdade, o Ser é condenado à Reponsabilidade. Toda a existência do Ser é Responsabilidade do Ser, única e exclusivamente.  Diante disso, Sartre analisa aquele sentimento de mal-estar que sofremos ao estarmos frente a decisões vitais, aquele enjôo existencial de sermos obrigados a decidir algo, de Náusea.

Essa Liberdade é inata ao homem, é parte integral dele, e não pode ser abandonada. Mas essa Liberdade, sempre atada à Responsabilidade, determina que “somos inteiramente responsáveis por nosso passado, nosso presente e nosso futuro”. São nossas decisões que vão moldar nossa existência, nossa vida, e o desenrolar dos fatos. A única limitação que temos é a limitação física do corpo, porém, é justamente essa limitação que abre o leque de opções das quais não podemos fugir, à qual estamos condenados.

A série aborda justamente esse aspecto da filosofia sartriana: a liberdade das escolhas, a responsabilidade pelas escolhas feitas, o reflexo da responsabilidade no mundo exterior, o papel do Outro, e, sobretudo, a Náusea de existir diante da Responsabilidade de Ser.

 

HANNAH BAKER, A NÁUSEA E O PESO DA RESPONSABILIDADE

Hannah Baker, estudante, suicida, e pivô de toda a trama da série. Acompanhamos a trajetória da personagem através de suas fitas, deixadas com Tony, em um elaborado esquema para que todos os 13 envolvidos recebessem cópias da mesma, e soubessem que foram um dos 13 porquês de seu suicídio. Ao longo da trajetória, vemos o ponto de vista da personagem em formato de flashback, em contra peso com a visão de Clay nos dias presentes. Enquanto os momentos de flashback focam em como as demais personagens eram diante dos olhos e interpretação de Hannah, nos dias presentes temos uma visão mais centrada nas próprias personagens, suas motivações, e a forma como as mesmas compreendem o mundo.

Todo o tempo em que Hannah é mostrada é feito por flashbacks. É sempre a visão da mesma, narrada em suas fitas, que é mostrada ao expectador, que passa a ser um cúmplice da personagem em seu drama existencial. Desde o início, é possível notar a forma romantizada que a personagem enxerga o mundo, e como ela busca desesperadamente uma forma uma forma de se encaixar, de ser importante. Como o mostrado é o ponto de vista da personagem, automaticamente o expectador é levado a culpar a demais personagens em questão, a vê-las como as vilãs as responsáveis pelo drama da narradora. Os momentos seguintes, no tempo presente, são alheios ao “ponto de vista do narrador”, mostram os atos dos personagens, e contrastam com aqueles evidenciados pela narradora. Isso se se dá ao fato da narradora exteriorizar a sua culpa nos outros, ficando em uma situação de vitima eterna da culpa do outro, sem poder fazer nada.

Hannah é culpada, segundo Sartre, pelo seu próprio drama, e consequentemente pelo seu suicídio. Foram todas as decisões tomadas por Hannah, diante de cada circunstância atenuante, que a levou a sua última e final decisão. Isso é bem retratado no episódio 13, poucos momentos antes do suicídio. Ao terminar de gravar a última fita, Hannah diz que se sente melhor, que o fato de narrar sua história, de expor seu drama (e vale observar que em momento algum, com personagem algum, ela expôs qualquer problema que ocorreu) tirou um peso de si. Porém, mesmo assim, ela quis seguir com seu plano. Na série, o momento de seu suicídio é dramático. O medo, o desespero, a falta de esperança, são elementos impactantes, mas deixam uma pergunta no ar: era essa a única solução possível? Momentos antes em seu diálogo a personagem havia percebido que não.

Você agora deve estar perguntando: “ela foi então culpada pelo bullying? Pelo estupro?”. Bom, segundo Sartre sim. Somos seres condenados às escolhas, mesmo que as circunstâncias ao nosso redor nos sejam alheias ao controle. Não podemos controlar a hora da chuva, o momento de uma nuvem encobrir o Sol, ou como as pessoas reagirão às nossas ações, mas somos os únicos responsáveis por como nós nos comportaremos diante cada acontecimento. É culpa nossa como lidar com cada trama, cada notícia, cada evento, cada escolha. Muitos personagens, principalmente Clay, falam constantemente “se tivéssemos feito algo diferente, ela estaria viva”, só que não. Ela ainda escolheria o suicídio, porque a decisão é dela. Não é a forma como os outros se comportaram que levou Hannah à sua morte, mas a forma como a mesma escolheu lidar com tudo o que acontecia.

