The Guardian – CAPÍTULO XI – “Desaparecido”

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O Cassino Chanelle era exatamente como eu imaginara. Grande, o amplo salão contava com vários quadros e esculturas de anjos, o que era sugestivo, devido ao nosso objetivo ali. Estava lotado naquela noite e garçons bem vestidos iam de um lado para o outro levando espumantes e flor-de-lótus para os jogadores. Era um ambiente estranho para mim, mas as garotas da minha idade que estavam acompanhando velhos ricos em suas jogatinas, não pareciam se importar.

– ora, ora, o bom filho à casa torna! – comemorou um homem alto, esguio e com feições um tanto quanto parecidas com as de Cal.

– Gary. – Cal disse, tranquilamente.

– não vai me apresentar à sua garota e seus amigos? – disse ele, sorrindo abertamente.

– ela não é… – Cal suspirou, vencido. – Arianne, Luiza e Luke, este é Gary Schereave. Meu pai.

– espera, quer dizer que seu pai é vivo? – espantei-me. – quantos anos o senhor tem? – soltei.

– diria que muitos. – disse Gary, gentilmente. – acredito que meu filho tenha esquecido de mencionar que eu estava com ele no Purgatório.

Luiza arregalou os olhos. Droga.

– purgatório? Essa boate é demais – ela gritou, histérica. Fica em Nova Iork, né?

Gary a olhou como se fosse maluca.

– é, é, sim Luiza… ahn… digamos que ele esqueceu… – eu disse, olhando de soslaio para Cal. – o senhor sabe quem é o responsável pelo CRT e se ele está aqui? – perguntei.

– Called, você tem sido muito relapso! – Gary estava zangado. – permita-me apresentar o diretor do CRT e dono do Cassino Chanelle. – disse, apontando para si mesmo.

– pessoal, esse cassino é… da família. – Cal passou a mão pelos cabelos, sem jeito.

– uau, quantas omissões em uma só noite. – Luze disse.

– você nem faz ideia. – ouvi Luke dizer a ela. – olha, Luze, tem um Just Dance aqui, o que você acha de uma batalha? – Luke tentou.

– claro! – e olhou para mim, como se pedindo permissão. Apenas assenti. – Vamos, vou acabar com você.

– quem é mesmo que é o mentiroso? – Luke sussurrou ao começar a se afastar.

– agora você vai me escutar. Você nos trouxe aqui, eu quase fui devorada por um guardião maluco que quer a sua pele. – apontei o indicador direito para seu peito. – e nem pra me contar que tem um cassino e que seu pai é o diretor do CRT? – joguei as mãos para o ar. – tem mais alguma coisa que eu precise saber antes de mais nada? – fitei-o, furiosa.

– tem muitas coisas que você.. que vocês três não sabem. – disse ele, cauteloso. – mas as coisas fogem do meu controle, não sou apenas eu que sei de tudo. – revirou os olhos. – muita gente está envolvida nessa história toda. E quando eu digo muita gente, me refiro à pessoas da Casa Branca. Pessoas do governo, atores de Hollywood, não é só da minha família que eu me refiro. Vocês precisam ter paciência. E eu iria contar sobre meu pai e o cassino, se você não estivesse agindo como uma mimada por causa de uma frase que eu falei para não te apavorar! – bradou. – eu já disse que preciso que você confie em mim, Arianne! – falou, agora, com a voz mais suave, como se fosse uma súplica.

– bom, garotos, o papo está ótimo, mas eu devo perguntar o que os trouxe aqui. – interrompeu Gary. – presumo que Called não se deslocaria de Bournemouth até aqui somente para visitar seu velho pai.

– Gary, Arianne foi atacada por um Menjox em Bournemouth e depois foi ameaçada por Mellina, esfaqueada e feita de refém. – Cal explicou toda a situação à seu pai. – e, claro, precisamos saber porque eu não consigo, em hipótese alguma, ler a mente dela. – Cal parecia perturbado. – e tem o episódio no hotel. Kevvin a jogou contra a parede, que se rachou, e ela não sente dor alguma… – uma linha fina formou-se na testa de Cal.

– bom, acredito que vamos precisar fazer algumas pesquisas. – disse Gary, franzindo o cenho. – o que acham de passar alguns dias comigo aqui? – perguntou, animado.

– como vamos nos hospedar num cassino? – perguntei, confusa.

– tem quartos de hotel aqui em cima. – Cal disse, apontando para a escada ao fundo do cassino. – você acha que Gary dorme em cima das mesas de poker? – ironizou.

– claro, claro. – disse Gary. – vocês podem ficar nos quartos do hotel. Temos dois livres. – disse, jogando a decisão para nós.

– eu fico em um quarto com Luze e você divide o outro com Luke. – sugeri.

– eu não vou dormir num quarto com Luke. – Cal informou.

– ok, então eu fico no quarto com Luke. – tentei.

– negativo. – protestou. – você não vai dormir com esse cara. – fez uma carranca. Cal estava enciumado. Por dentro, eu estava rindo enlouquecidamente.

