Sol das Cinco

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Algumas pessoas dizem que quando a gente encontra um milagre, ele deixa de ser um milagre. Eu não tinha tanta certeza. Hoje deveria ser um dia especial, mas na verdade é só mais um dia, mais um final de tarde novamente sentado num banco qualquer, numa praça qualquer em frente a um parquinho qualquer. E essa espera? O que eu estou esperando? Às vezes me vinha o pensamento de que se você conseguir esperar o suficiente num mesmo local, então existiria uma possibilidade de encontrar um milagre em sua frente.

Aquela luz parecia ser um desses eventos extraordinários, eu sempre me encantei com o sol das cinco horas, existem poucas coisas mais bonitas que a luz do sol no fim de uma tarde. Mas como saber se aquilo era especial se todo dia acontecia a mesma coisa? Eu pensava que coisas infinitas jamais poderiam ser milagrosas.

Certamente você já ouviu falar da luz, pulsando tranquilidade, nos trazendo a capacidade de entender a escuridão. A escuridão sempre teve um motivo pra existir, quando vivemos nela, é natural ter medo, o medo do som, medo do desconhecido e até do que já conhecemos. E é quase tão certo que você já esteve numa praça em frente a um parque no final de uma tarde. Se não esteve, me deixe descrever: pessoas brincando, cores se entrelaçando, os risos se exaltando.  Eu já estive em muitos finais de tardes numa praça e normalmente eu sempre estava sozinho. Exceto por uma vez.

Ela era indubitavelmente mais linda que qualquer coisa que eu já tivesse visto. Seus sorrisos me acalmavam e seu olhar me distraía, e quando a gente ficava em silêncio era mágico, silêncio a dois é uma das coisas mais raras que existe ultimamente, quando é prazeroso ele se torna magia: a magia de estar do lado de quem se ama.

Eu sinto falta dela. Eu sinto falta de está em silêncio a dois.

A saudade é como o inverno, fria e silenciosa. É solitária. Mas quem consegue apreciar a solidão terá alento onde não se tem, terá paz consigo mesmo, mas de nada vale paz sem amigos. De nada vale nada sem amor.

E cá estou eu, com um frio imenso na alma e essa calma de esperar… O que eu estou esperando? Eu simplesmente senti que eu deveria vir aqui e aqui estou eu. O cara que vai sozinho aos lugares e que espera por milagres.

A verdade é que as pessoas não reparam na luz. E está por toda parte! Como pode alguém não perceber esse milagre? Eu só comecei a perceber quando perdi a minha visão quando eu ainda era jovem.

— Ei! Finalmente eu te achei! — Ouvi uma voz falando comigo.

Era uma voz conhecida.

— Sou eu! Aquela garota que vinha aqui com você quando éramos adolescentes! Lembra? Aí eu me mudei com meus pais e nunca mais nos vimos.

Eu não podia vê-la, mas eu a senti tão forte quanto se eu a visse.

— Claro que eu me lembro de você! — falei, e sorri, fazia tempo que eu não sorria daquele jeito.

— Estive te procurando, seus amigos me falaram que você sempre vem aqui no fim de tarde. É muito bom te ver, — ela se sentou ao meu lado, e me senti voltando ao passado. — é bom estar de volta, e esse lugar continua lindo! Se lembra da última vez que estivemos aqui? Foi antes do acidente e…

— Eu me lembro sim.

Ela me abraçou apertado e deitou a cabeça em meu ombro.

— Senti sua falta. — Ela sussurou.

— Eu também.

Era como se o inverno tivesse ido embora de minha alma e o sol clareasse numa tão esperada primavera. Numa praça qualquer em frente a um parque, numa cidade qualquer, por volta das cinco horas, em meio ao acaso. Eu encontrei o meu milagre.

Sol das Cinco, por Jadson Ribeiro

Jadson

Escritor, poeta e artista visual. Um amante incurável da literatura e das artes plásticas. O romance, a ficção científica e principalmente a fantasia me fascinam. Nerd assumido. Séries, filmes, animações e café são as coisas que melhoram meu dia. O mundo real é um lugar que às vezes me arrisco em visitar.

  • Darley Santos

    Sei bem o que é passar fins de tarde numa praça, e acho gratificante ser bombardeado com tantas impressões dos eventos circundantes. Posso dizer que é um hábito que possui um grande potencial para render boas crônicas.

    • Jadson

      Verdade, momentos assim são incríveis e aliados a um olhar poético sempre rendem bons textos sim ^^