Você já assistiu Westworld da HBO? ASSISTA!

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13 (Cena inicial com a mosca da série WESTWORLD da HBO.)

Uma mulher loira, suja e sentada nua em uma sala fria parece sofrer um interrogatório. Não parece sentir nada mais. A sala de vidro e perfis metálicos é provavelmente resfriada por condicionadores de ar, provavelmente o ambiente é gelado, mas a mulher não esboça sequer um espasmo pelo frio. A inércia sensitiva desta mulher é confirmada quando a câmera fecha o close em seu rosto e uma mosca pousa em sua face. A mosca caminha pela testa, por uma sobrancelha e pelo globo ocular. Os olhos não piscam.

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(Cena inicial da mosca do filme Once Upon a Time in the West.)

Esta é a primeira cena do episódio piloto de Westworld, a mais nova série da HBO. Uma cena que me fez lembrar de um famoso trecho de um dos filmes mais clássicos de faroeste: Era uma Vez no Oeste de Sérgio Leone. A cena se passa bem no início do filme, quando 3 capangas, ansiosos pelo desembarque de um cowboy que desejavam assassinar, esperam a chegada do trem em uma estação ferroviária deserta. A espera é retratada como algo maçante e um dos “malvados” senta em um banco de madeira, cruza os braços e espera. O seu sossego logo é perturbado quando uma mosca pousa em sua face o importuna fazendo um passeio sobre o seu rosto. O homem meche os músculos da face, faz bico, meche as sobrancelhas e sopra a mosca tentando a expulsar, ações que demostram o incômodo causado pelo inseto e a preguiça que o impede de levantar a mão e dar um tapa.

Já na cena de Westwolrd a mulher não faz nada, não sente incômodo, não sente preguiça, não possui reações humanas e logo a imagem muda e a tela te transporta para um cenário de faroeste onde a história desta mulher começa a ser contada. Você então aprende que ela se chama Dolores Abernathy, que possui um pai preocupado e um namorado bonitão, Teddy Flood. Logo alguns vilões aparecem e você entende que todos os estereótipos do faroeste estão presentes e de uma forma até caricata. Enquanto estes estereótipos estavam sendo apresentados, eu tive a certeza que seria uma série chata (mas eu estava enganado). Todos os personagens eram muito limpos, o que não corresponde à realidade empoeirada do oeste americano daquela época. Mas logo um outro núcleo de personagens é revelado e eu entendi que eles são todos espécies de robôs e que aquilo tudo era mesmo para ser encenação. Todo aquele cenário de western americano não passa de uma simulação controlada para o deleite de turistas endinheirados. Tudo aquilo não passa de um parque de diversões. Então, você aprende que os visitantes são os “convidados” e os atores, “anfitriões”, são na verdade espécies de robôs ou algo mais orgânico como um replicante de Blade Runner, talvez algo no meio termo, e que eles seguem uma espécie de roteiro onde pode haver pouca variação. Logo aparecem turistas de diversas etnias e origens sujando o palco. Deixam cair fotos e falam o que não deviam falar. Outra cena desperta a atenção: seguindo o roteiro pré-determinado, um dos anfitriões parece ter problemas técnicos: uma mosca pousa em seu rosto e ele começa a ter espasmos violentos de seus músculos faciais. Novamente uma mosca. Talvez seja uma referência ao filme do Sergio Leone anteriormente citado, talvez seja o símbolo do inesperado, do imprevisível, assim como a pena do início do filme do Forrest Gump. O inesperado sempre acontece e por mais que o ser humano tente criar ambientes artificiais totalmente controlados, o conflito é condição inerente à sociedade humana, ainda mais nas obras literárias e cinematográficas.

E o último episódio? 

Começa praticamente da mesma forma como se iniciou o episódio piloto. A câmera logo foca no rosto de Dolores e uma voz aciona seus comandos como se apertasse botões de suas engrenagens. Desta vez o corpo nu da mulher se encontra mais exposto ainda: no lugar da pele branca podemos ver a infraestrutura de metal e cabos. No ultimo episódio o roteiro responde a todas as perguntas colocadas durante a série. Você descobre que o homem sem nome tem realmente um e descobre que o nome sem rosto é de uma feição muito mais familiar do que você imagina. Você encontra o fim de todo labirinto que a série te apresenta e aprende que não há estereótipos definidos, não há mocinho ou bandido.

Enfim…

Westworld combina com maestria dois mundos aparentemente distintos: o Western e a ficção científica. Muitas outras obras tentaram fazer esta mistura, como As loucas Aventuras de James West e Aliens Versus Cowboys, por exemplo, mas não obtiveram êxito, muito pelo contrário. Por outro lado, Westword começa com um ótimo primeiro episódio que deixa claro os rumos do desenvolvimento da história (as máquinas irão se rebelar), mas instiga o espectador a acompanhar a jornada. O elenco é de primeira com Anthony HopkinsEd HarrisJames MarsdenRodrigo Santoro, entre outros. No entanto, o mais interessante é que a série não é só explosão, tiros e leite saindo de buracos de projéteis da barriga de homens mortos. A série é sobre simulacros, manipulação e sussurros. Pode parecer uma questão de ficção científica, mas você já pensou que alguns dos ambientes que você frequenta hoje podem ser simulacros? Podem ser ambientes que parecem ser algo que não são? E eu não estou falando de parques de diversão, estou falando de lugares com intensões bem menos escancaradas. Os shopping centers, por exemplo, são representações do espaço urbano transferidos para uma “realidade” controlada, climatizada e aparentemente segura, mas a verdade é que todo o seu ambiente é desenhado e pensado para criar uma ambiência que suspenda a realidade, crie uma sensação de perda de tempo e estimule a compra por impulso. Você já ouviu falar do Efeito Gruen? É o efeito de confusão que a ambiência dos shoppings nos causa transformando-nos em consumidores zumbis. A verdade é que cada vez mais a realidade é subjetiva e os avanços tecnológicos aceleram este movimento. Westworld é uma série que te faz questionar a sua própria realidade e vem para esfregar isto em nossa cara como uma mosca tateando pelo nosso globo ocular.

Se você não assistiu, ASSISTA!

Um grande abraço.

Diogo Braga

do podcast Diário do Menestrel e do Casos e Causos.

(O homem sem nome. Mais um estereótipo do western presente em Westworld?)
(O homem sem nome. Mais um estereótipo do western presente em Westworld?)