Vejamos algumas das escolhas de Hannah: ficou passiva diante do boato de Justin ter transado com ela; ficou passiva diante da lista de Alex, e aceitou a culpa que Jennifer jogou nela; nunca abriu seus sentimentos para Clay; ficou calada quanto ao estupro da Jennifer; escolheu ir para uma festa do Bryce mesmo sabendo que ele era um estuprador; não expôs a ninguém que também foi estuprada (mesmo no diálogo com o orientador ela jamais afirmou que isso ocorreu). Todas as escolhas de Hannah foram culpar o outro, como se ela não fosse capaz de agir de forma diferente, de tomar uma decisão diferente, ou de não querer lidar com as consequências de cada ato.

Outra nota sobre sua escolha é revelar os acontecimentos apenas após sua morte. Ainda viva, ela friamente elabora um calculado plano para revelar tudo o que aconteceu, mas opta para que isso seja feito apenas após sua morte, quando não mais poderia ver a repercussão de seus atos, ou sofrer as consequências deles. Ela optou por jogar nos outros toda a culpa, e exteriorizar os problemas apenas como culpa dos outros, sem assumir suas próprias culpas, e sem deixar margem para que isso acontecesse. A grande questão que fica no ar é: qual a verdade sobre tudo? Hannah jamais poderá ser confrontada sobre isso, e cada personagem sabe apenas a culpa que lhe cabe, nunca sabendo ao certo o papel do outro na história.

Existir é um ato solitário. Tomar decisões é algo nauseante.

 

OS OUTROS – INOCENTES, PORÉM CULPADOS

A pergunta agora deve ser: “quer dizer que os outros então são inocentes?”. A resposta é sim, e não. Os outros personagens da trama são inocentes da decisão de Hannah. Não havia nada que qualquer um deles pudesse fazer quanto a isso. Mesmo que Tony tivesse percebido antes, a tempo de salvar Hannah, ela ainda estaria decidida a isso, e consequentemente acabaria conseguindo. É uma ilusão achar que somos responsáveis pelas decisões do outro. Somos responsáveis apenas por nossas próprias decisões, única e exclusivamente. Os outros são culpados de seus próprios dramas, das consequências de seus próprios atos, e de suas próprias escolhas. A verdade é que, tanto na série quanto na vida real, segundo essa linha de raciocínio, não existem pessoas inocentes. Todos somos culpados por nossas vidas, por nossas escolhas, por estarmos no exato lugar em que estamos. Nada nem ninguém decidiu por nós, tudo é consequência do que nós plantamos.

Cada um dos 13 envolvidos na trama é responsável pelos seus dramas. Nem mesmo Clay é inocente quanto a isso. Foram as decisões do mesmo que deram as consequências que ele enfrenta. O mesmo se aplica a Justin, Alex, Jennifer, Bryce, e todos os outros. O que vemos é um desembolar de como cada um lida com as consequências de sua escolha, em contrapeso a uma pessoa que escolheu não lidar com nada, encerrando sua própria vida. O que se segue é uma clara amostra do que Sartre chama de Náusea: o mal estar de cada um diante cada escolha, cada consequência, cada decisão.

Dois personagens que merecem destaque nessa análise são Justin e Alex. Enquanto Justin fica o tempo todo tentando justificar suas ações como sendo uma “obrigação moral” perante Bryce, que o acolheu e ajudou quando sua própria família o rejeitou , e também com a justificativa que estava protegendo Jennifer, jogando sempre a culpa da sua escolha no outro, vemos Alex transtornado por ter tomado decisões erradas, por motivos que o mesmo já considera banais, e sofrendo com o tormento de saber que foi uma decisão sua que desencadeou uma série de eventos das quais as consequências lhe são severas. Justin, que de vilão passa a ser retratado como vítima das circunstâncias ao final da série, termina lidando com as consequências de todos os seus atos, e sofrendo justamente a consequências que, teoricamente, era o que queria evitar. Alex, já sofrendo o peso das suas escolhas, tal qual Hannah, encontra no suicídio uma forma de acabar com o peso, a culpa e a responsabilidade.

