Sucker Punch – Mundo Surreal (Resenha)

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Após a morte de sua mãe, uma garota tenta impedir que seu padrasto ataque sua irmã mais nova, e acidentalmente a mata. O padrasto manda a enteada sobrevivente para um manicômio e suborna um dos enfermeiros para lobotomizar a garota e assim impedi-la de contar a verdade a alguém. Presa no manicômio a três dias do procedimento, a única fuga que a menina tem é sua própria imaginação.

Assim começa a história largamente divulgada como um filme de ação com garotas bonitas usando pouca roupa, Sucker Punch – Mundo Surreal (Sucker Punch, 2011), o primeiro longa autoral do diretor Zack Snyder, considerado um fracasso de crítica e bilheteria. Talvez esse fracasso seja justificado já em seu título: “sucker punch” é um soco desferido de surpresa para atingir um oponente desprevenido, e é possível que não houvesse nome melhor.

O filme se passa em três níveis diferentes: o manicômio onde a protagonista (ou não) Babydoll está presa, uma versão imaginária desse mundo onde ela está presa em um bordel entretendo convidados com números de dança enquanto suas amigas se prostituem e um terceiro mundo de imaginação, para onde a garota vai durante suas performances, em que as pacientes enfrentam demônios, orcs, zumbis steampunk e robôs usando roupas fetichistas do imaginário nerd.

Apesar da sexualização das personagens femininas e das cenas de ação parecerem gratuitas a primeira vista, existem no filme uma série de detalhes e metáforas visuais nos três níveis de imaginação de Babydoll que formam uma história completa. Alguns objetos podem aparecer de outra forma, algumas pessoas podem aparecer em outra função, algumas situações podem ser metaforizadas, mas os três níveis de consciência contam uma mesma história e se complementam nessa idéia. Enquanto Babydoll luta contra monstros para recuperar um objeto essencial para fuga no terceiro nível, ela distrai com sua dança os homens ao seu redor para que suas amigas roubem esse objeto no nível do Bordel. O filme nunca mostra exatamente como esses homens são distraídos no plano do manicômio, mas o que é sugerido é bem pesado.

Um daqueles filmes “ame ou odeie”, Sucker Punch não foi feito para ser entendido literalmente e nunca se explica para o espectador, exatamente por isso a internet é cheia de teorias sobre o que realmente se propõe a contar: Seria a história de uma garota que foge da realidade para lidar com seus traumas? Ou uma metáfora feminista? Quais personagens existem e quais são apenas parte da fantasia? Cada pessoa vai entender algo diferente, e isso para mim é o que torna o filme uma obra que vale a pena ser assistida e discutida. Na pior das hipóteses, se essas questões não forem bem a sua praia, tudo é tecnicamente lindo, os visuais tiram o fôlego, a trilha sonora conversa com a narrativa perfeitamente e o Snyder dirige cenas de luta como ninguém, então dá para se divertir vendo uns robôs sendo cortados no meio.

Ficha técnica:
Direção: Zack Snyder
Roteiro: Zack Snyder, Steve Shibuya
Elenco: Emily Browning, Abbie Cornish, Jena Malone, Vanessa Hudgens, Jamie Chung, Carla Gugino, Oscar Isaac, Jon Hamm, Scott Glenn
Nacionalidade e lançamento: EUA, 2011

Vinicius Mendes

Escritor, redator publicitário e conspirador pela dominação mundial. Quando não está trabalhando ou estudando, assiste animações e filmes chatos, conhece uns graphic novels e mangás, lê de Paulo Coelho a Saramago, joga videogame e RPG de mesa e tenta fazer receitas de doce que aprende no Youtube.

  • Retirando o mundo da imaginação e suas metáforas, o filme ficaria pesado demais. No final das contas, assistir a orcs sendo decepados é muito mais leve do que a realidade nua e crua.

  • Brueh

    Muito bom o texto. Quando assisti pela primeira vez eu pensei: esse é um “inception” criado por um nerd. Esse conceito escapista da realidade faz todo o sentido no filme, considerando a situação lamentável daquelas meninas. Também faz sentido as meninas serem bonitas e sexualizadas, ja que a intenção do filme é sempre dar o ponto de vista delas, e por isso até a própria auto-imagem não precisa ser literal, mesmo no plano do manicômio.

  • Hideki Nagao

    O filme me apresenta dois momentos memoráveis: brainless fun e reflexão crítica. Na parte do brainless fun, que deve ser, na minha opinião, o primeiro estado mental para assistir o filme, tem uma arte muito bem feita, gráficos bem tratados, música condizente com o passo da cena, e metáforas estrategicamente posicionadas, um orgasmo audiovisual pra qualquer nerd. Em um segundo momento, assistindo o filme uma segunda vez, o conhecimento prévio do roteiro permite ver as motivações, estratégias e metáforas utilizadas, e pq foram utilizadas. Admito que não é o filme mais mindblowing do mundo, mas vale assistir duas vezes.