– você está tentando dormir comigo? – perguntei a Cal, sem me dar conta de como aquilo soaria.

– você é quem está dizendo. – Cal sorriu, dando de ombros.

– Enfim… – Gary cortou. – amanhã pela manhã vamos à biblioteca fazer umas pesquisas. Temos muito o que desvendar. Vamos, vou mostrar onde vocês se acomodarão.

Passei no Just Dance e expliquei a situação à Luke. Eu teria que contar logo tudo à Luiza, se não quisesse causar mais nenhum desconforto. Ela merecia saber de tudo, afinal. Luke pediu para contar à ela hoje à noite. Assenti e resolvi que realmente seria o melhor. Não estava conseguindo lidar com isso agora.

O quarto do hotel do cassino era enorme e lindo. Havia duas camas. – para meu alívio. – e ambas eram grandes e espaçosas, até mesmo para duas pessoas. Havia também um armário e um banheiro com uma banheira de hidromassagem.

– a cama da parede é minha. – disse Cal, atirando-se em cima da cama que ficava na parede, próxima a janela.

– tudo bem, como quiser. – dei de ombros.

– escuta… eu sei que você não está nada feliz com a situação e que queria estar em um quarto individual e deu até para perceber seu alívio ao ver que tem duas camas no quarto… – disse Cal. – mas acho que nós podemos e devemos nos acertar. Tudo bem que você me odeie e eu entendo isso. Mas eu gostaria que ao menos pudéssemos conviver amistosamente, então. – disse ele, com um sorriso torto no rosto.

– eu não odeio você. – fiz uma careta. – é que isso tudo é muito novo para mim, Cal. Estou no país em que eu vivi parte da minha infância e o país que enviou meu pai em uma missão suicida. O país que fez minha mãe fugir para a Inglaterra para esquecer das lembranças que teria aqui. – suspirei. – e toda essa história de que talvez eu não seja humana e você… você sendo… você… – minha respiração começara a ficar irregular. – você fica repetindo que eu sou o seu trabalho e que você precisa fazê-lo…. – balancei a cabeça. – você precisa entender que eu não estou acostumada a nada disso e que é doloroso ser um fardo desse para alguém. – disse, finalmente.

– quem disse à você que você é um fardo para mim, Arianne? – Cal balançou a cabeça, incrédulo. – não sei de onde você inventa essas coisas. De qualquer forma, não. Você não é um fardo ou “apenas um trabalho” para mim. – Cal aproximou-se de mim, fazendo aspas com as mãos. – e nunca será só isso. – disse, perto o suficiente para que eu sentisse sua respiração. – você é muito mais que um trabalho. – sussurrou. – espero que perceba isso, no seu tempo. – disse, me dando um beijo na bochecha.

Cal saiu do quarto e eu queria cavar um buraco no chão e me esconder. Ele tinha o poder de causar em mim a sensação de querer desaparecer por tê-lo desapontado. E eu agradecia mentalmente sempre por ele não poder ler a minha mente. Cal achava que eu queria distância dele. E não fazia ideia do efeito que tinha sobre mim. Isso tinha de me ajudar, de alguma forma.

Mais tarde, depois de eu já estar deitada olhando para o teto, tentando dormir, Cal retorna ao quarto. Ele certamente pensou que eu estava dormindo, porque não hesitou em tirar a camiseta e ficar apenas de calça jeans na minha frente. Pensei em gritar, fazer um escândalo, mas apenas permaneci calada, observando. A falta de tecido no corpo deixou em vista ainda mais os músculos definidos nos braços, peito e abdômen. Quando Cal se virou de costas percebi que haviam muitas cicatrizes ali. Como cortes, bastante profundos. Era assustador. Suspirei. Ele se virou, abismado.

– você está acordada? – perguntou, os olhos arregalados. Era a primeira vez que vira Cal enrubescido.

Fechei os olhos automaticamente.

– eu não vi nada. – menti.

– nada o que? – perguntou, rindo. – como sabe que eu tinha tirado a camiseta se você não estava vendo?

Abri os olhos.

– ok, eu vi você sem camiseta, mas isso não é nada, está tudo bem. Não me julgue por gostar de ver alguém bonito como você sem camiseta. Pode parando de me olhar com esses olhos hipnotizantes e com esse sorriso idiota no rosto. – falei sem nenhuma pausa. – ah. Você está zoando com a minha cara. – percebi.

– você é uma graça constrangida. – Cal riu.

– e você é um idiota. – devolvi. – vá para o banheiro se quer tirar a roupa. – disse.

– por que eu iria ao banheiro se você quer tanto assistir? – disse, convencido.

– você é patético, Called.

– você é linda, Arianne. – disse ele. Seus olhos brilhavam sob a luz do luar que entrava pela fresta da cortina da janela. – incrivelmente linda. Inacreditavelmente linda. – ele sorria.

– você precisa parar com isso. – disse eu, envergonhada. Eu, definitivamente, não sabia lidar com elogios. Não vindos de alguém como Cal.