Outro personagem de destaque é Tyler. O personagem é a personificação do alvo de bullying da cultura americana. O tímido, estranho e perturbado Tyler é rejeitado por todos, vítima de qualquer coisa, e foi inclusive esnobado pela própria Hannah. A decisão de Tyler não fica evidente até o fim da série, mas a mesma deixa claro que, enquanto uns personagens lidam de forma pacífica com sua culpa, e outros lidam de forma terminal, Tyler se prepara para “responsabilizar os culpados”. A cena que mostra o mesmo guardando um pesado armamento de fogo em uma maleta é um indício de que o mesmo poderá, futuramente, cometer um genocídio, tirando a vida de todos os “culpados” por tudo o que lhe ocorreu.

É interessante notar como cada personagem reage de uma forma diferente, como cada um reconhece ou exterioriza a própria culpa, e quais as decisões são feitas diante desse pensar. Seguir adiante, como Justin e Jennifer fizeram, ou honrar o último desejo de Hannah por culpa como Tony, ou enlouquecer tentando imaginar o mundo pelos olhos de outra pessoa como Clay. Não há inocentes, não há beleza nos dramas, não há um romantismo na dor. Tudo ali é carnal, cruel, nauseante. É a vida, é a existência, tratada de forma crua.

 

O ELEFANTE NA SALA

Um dos pontos positivos da série é justamente a abordagem de assuntos tabus, os velhos “elefantes na sala”. Ainda nos dias de hoje, na era da comunicação, onde temos total e livre acesso a qualquer tipo de informação (seja ela real ou falsa, boa ou ruim), sentimos uma dificuldade muito grande de falar, de expor, de se abrir.

Suicídio, bullying, estupro, violência, todos são problemas reais, estão ao nosso redor, e acontecem com pessoas do nosso cotidiano, senão conosco mesmo. Mesmo que, segundo Sartre, tudo o que nos ocorra seja culpa nossa, lidar com isso é responsabilidade nossa. Não podemos mudar a forma de alguém pensar, mas certamente podemos ajudar as pessoas a notarem que existem outros caminhos.

Vamos ser mais atentos às pessoas que nos cercam. Vamos prestar mais atenção ao peso de nossas ações, de nossas escolhas, e sejamos pessoas de bem para assumir o peso de nossas decisões. Sejamos hoje melhores que ontem. Essa é uma forma positiva de enxergar o pensamento de Sartre: não importa o quão ruim seja uma situação, somos livres para escolher sair dela, para lutar contra ela, para melhorar, para seguir em frente, para sermos mais.

Espero ter conseguindo passar a ideia que eu queria, e gostaria de lembrar que é uma análise entre Sartre e a série, e não a minha opinião pessoal, ok?

Então deixa aí seu comentário, corrija se falei alguma besteira, exponha sua opinião, e mais importante ainda: escolha ser uma pessoa melhor!

 

 

REFERÊNCIAS E CITAÇÕES

Náusea – Experiência emocional de gratuidade da existência. Essa noção foi introduzida na filosofia por Jean-Paul Sartre e por ele ilustrada principalmente no romance intitulado A Náusea.

Responsabilidade – É a possibilidade de prever os efeitos dos próprios comportamentos e de corrigi-los com base em tal previsão.

Liberdade – 1 – Autodeterminação ou auto causalidade, ausência de condições e de limites; 2 – Necessidade do homem enquanto totalidade; 3 – Possibilidade ou escolha, limitada condicionada e finita.

Verbetes conforme definidos no Dicionário de Filosofia

 

A Náusea – Jean Paul Sartre

O Existencialismo é um Humanismo – Jean Paul Sartre

Os 13 Porquês – Jay Asher

13 Reasons Why (Os 13 Porquês)– Trailer Final

CVV – Centro de Valorização da Vida

 

Eduardo Filhote

Filósofo, podcaster do Machinecast, brisador por natureza, nerd por vocação, e viciado em cultura pop por opção. Em dias normais uma pessoa normal.

  • Taporra, isso que é um artigo… quem dera ter alguém assim no machinecast… Não… PERA!!!!

    • Edu Filhote Henrique

      hauHAUhauHUAUhauhUAUHahuhHA
      Valeu meu querido!