The Handmaids Tale (livro) – resenha sem spoiler

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Salve, salve, seres humanos de um mundo desgraçadamente teocrático.
Fazia tempo que eu não fazia resenha de nenhum livro e isso tem um motivo muito simples: Os últimos livros que eu li não mereciam. Não que fossem ruins, mas eram mortalmente desinteressantes para quase todo mundo. Agora eu terminei de ler o The Handmaids Tale, que foi adaptado esse ano para uma série, logo está na boca do povo, e aqui estou, de volta falando de livros.

 

The Handmaids Tale - livro capa

 

A história é a mais ou menos a seguinte: Em algum momento no final do século 20 (é no futuro, já que o livro é publicado em 86) a taxa de natalidade começa a cair vertiginosamente nos Estados Unidos e um novo regime entra no poder. A história segue o ponto de vista de uma cidadã comum, que é tolhida de informação, então não sabemos como esse regime toma o poder, mas podemos perceber suas principais características.

A República de Gilead é um regime totalitário e teocrático com uma doutrina baseada no velho testamento. As Aias, as mulheres que ainda são férteis, servem como “úteros com pernas” para os comandantes militares. Todas as pessoas são vigiadas pelos Olhos e qualquer desvio à ortodoxia é punida severamente com o expurgo e, muitas vezes com a morte. A leitura é proibida para todas as mulheres, assim como o direto à posse.

Enquanto sobrevive nesse regime, Offred tenta descobrir os segredos das pessoas que controlam o seu destino ainda que isso coloque a sua vida em risco.

“Talvez estivesse apenas sendo amistoso. Talvez tenha visto a expressão em meu rosto e a interpretado erroneamente como sendo outra coisa. Na verdade, o que eu queria era o cigarro.
Talvez tenha sido um teste, para ver o que eu iria fazer.
Talvez ele seja um Olho.”

O que eu achei?

O livro é uma excelente distopia. Muitos dos elementos de 1984 estão presentes no texto, as vezes de forma muito clara, as vezes de forma mais discreta. Não estou falando de cópia. Acontece que, a meu ver, alguns elementos são necessários para que um sistema distópico funcione e esses elementos vão surgir de uma forma ou de outra.

A questão da vigilância constante, a criação de uma desconfiança mútua entre pessoas de uma mesma classe, a limitação do acesso à informação, a criação de uma guerra permanente a fim de criar um sentimento de nacionalismo, uma sociedade muito ritualizada, todos esses são elementos presente nas duas obras e de forma totalmente diferente.

A principal diferença é que, em The Handmaids Tale, a sociedade teocrática, enquanto em 1984 a figura divina é o próprio Partido por meio da figura do Grande Irmão.

“[…]Elas punham para tocar uma gravação em disco, a voz era de um homem. Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados os misericordiosos. Bem-aventurados os mansos. Bem-aventurados os que se calam. Eu sabia que este último eles tinham inventado, sabia que estava errado, e que tinham excluído partes também, mas não havia nenhuma maneira de verificar. Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados.
Ninguém disse quando.”

Saindo das comparações e falando do livro de fato. A autora, Margaret Atwood, trata magistralmente o silêncio e o vazio. Alguns dos capítulos inteiros mostram a personagem em seu quarto, em silêncio, pensando na existência. E é através desses capítulos que ficamos sabendo a história pregressa, tanto da personagem, quanto da virada do regime “convencional” para o regime de Gilead.

Outro grande mérito do livro é a forma como a autora usa as palavras e as metáforas. O domínio que ela demonstra é simplesmente genial.

Entro na água, me deito, deixo que me abrace. A água é como mãos. Fecho meus olhos, e ela está lá comigo, subitamente, sem aviso.

Um ponto que pode incomodar alguns leitores é que The Handmaids Tale não é um livro “completo”. Não espere entender todo o processo pelo qual a República de Gilead surge ou como ela termina, se é que termina. A protagonista, e narradora, não tem essas informações e você não vai ter. Eu, adoro contos e adoro essa incompletude que nos permite montar a história em nossas cabelas. Mas para quem não gosta, isso pode ser um problema.

Algo que me incomodou um pouco foi o final corrido. As últimas reviravoltas acontecem todas muito rapidamente nos últimos 3, ou 4, capítulos. Achei que dava pra alongar um pouco mais no final. Mas não é algo que comprometa a qualidade do livro.

“Uma história é como uma carta. Caro Você, direi. Apenas você, sem nome. Acrescentar um nome acrescenta você ao mundo real, que é mais arriscado, mais perigoso: quem sabe quais serão as probabilidades lá fora de sobrevivência, da sua sobrevivência? Eu direi você, você, como uma velha canção de amor. Você pode ser mais de uma pessoa.
Você pode significar milhares.
Não estou correndo nenhum perigo imediato, direi a você.
Fingirei que você pode me ouvir.
Mas não adianta, porque sei que não pode.”

The Handmaids Tale está barato na Amazon. Recomendo

Em resumo é isso. Ótimo livro. Muito competente e muito gostoso de ler. Recomendo.
Se já leu ou se interessou em ler, deixe aí seu comentário.
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Um abraço.
E tchal.

Nolite te bastardes carborundorum.

 

vulto

"Depois de mim sou eu."