– e fica ainda mais linda de pijama de gatinhos. – agora ele riu alto.

E só então percebi que estava de pijama, conversando com um cara sem camiseta que iria dormir no mesmo quarto que eu. Minha mãe teria vergonha se me visse agora. Quem é você, Arianne?

– já chega. Vá para o banheiro e eu irei dormir, ok? – pedi.

– como quiser, anjo. – Cal disse e se dirigiu ao banheiro, rindo de forma divertida.

Minha cabeça ainda rodava com a imagem das costas de Cal. Não conseguia parar de pensar no que teria acontecido com ele.

Na manhã seguinte, fomos tomar café no hotel. O refeitório ficava na parte de trás do Cassino, que ainda estava em pleno movimento às 9 da manhã.

– muito bonito, heim, dona Arianne. – Luiza me segurou pelos ombros e me abraçou. – por favor, me diga que vamos ficar bem. Por favor. – ela estava chorando. – que história maluca. – me olhou, agora secando as lágrimas.

Meia hora mais tarde, depois de contar detalhes à Luiza sobre toda a história e ter contado sobre Luke não ser original e fazê-la prometer não falar nada à Cal, Luiza finalmente estava mais calma.

– Luze, Cal tem muitas cicatrizes nas costas. O que você acha que pode ter acontecido? – perguntei antes que os meninos e Gary chegassem.

– Oh minha nossa, ele tirou a roupa para você! – Luiza praticamente gritou. – eu sabia que deveria deixar vocês sozinhos. Minha nossa, ele é um gato! Como foi? Foi um strip-tease?

– cale a boca, Luiza! – ordenei. – ele não fez nada! Ele achou que eu estivesse dormindo e tirou a camiseta e foi só. – omiti a parte em que ele me descobrira. – e então eu as vi. São feias, pareciam de cortes profundos.

– oh, desculpe. Estava brincando quanto a ele ser bonito. E quanto a deixar vocês dois sozinhos também. – tentou desculpar-se. – mas, sobre as cicatrizes, sinistro. Ele deve ter sido torturado ou algo assim. – deu de ombros.

– mas ele não tem cara de quem foi torturado. – disse. – ele não parece ser o tipo de pessoa que iriam querer torturar.

– Luke não havia lhe dito sobre como um guardião é torturado se seu protegido morre? – indagou Luiza. – pode ser isso. Ele deve ter perdido alguém.

Por isso ele se empenhara tanto em me proteger. Claro. Ninguém iria gostar de passar por algo parecido novamente, concluí.

– uau, esse cassino não para nunca? – Luke comentou, juntando-se à nós na conversa, enquanto aguardávamos Cal chegar para irmos encontrar Gary, na biblioteca.

– onde está aquele cara? – Luiza questionou.

– não faço ideia. Ele não estava mais no quarto quando acordei.

– bom dia, queridos. Como dormiram os meus hóspedes? – Gary disse, ao avistar-nos.

– bem, obrigada, sr. Schereave. – sorri, de forma gentil. Realmente, uma noite de sono fizera muito bem ao meu humor.

– por favor, apenas Gary, querida. Onde está meu filho desnaturado que não o vejo? – perguntou, erguendo uma sobrancelha.

– não fazemos ideia. – Luiza deu de ombros. – podemos comer algo? Eu estou faminta!

– Luiza, isso são modos? – Luke repreendeu.

– tudo bem, Luke. – Gary deu uma gargalhada. – vamos, vou mostrar-lhes o refeitório.

Seguimos Gary até uma cozinha ampla, com uma mesa para umas 20 pessoas. Levamos algum tempo para finalizar nossas refeições e Cal ainda não aparecera.

– estou preocupada com Cal. – disse, finalmente tirando a bola presa à minha garganta. Eu estava prestes a chorar.

– fique tranquila, querida. Cal sabe se cuidar. – garantiu Gary, ainda que sem muita convicção em sua voz.

– tudo bem. Acho que precisamos iniciar a pesquisa, não é? – perguntei. Eu precisava ocupar minha cabeça com algo.

– sim. A biblioteca é por aqui. Vamos até lá.

Passamos o restante da manhã na biblioteca. Fizemos uma pausa de apenas 30 minutos para o almoço e retornamos ao trabalho.

A tarde passou rápido, mesmo com meus olhos fixos no relógio e o meu coração aflito pela ausência – e repentino desaparecimento – de Cal.

– ok, Gary. Alguma coisa está errada. – disse, quando não conseguia mais me concentrar em nada que não fosse a ausência de Cal. – você sabe que está. O que está havendo?

– eu não sei, minha querida. – parecia sincero. – e eu também estou ficando aflito. Passou-se um tempo razoável desde que Cal foi visto pela última vez.

Sheron Vargas

Estudante HARD de Psicologia, profissional de RH, catequista católica, escritora aspirante e jogadora de futsal (E THE SIMS) nas horas vagas. 22 anos; paixãozinha básica por filmes, séries, etc, etc e etc e, claro, por romances ficcionais (<3)